4 de Junho de 1977 :  40 anos depois  já não há justiça nem para os algozes, nem para as vitimas

5/06/2017 01:42 - Modificado em 5/06/2017 01:42

Fez ontem, 4 de Junho , quarenta anos  que um grupo de sanvicentinos iniciou uma descida ao inferno. Um inferno de torturas .Prisões arbitrárias . Humilhações, Vidas destruídas. E sobretudo de um silêncio  cúmplice  que de tanto silêncio  nos faz acreditar  que nada “de grave aconteceu” no dia 4 de Junho de 1977  na cidade do Mindelo .Mas aconteceu . Pacatos cidadãos , que  se cometeram algum crime , mesmo no entender do regime do partido único , foi espalhar panfletos contra a “unidade Guiné-Cabo Verde “, foram presos e torturados . Este facto está provado e comprovado . O  regime do partido único e os seus dirigentes nunca conseguiram provar que esses cidadãos “ preparavam ataques terroristas “. Nunca se provou a sua conexão com” um pretenso inimigo  externo” Mesmo que o tivessem confessado , hoje é  facto que essas confissões   foram tiradas  sob tortura .E tarde para se procurar os culpados . E tarde para se julgar na praça pública. È tarde para se exigir justiça .Pois quarenta anos depois  já não há justiça nem para os algozes , nem para as vitimas . Mas não é tarde para acabar com o silêncio  e revisitar essas páginas negras da nossa história  em nome da decência , em nome das desculpas que nunca foram pedidas  e sobretudo para reafirmar que  no dia  4 de Junho de 1977 um grupo de sanvicentinos iniciou uma descida ao inferno . Um inferno de torturas  . Prisões arbitrárias . Humilhações, Vidas destruídas.

A partir de hoje publicamos na íntegra depoimentos das vitimas que foram publicados no jornal Expresso das Ilhas

 Agnelo Alves

É preso e passa os primeiros dias sem qualquer alimento nem água. A família não sabe o que lhe aconteceu. Sem poder tomar banho e com uma lata de azeite como retrete, só tem acesso aos primeiros cuidados de higiene no dia em que é levado para interrogatório (um banho de três minutos, sem sabão). No antigo quartel de João Ribeiro começa o questionário e as torturas com choques eléctricos, durante horas, até ser retirado em braços da cela. Depois de assinar uma confissão que não lera, passam-se semanas até que a família seja autorizada a levar-lhe comida, mas tinham de chegar até uma certa hora em ponto, ao mínimo atraso e os alimentos eram deitados aos cães. Lembra-se dos outros presos, Lulu Marques, metido numa cela isolado, a gritar durante três dias consecutivos, próximo da loucura. Toi de Forro, igualmente isolado, com um braço e costelas partidas, acabando por morrer porque ninguém o deixou ser visto por um médico.
Manuel Chantre

É levado igualmente para João Ribeiro. É questionado sobre a “organização”, o nome do chefe e dos integrantes. Perante o silêncio, é espancado até quase ao desmaio. São-lhe mostrados os panfletos que circularam pelo Mindelo: “Homens do PAIGC regressem para o mato onde a barba é simples resguardo da pele do rosto e não o símbolo da divindade humana. O povo já não vos quer, o povo já não vos tolera mais”. Perante a ameaça de mais sevícias, Manuel Chantre confessa que tinha sido ele a estampar os panfletos e que não havia organização alguma. Isso não satisfaz as autoridades. Os interrogatórios continuam, sempre sem a presença de advogados de defesa ou de escrivães para anotarem as palavras dos presos, mas a máquina de choques eléctricos nunca faltava. Como disse anos mais tarde: “Eu fazia parte de um grupo anti-PAIGC, mas não se tratava de qualquer conjuração ou conspiração para a perpetração de qualquer crime contra a segurança interior ou exterior do Estado, nem de qualquer conspiração que tivesse tomado a forma de associação ilícita ou organização secreta com vista ao incitamento ou execução de qualquer crime”. Manuel Chantre fica preso na Ribeirinha até Janeiro de 1979.

 

 

  1. Clara Medina

    “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” (Edmund Burke)
    Aqui está o perigo. O povo cabo-verdiano, claro está, infelizmente uma grande maioria não está interessado em conhecer a sua história.
    Está mais fascinado em repetir e papaguear falsas passagens da história muitas vezes que não passam de ficção do que se informar e investigar a realidade histórica. Tenho a impressão que a realidade histórica é tão chocante que as pessoas preferem nega-la e desconhecê-la mas é um comportamento de avestruz.
    Grande iniciativa destes jornais, que eu saiba Expresso e Notícias do Norte, por retirarem do baú do esquecimento estes tristes episódios dum período negro da nossa História.Para os praticantes destes crimes seria até uma espécie de purificação da sua alma e os aliviaria de um imenso remorso que decerto os aflige diariamente e também um alívio do seu sofrimento quando chegar a hora de serem chamados para o Juízo Final.
    O Estado de Cabo Verde, que vangloria de ser um Estado de Direito, só poderá usufruir deste título, quando entre outros, pedir perdão à essas vítimas inocentes dum grupo de satânicos e sadistas.
    Apesar de um pouco tarde, nunca é demasiadamente tarde para o Estado de Cabo Verde declarar a sua “mea culpa”.

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