Ana Cardoso: “não podemos continuar a fingir que a nossa língua materna não existe e a mantê-la fora do sistema educativo”

23/02/2017 08:11 - Modificado em 23/02/2017 08:11

Ana Josefa Cardoso, autora do projecto de educação bilingue de crioulo e português, defende que “não podemos continuar a fingir que a nossa língua materna não existe e mantê-la fora do sistema educativo. Não me parece sensato continuar a fazer ouvidos moucos e fingir que no final da escolaridade todos os alunos têm um domínio suficiente do português para as suas necessidades, quando nem sequer têm consciência das diferenças entre a sua língua materna e o português”. Por isso, a especialista defende que “é necessário olhar para a educação bilingue com seriedade, investir na formação de professores e na criação de condições para que não se mantenha eternamente como uma experiência dependente apenas da boa vontade e do empenho de algumas pessoas”.

Para a professora, todas as crianças têm o direito de chegar à sala de aulas e compreender aquilo que o professor está a ensinar, sem que isso seja “angustiante”, mas avisou que o ensino da língua portuguesa continuará “bastante comprometido” em Cabo Verde, se não houver uma maior valorização e desenvolvimento do ensino da língua materna.

Para Ana Josefa Cardoso, está “mais que provado” que o ensino formal da língua materna facilita a aprendizagem das outras línguas e das outras áreas curriculares, explicando que o projecto denominado “Si ka fila tudu, ta fila un pónta – Uma experiência de Educação Bilingue”, elaborado no âmbito do seu curso de doutoramento em Linguística, foi apresentado ao Ministério da Educação de Cabo Verde e aprovado para seis anos de escolaridade (do 1º ao 6º ano de escolaridade).

A autora esclareceu que a implementação do projecto bilingue iniciou no ano lectivo de 2013/2014 em duas escolas básicas da ilha de Santiago, uma no Concelho de São Miguel, em Flamengos e outra na Cidade da Praia, em Ponta d’Água, sendo que após a avaliação do primeiro ano da experiência e “face aos resultados positivos obtidos”, no ano lectivo seguinte foi alargado a duas escolas do Tarrafal (Santiago) e no ano lectivo 2015-2016 continuou o alargamento a duas escolas do Concelho de São Domingos e duas da ilha de São Vicente.

Ana Josefa Cardoso sublinhou que a principal motivação do projecto foi a situação linguística que se vive em Cabo Verde e a evidência de que o ensino monolingue, apenas em português, “não tem dado provas de eficácia suficiente” para que os alunos tenham um bom desempenho na língua portuguesa que, por sua vez, também veicula as aprendizagens de todas as áreas curriculares.  

Desta forma, a docente salientou que o modelo de bilinguismo escolhido promove uma forma “forte de bilinguismo”, assente na biliteracia, em que ambas as línguas são línguas curriculares e línguas veiculares de outras áreas como a Matemática e Ciências Integradas, entre outras, fazendo com que os alunos aprendam a ler e a escrever em cabo-verdiano e em português e tenham metade do tempo lectivo em cada uma das línguas.

“Os dados recolhidos, que foram objecto de análise aprofundada, indicam que os alunos das turmas bilingues pioneiras têm um desempenho na língua portuguesa superior ao dos alunos da turma de controlo que têm um ensino monolingue exclusivamente em português”, destacou, constatando que os alunos da turma bilingue estão a desenvolver uma própria consciência linguística, conseguindo estabelecer fronteiras claras entre as duas línguas.

Fonte: INFORPRESS

  1. Firmino Silva

    Mas não custa nada aprender a expressar na língua Portuguesa.
    O criolo podia ser estudado na disciplina ” Cultura Caboverdiana”.
    Lembra-se que hoje em dia os nossos estudantes precisam de fazer o CELP Bras ( exame de língua Portuguesa) e sem falar que com os acordos entre a CPLP os nossos profissionais podem vir a perder grandes oportunidades de emprego por não se expressar corretamente na língua Portuguesa.

  2. mae

    Bilingue??? Como assim?? Acho que mais certo seria Multilingue, sendo que são nove criolos. Angustiante será um pobre menino de Santo Antão aprender no criolo de Santiago. Me desculpe mas todo o caboverdiano pode não saber falar, mas em português todos nós nos entendemos. Será que em criolo também é assim???
    Eu sou de São Vicente e as vezes tenho muita dificuldade em entender pessoas do fogo por exemplo.

  3. Silvério Marques

    Gostaria que esta senhora recuasse ums 70 anos. O que ia ver nas poucas escolas então existentes. Os alunos de 4ª classe liam, falavam e escreviam muito bem o português. O que mudou ? Eu respondo : A COMPETÊNCIA E A DEDICAÇÃO DOS PROFESSORES. Mas, digamos que tudo o que ela propõe está certo. Quanto iria custar ? Quem irá pagar a factura do aumento do número de professores e das horas de ensino?

  4. Francisco Andrade

    Essa senhora que quer impor a língua de Santiago, desculpa, criolo de Santiago, precisa saber que isso será uma aberração as crianças das outras ilhas do nosso Cabo Verde.
    O mais interessante é que o pessoal que defende o ensino do criolo nas Escolas, comunica com os filhos em casa na Língua portuguesa.
    Conclusão: o objetivo é fazer com que os menos favorecidos ficam num nível baixo em termos de comunicação na língua Portuguesa.
    Enfim..arrumaram uma boa riola com esse caso de língua materna.

  5. Stribilim

    Tempo de sobra, falta que fazer, falta de imaginação … únicas justificações que eu vejo para esta insistência em avançar com esta treta. Se existisse uma vertente, percebia-se, mas, havendo já suspeitas que qual há que irão querer impor, não prevejo um bom resultado.

  6. Pedro Tomas Mota

    Há muita preocupação em oficilizar o criol.Quantos dicionários vão ser precisos?Não seria melhor investir na lingua portuguesa, porque ninguém priva alguém de falar criol ,pois ao levantar-se de cama já está-se a falar criol.Não seria melhor ensinar nas escolas, além do português,, o ingles e o francês, já que somos buscadores de vida por esse mundo fora.Se um caboverdeano chegar mesmo em Lisboa, e só sabe falar criol, não é capaz de ficar sem pedir uma refeição num restaurante?
    Agora reconheço esta preocupação, visto que temos muitos inteletuais, que não sabem falar portugês.Se não estou errado há mais de 460 milhões de pessoas que falam português(quatrocentos sessenta milhões).

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2018: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.