Mestre Mick Lima: “Há alguns anos que temos assistido a uma estagnação de um excelente Carnaval”

23/02/2017 07:54 - Modificado em 23/02/2017 07:56

Natural de Santo Antão, Mick Lima fez a sua estreia no Carnaval de São Vicente há mais de trinta anos, no extinto grupo carnavalesco Estrelas-do-Mar, onde fazia a composição do samba enredo, tocava e ainda orquestrava a batucada. Começou na música como percussionista com o grupo “Kings” e hoje é uma referência no Carnaval Mindelense.

É um dos mais antigos e referenciados Mestres de Bateria do país, com um vasto currículo. Passou por quase todos os grupos carnavalescos de São Vicente, menos pelo grupo Vindos do Oriente, pelo menos não directamente, conta.

Durante vários anos, foi o único Mestre de Batucada em São Vicente. Quase todos os mestres que este ano estão à frente da batucada do grupo de São Vicente estiveram sob a sua alçada. Encontra-se no comando da bateria da Escola de Samba Tropical desde a sua fundação há quase trinta anos. A Escola de Samba Tropical, criada a 17 de Novembro de 1988, conta mais um ano com Mick Lima na direcção da bateria do grupo.

Ser Mestre de Bateria é uma das grandes responsabilidades de qualquer integrante do grupo. “É uma boa sensação, mas também existe uma grade pressão sobre nós, porque não temos apenas os tocadores de olho em nós. Toda a plateia está atenta aos nossos gestos e não podemos falhar, porque se falharmos, podemos prejudicar o grupo e ninguém quer isso”.

Relembra que antigamente para conseguir tocar, tinha que viajar para o Brasil onde embarcava os instrumentos e depois recebia-os aqui em Cabo Verde. Foi evoluindo ao longo dos anos e, actualmente, produz os seus próprios instrumentos de forma artesanal, comercializando-os também nas várias ilhas do país como Sal, Boavista, Santo Antão e Santiago, este em menor número.

A menos de uma semana do desfile da Escola de Samba Tropical, conta que é nestes últimos ensaios que as “coisas” se começam a formar. “É nos últimos ensaios que as coisas se começam a formar, segue a explosão e fica tudo pronto de uma vez”. E é por isso, acrescenta, que o Carnaval em São Vicente é feito num mês.  

Samba Tropical conta com uma batucada de 74 elementos responsáveis por levar ao sambódromo a “Rainha da Noite” do Carnaval de São Vicente que, este ano, leva para a noite o enredo “Os mistérios do se7e”.

Num país onde o Carnaval de São Vicente é considerado como o maior e o melhor, falar dos profissionais que fazem parte deste universo enriquece ainda mais. Entretanto, Mick Lima afirma que é preciso muito cuidado ao referi-lo como um profissional da festa do Rei Momo. “Quero ser um profissional do Carnaval, mas é difícil porque em São Vicente, um profissional ligado à área trabalha nos dois/três meses que antecedem o Carnaval, que acontece uma vez por ano”.

Sobre a evolução da batucada mindelense, Mick reconhece os talentos que fazem parte da bateria de São Vicente, já que muitos deles trabalharam sob a sua “batuta” de maestro ao longo dos anos. E os grupos também estão a evoluir em relação à batucada. Por exemplo, o grupo carnavalesco de Monte Sossego tem a sua própria batucada, instrumentos e elementos que vestem a camisola do grupo campeão. O Vindos do Oriente também, acrescenta, afirmando que os grupos estão, cada vez mais, a criar condições para terem uma batucada própria.

Este ano, realça, haverá uma inovação, algo em que não costuma trabalhar, mas que será bem aceite pelo público. Afirma também que este ano se desliga completamente dos ritmos da batucada brasileira. “Tocamos os nossos ritmos, mais ligados à terra”, juntamente com uma série de ritmos inventados.  

Evolução do Carnaval de São Vicente

A “Evolução do Carnaval de São Vicente aconteceu de forma gradual mas, nos últimos anos, estagnámos num bom Carnaval. De há uns dois anos a esta parte temos visto e acompanhado um Carnaval excelente”. Há uma grande competitividade, trabalhos originais e não posso afirmar, por exemplo, que o Carnaval de 2016 foi melhor que o de 2015 ou que 2017 será melhor”, refere.

Com esta evolução do Carnaval, Lima defende que muita coisa deve mudar. Questionado sobre isso, diz que “mudar não, mas acrescentar. A sonoplastia do Carnaval, o som no sambódromo tem de ser bem pensado da melhor forma, porque ainda não está a funcionar em todo o seu potencial. As próprias esquinas que o nosso sambódromo tem, limitam a frequência do sinal enviado pelos carros de som”. Diz ainda que o limite de foliões deveria ser revisto porque este também é um factor que condiciona a sonoridade.

Defende também a construção de bancadas ao longo dos passeios para que a população possa assistir ao Carnaval, já que no dia dos desfiles muitas pessoas invadem os grupos, mesmo com as cordas para limitar o acesso. E seria, continua, uma forma de tirar proveito deste produto. “Fazer as pessoas pagarem para assistirem”.

Sobre a questão da instituição do prémio de Bateria, não defende completamente a sua institucionalização. “É um bocado objectivo. Presto um serviço para o grupo e, se o grupo ganhar eu terei dado a minha contribuição para que isso pudesse acontecer”, conclui.  

Foto1: MindelClick

Foto2: Bob Lima

  1. observador

    Grande MESTRE dos Mestres da batucada unica do Mindelo de Cabo Verde !
    A maior gratificação que este Mindelo pode ter a este senhor é que o prémio da batucada seja denominado de “Prémio Mik Lima”.

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