Eleições na Venezuela: desta vez, vitória de Chávez não é certa

30/09/2012 19:15 - Modificado em 30/09/2012 19:15
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Os opositores do Presidente da Venezuela nunca estiveram tão expectantes. Recuperaram a confiança no voto e uniram-se à volta de Henrique Capriles para as presidenciais de domingo.

 

Faltam sete dias. Sorrisos nas paredes, nos semáforos, nos postes de electricidade de Caracas. O rosto de Hugo Chávez. “Chávez coração da minha pátria”. O rosto de Henrique Capriles. “Há um caminho”. Quererão os venezuelanos aprofundar as políticas de quem os governa há 13 anos ou mudar de rumo?

Chávez tem evitado a rua. Domingo, apoiantes seus esperaram-no em vão em Cabimas, no estado de Zúlia. Aproveita viagens presidenciais para fazer campanha. A 14 de Setembro, por exemplo, entregou casas em Los Llanos e seguiu, em caravana, até uma concentração. Promete maior eficiência, insiste na separação entre “burguesia” e “povo”.

Capriles já perdeu cinco quilos desde 1 de Julho. Não pára. Está a fazer a sua última ronda à Venezuela. Hoje Caracas, amanhã Amazonas e Bolívar, terça-feira Mérida e Anzoátegui, quarta-feira Portuguesa e Zúlia, quinta-feira Miranda e Lara. Contacto directo, propostas para cada zona, mensagem de conciliação.

“Ele precisa disso; Chávez não; Chávez já andou muito nos últimos 14 anos”, diz Annie Carnevali, uma estudante de 23 anos, no penúltimo ano do curso de Estudos Jurídicos, sentada num banco corrido da Universidade Bolivariana da Venezuela. “Ele está doente, não pode andar como antes”, justifica Zenaida Hernández, de 58 anos, a idade do seu Presidente, a vender café num carrinho coberto por uma bandeira vermelha.

O candidato à reeleição recupera de um cancro que lhe foi diagnosticado no ano passado e que o forçou a sujeitar-se a três intervenções cirúrgicas e a inúmeras sessões de quimioterapia e radioterapia. Mas a qualquer momento entra em directo para todos os canais de televisão e rádio que emitem em sinal aberto.

Pelas contas de Carlos Correa, da organização não governamental Espacio Público, de 1 de Julho a 25 de Setembro, Chávez entrou em “rede nacional” 2597 minutos, o que dá uma média de 30 minutos diários. “É um abuso”, sentencia. Nos quatro meses de campanha presidencial de 2006, usou 656 minutos. Será uma forma de compensar a ausência na rua e “as fracas audiências dos canais públicos, muito governamentalizados”.

 

Capriles suscita paixões

Do aspirante a novo inquilino do Palácio de Miraflores muito se escreveu que não tinha carisma. Tem, porém, atraído multidões pelo país fora o jovial advogado, que saiu das fileiras do Primeiro Justiça, de centro, e foi consagrado candidato da Mesa de Unidade Democrática através de inéditas eleições primárias.

Sobram piadas sobre as paixões despertadas por Capriles. O entusiasmo nota-se até nas mensagens que recebe no Twitter, a mais popular rede social na Venezuela. “Toquei, abracei e beijei o novo presidente. Henrique Capriles, morrem de inveja porque és belo”, escreve-lhe a dona da conta @Daalmarza. Chávez também tem as suas devotas. “Olá meu amado presidente que Deus te guarde e abençõe e te livre do mal”, escreve-lhe @Soeangel 18.

Não falta quem vá por Chávez para a rua. Só em Caracas há 2400 “pontos vermelhos”. Junto às Belas-Artes, jovens distribuem propaganda e dão uso alternado a um microfone, numa interminável divulgação da “proposta do candidato da pátria, comandante Hugo Chávez, para a gestão bolivariana socialista 2013-2019”.

A campanha assalta o eleitor a qualquer instante. De todo o lado pode vir um sonoro ou silencioso apelo ao voto. Até as longuíssimas filas de trânsito da via rápida Francisco Fajardo servem para quem quer fazer da campanha um negócio. Homens e mulheres vendem bonés com as três cores da bandeira da Venezuela, as estrelas e o brasão que a compõem. Chamam-lhe “o boné proibido” ou “o boné de Capriles”. Eis o (inesperado) efeito de os advogados de Chávez terem processado Capriles por usar um boné com o símbolo nacional. Os chavistas optam pelo boné vermelho com o slogan de campanha bordado: “coração da minha pátria”. Ou pela camisola com os olhos do Presidente: há em verde-tropa, azul-celeste, azul-marinho, vermelho, amarelo, preto.Na Praça Simón Bolívar, o retrato de Chávez alterna com o do militar que liderou a luta pela independência da Venezuela e de outros países sul-americanos. Uma equipa de cientistas trabalhou dois anos na reconstituição facial. O rosto, desenhado a partir de uma tomografia computadorizada do crânio de Bolívar, é parecido com o das antigas pinturas, mas tem traços mais marcados, nariz maior, olhos menores.

Apesar dos ânimos terem serenado nos últimos anos, os opositores não se atrevem a fazer campanha ali. Numa esquina, há sempre velhotes sentados em cadeiras de plástico de frente para um televisor sintonizado num canal público. São uma espécie de guardiões do “processo revolucionário”. É a chamada “esquina quente”. Subindo a rua, até à Praça André Eloy Blanco, mais propaganda “oficialista”.Marco Estrella, 53 anos, está há 13 naquela rua. Vende camisolas, CD, DVD. “Muitas coisas mudaram aqui. Foi tudo renovado. Estamos no centro de Caracas. Estamos rodeados de ministérios. Aqui perto fica o palácio de Miraflores. Aqui perto, aconteceu o 11, o 12 e o 13 de Abril [de 2002]”.

A 11 de Abril de 2002, milhares de opositores marcharam desde o Parque del Este. Desviados para o Palácio de Miraflores, foram interceptados por chavistas e os confrontos fizeram vários mortos. Na madrugada do dia seguinte, militares anunciaram que Chávez renunciara. Pedro Carmona Estanga, então presidente da federação de empresários, assumiu a presidência e dissolveu a Assembleia Nacional, o Supremo Tribunal de Justiça, o Conselho Nacional Eleitoral. Na madrugada de 14, Chávez retomou o seu lugar.

Os lemas desse tempo conturbado ainda se ouvem nas ruas. “Uh, ah!, Chávez no se vá!”, gritam uns. “Uh, ah!, Chávez si se vá!”, gritam outros.

 

Oposição confiante

Ninguém sabe o que irá acontecer no próximo domingo, 7 de Outubro. As sondagens servem todos os gostos. Umas dão uma vitória confortável a Chávez, outras uma vitória à tangente. Algumas dão empate técnico, outras vitória a Capriles. O certo é que nunca a oposição se sentiu tão confiante. A tendência tem sido de subida de Capriles e de descida de Chávez, observa o analista político Carlos Raúl Hernández.

Em Agosto de 2004, embalado pelo sucesso dos programas sociais que então acabara de lançar, as chamadas “missões”, Chávez venceu o referendo revogatório. Dois anos depois, derrotou Manuel Rosales nas presidenciais. “Por amor fiz tudo, dá-me o teu voto por amor”, pedia. “Atreve-te a mudar”, incitava o adversário. Uns ansiavam pela consolidação do “processo”. Os outros – que já tinham tentado livrar-se do tenente-coronel com o golpe de Estado, a paralisação de dois meses, o referendo revogatório e a retirada das eleições legislativas – estavam a recuperar a confiança no voto e a criar um sentido de unidade. E agora?

A oposição não conta só com o desgaste. “O principal candidato da oposição usa uma linguagem de entendimento e não de conflito; a sociedade venezuelana quer entendimento, soluções para os seus problemas”, interpreta Hernández. “O partido do Governo fez uma campanha marcada pela violência, inclusive física.”

A realidade tem ajudado a construir o discurso da oposição: a queda da ponte de Cúpira, a explosão na refinaria Amuay, os estragos provocados pelas chuvas em Cumanacoa oferecem argumentos a quem aposta na ineficiência da sua governação. Nas últimas semanas, porém, Capriles tem estado sob fogo. Primeiro, o ex-governador David de Lima, que há uns anos estava com Chávez e que agora apoiava Capriles, deu uma entrevista a dizer que o candidato tinha uma agenda escondida: um pacote de “medidas neoliberais que colocariam em perigo a República”. Depois, o deputado opositor William Ojeda criticou o suposto documento secreto. Capriles reagiu então: “Não tenho cartas ocultas!” Ojeda foi expulso. Só que quatro pequenos partidos tiraram apoio a Capriles e apenas um voltou atrás.

No dia 22, milhares de pessoas palmilharam Caracas em defesa dos programas sociais. “Acreditam que um governo da burguesia manteria a missão Sucre, a missão Mercal, a missão Filhos da Venezuela? Acreditam que manteria a Grande Missão em Amor Maior? Tudo isso eliminariam!”, declarou o Presidente, em Trujillo. “O Governo intimida-os e ameaça-os. Querem viver num país onde os ameaçam para exercer os seus direitos?”, argumentou Capriles, negando querer acabar os programas sociais, prometendo reajustá-los para que não dependam de simpatias políticas.

“Há um caminho”. No cartaz, Capriles caminha em frente, de sapatilhas, boné, calças de ganga, camisa de manga curta. Petra Rengifo, uma costureira que trabalha numa cooperativa de Guatire, fez a camisa, agora na moda. A imagem pode prejudicar quem não quer ser colado ao passado. Lembra muito a campanha de Carlos Andrés Pérez em 1973. “Esse homem sim caminha, vai em frente, dá a cara”. O slogan ficou na memória colectiva. E também estava associado a um homem sem fato nem gravata, que andava na rua, à procura de votos.

O cartaz de Chávez também remete para “O coração inteiro do povo” usado por Rafael Caldera em 1993. Mas o primeiro impulso para essa campanha foi dado pelo fracassado golpe de Estado liderado por Hugo Chávez a 4 de Fevereiro de 1992. Caldera protagonizou um discurso afiadíssimo na sessão convocada pelo Congresso para condenar a acção militar.

A doença pode até jogar a favor de Chávez. “As pessoas podem ter pena”, analisa Luís Mona, professor de Sociologia na Universidade Central da Venezuela. “O venezuelano é solidário. Pode estar zangado, mas comove-se com a doença.” Mas também pode jogar contra ele. Cria incerteza. “Isto é um processo muito personalizado. As pessoas votam por Chávez, não pelo PSUV [o Partido Socialista Unido da Venezuela, que fundou em 2007]”, sublinha. Por diversas vezes, Chávez usou a palavra guerra civil: “[O povo] já não resistiria [a um pacote neoliberal], entraria de novo num nefasto cenário, numa profunda desestabilização”, que o poderia conduzir até “uma guerra civil”. “Não percamos tempo com o clima negativo que os que estão no Governo tentam semear entre nós”, reagiu Capriles, acusando-o de recorrer à chantagem para arrecadar votos.

Os preparativos ultimam-se com desconfiança de parte a parte. “A Força Armada Nacional actuará com contundência perante qualquer foco de violência”, avisou o chefe do Comando Estratégico Operacional Wilmer Barrientos. O Conselho Nacional Eleitoral não revelará tendências, só divulgará os resultados quando forem irreversíveis. Resta saber se os derrotados serão capazes de aceitar o resultado.

 

 

 

 

publico.pt

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