“Naif”:  há seis anos fora da prisão e luta para não voltar  …nunca mais 

4/01/2017 06:50 - Modificado em 4/01/2017 06:50
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Paulo Jorge Rodrigues conhecido por “Naif” procura no artesanato uma forma de sobrevivência para conseguir driblar o desemprego, ou melhor, de driblar a falta de oportunidades que não aparecem na sua vida, devido ao facto de ser um ex-recluso.

“Naif” de 40 anos conta ao NN que desde 2010 que se encontra em liberdade, isso depois de ter passado pelo estabelecimento prisional por três vezes ao longo da vida. Diz que agora quer manter uma estabilidade e nunca mais voltar para a prisão. Tem como meta a criação de um projecto para ajudar os jovens através da arte a manterem-se longe da vida do crime e, consequentemente, evitar que sigam o mesmo destino que ele, que começou em 1992, quando foi preso pela primeira vez, por assalto a residências.

O mesmo conta que o primeiro contacto com o artesanato aconteceu na prisão, com a sua primeira reclusão de um ano e seis meses, mas durante esse tempo, não mostrou muito interesse em aprender e aprofundar esta arte. Depois, voltou a ser preso sempre pelos mesmos crimes e, na segunda vez, começou a trabalhar com afinco de forma a melhorar o que tinha aprendido da primeira vez.

Conta ainda que está arrependido porque não soube aproveitar da melhor forma o castigo que foram as duas reclusões e, passado algum tempo, voltou a ter problemas com a lei e só em 2010, quando saiu da prisão, depois de estar preso alguns anos é que resolveu colocar a sua vida nos eixos. E desde então tem demonstrado, conforme conta, que está empenhado a ser merecedor desta oportunidade e que não a vai desperdiçar.

Durante a nossa entrevista que decorreu no seu ateliê improvisado numa parte da sua casa que divide com mais dois irmãos, Paulo Jorge conta que reaproveita diversos materiais que depois dá vida a diferentes peças, com diferentes personalidades. “Esta ideia surgiu-me porque no princípio não tinha dinheiro para comprar os materiais e ia à procura deles nas ruas e, de vez em quando, encontrava um pedaço de arame, alguma madeira e então dava-lhes vida e hoje consigo um maior número de peças graças ao meu esforço e sacrifício, porque desde que saí da prisão e tendo-me mantido longe de problemas com a lei, não consegui nada do que falam sobre a reinserção social, que a meu ver não existe, é apenas falatório”, desabafa.

Apesar da paixão tardia pela arte, “Naif” garante que prefere ficar em casa a trabalhar do que sair pelas ruas à procura de problemas, o que fazia desde criança, já que andava metido em muitas confusões.

Apesar do apelido “Naif” ser tão sugestivo, assegura que está em contraditório com a sua vida de crimes, ou seja, conta que é um apelido que carrega desde criança.

Viver do artesanato

Questionado sobre a sua entrega ao mundo das artes, conta que apesar da paixão desenvolvida ela é, no entanto, uma forma de sobrevivência. Cria para depois vender e conseguir o seu sustento de forma honesta.

Disse que quando saiu da prisão com o objectivo esclarecido de assentar a sua vida, a primeira coisa que fez foi procurar um trabalho, coisa que fez durante muito tempo, porque apesar do artesanato que é o seu principal sustento, para prover uma forma de sobreviver quer ter um trabalho estável com um salário garantido no final do mês.

Desde que saiu da prisão, a sua única forma de sustento tem sido a arte. Não se considera um artesão, mas um artista conforme faz questão de realçar.

No seu entender, as autoridades responsáveis, apontando o dedo ao Governo, deveriam focalizar-se nas pessoas que querem a própria reintegração na sociedade, em vez de falarem apenas que estão a trabalhar no assunto.

“Reintegração social não existe e é preciso trabalhar nisso, a começar pela sociedade que não deveria julgar ninguém só porque já esteve preso. O que não entendem é que com certas pessoas, o facto de estarem presos, dá-lhes tempo para pensar e, depois de livres, querem algo diferente”. No entanto, não deve deixar de lado os que voltam a reincidir depois de pedirem uma segunda oportunidade, já que o mesmo já passou por isso e agora quer comportar-se de forma limpa e íntegra, reconhecendo, no entanto, que a sua segunda oportunidade já passou, mas que está a lutar para ser visto, mais do que como um ex-recluso, como um homem que já pagou o que devia à justiça e que pretende mudar a forma que as pessoas o vêem, apesar de ser difícil”, reconhece.  

Ajudas

“Naif” apela por uma oportunidade para desenvolver o seu trabalho e ajudar a criar oportunidades e dar aos jovens uma ocupação em vez de procurarem problemas, que tenham a oportunidade de fazerem o que não foi feito para ele ou que não soube aproveitar.

Deseja, no futuro próximo, conseguir ajuda e montar uma sala de artesanato para transmitir os seus conhecimentos a quem quiser aprender, ter a oportunidade de expor os seus trabalhos como, por exemplo, com o apoio da Câmara Municipal na cedência de espaços para ele e outros artistas mostrarem os seus trabalhos.

Inspiração

“O dia-a-dia que me inspira é a vontade de ter sustento próprio, por isso, levanto-me todos os dias e tento criar algo para fazer”.

“Trabalho com palha e com arame, faço carros, aviões, tartarugas. Não tenho dinheiro para comprar os materiais, mas nunca desisto, porque a cadeia não é lugar para ninguém viver. Tenho uma filha na cidade da Praia que gostaria de conhecer”.

“Ser recluso mudou a minha forma de viver e manchou o meu nome e mudou de forma definitiva a minha vida. Estou-me a comportar bem e quero apenas que a sociedade aceite que já paguei pelos meus crimes e que agora quero curtir a sensação de estar livre e de não dever nada à justiça”.

“Todos merecem a oportunidade de provar e de ver até onde são capazes de chegar”, conclui.

Por seu lado, a Directora de Gestão Prisional e de Reintegração Social, Paula Fortes, numa entrevista à Rádio Educativa, no âmbito do programa Radiofónico Direitos Humanos e Cidadania em Foco, assegurou que para que os reclusos tenham sucesso no processo de reintegração social é preciso trabalhar com eles, bem como com outras franjas da sociedade, especialmente a família.

Num trecho da entrevista a mesma afirma que “a reinserção social de ex-reclusos exige o engajamento de todos. Essencialmente do tribunais que aplicam as penas e as medidas, das famílias que são os pilares, da sociedade como um todo, dos agentes prisionais que lidam diariamente com eles, das equipas de reinserção social que têm de ter a sensibilidade de compreender o recluso, a sua história de vida e tentar perspectivar uma nova forma de vida para este recluso, dos professores que trabalham nos estabelecimentos prisionais, do Estado enquanto investidor por excelência no meio prisional (….). Os reclusos só querem ser bem tratados, dentro da sua dignidade humana”.

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