2016/ Mundo: o diabo está a solta

27/12/2016 08:24 - Modificado em 27/12/2016 08:24
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2016 será lembrado como o ano em que tudo aconteceu ao contrário do que se esperava. Outros diriam que foi o ano em que o Diabo saiu do armário sem disfarces. Mas o certo é que esse diabo morava em nós, ou pelo menos, na maioria de nós. Senão vejamos: nos Estados Unidos da América um homem abominado por todos, um showman tido como sexista, racista, contra todas as expectativas foi eleito Presidente da República, isto quando nada o previa. E a sua eleição deixa no vento diversas perguntas para serem respondidas em 2017: Trump vai construir a sua muralha e causar uma guerra entre as potências ou admitirá que a mudança climática existe? Irá respeitar a liberdade de imprensa? Irá consumar a anunciada guerra económica contra a China? Irá expulsar os emigrantes dando azo à onda xenófoba que o apoiou? Irá reeditar a guerra santa contra o Islão? Em 2017, certamente, iremos assistir a um jogo onde, por enquanto, só podemos desenhar os melhores e os piores cenários possíveis. O diabo saiu do armário e mudou-se para a Casa Branca?

 

Brexit

No Velho Continente, a vitória do Brexit também saiu ao contrário do que “todos” esperavam. No dia seguinte ao referendo, ninguém sabia o que se iria passar ou quase ninguém. O certo é que 51,9 % dos ingleses votaram pela saída da UE. A Europa ficou “grogue” com o resultado do referendo. Não era suposto acontecer. Mas aconteceu e ficam muitas perguntas ao vento para serem respondidas em 2017: como é que o novo desenho da UE vai afectar o mundo? O xenofobismo montou em mais um cavalo de batalha? E até no futebol: as equipas inglesas vão deixar de participar nas competições europeias? Mas há certezas. A primeira é que o Brexit é um duro golpe para o projecto europeu, na medida em que é o primeiro membro que decide ir-se embora. Por outro lado, fornece argumentos importantes para as formações populistas e nacionalistas que são fortes em vários países europeus e o efeito de contágio é inegável. A outra certeza é que tanto o processo britânico como o norte-americano têm legitimidade democrática. Foram decididos nas urnas, no pleno respeito das regras democráticas. Pode-se  alegar, como pode acontecer quando “todos” estavam contra, mas isso leva a perguntar: quem são “todos”?

 

 Terrorismo 

O terrorismo pela mão sangrenta do Estado Islâmico atingiu o coração da Europa: Bruxelas, Nice, Orlando, Berlim e em cada lar europeu instalou-se o medo, isto numa sociedade que dava a paz e a tranquilidade nas suas cidades, vilas e aldeias como algo de consolidado. Os ataques de Nice e de Berlim , onde o terror transformou camiões em armas de destruição matando cidadãos a passear ou numa feira de Natal, ultrapassa tudo o que se poderia imaginar. Isto porque não imaginamos o que acontece no mundo muçulmano onde o terrorismo mata a todas as horas, todos os dia em países como o Iraque, a Síria, a Nigéria, o Burkina Faso, o Níger, a Líbia… Nestes países é pior!Mas no coração da Europa assusta pelos mortos e feridos , lagrimas , dor e medo.Mas também porque abre caminho   a deriva  securitista  e populista que ameaça a própria democracia nos diretos , liberdade e garantias dos cidadãos.   

Esta barbárie deixa dúvidas e certezas. Como isso vai afectar o nosso mundo e, neste caso, a Europa, onde utensílios comprados de forma legal se transformam em armas mortíferas? Quanto a certezas, o ataque de Bruxelas mostra que os atacantes não tinham tido contacto com o ISIS fora da Europa. Não foram treinados nos seus campos de terror. Mas sim num bairro de Bruxelas. E isso é inquietante!

Brasil

No Brasil Exu andou à solta. O diabo não andou escondido pelos armários, mas pelos corredores do Planalto. Até Lula passou de anjo a demónio quando também foi acusado de corrupção. Dilma encostada às cordas acabou por cair no meio de um impeachement que dividiu o Brasil em dois. Temer saltou para a Presidência com acusações de vilão e corrupto. Quo vadis, Brasil.

 

Fidel 

E morreu Fidel Castro. Em Miami “todos” disseram “até que enfim, morreu o ditador”. Em Havana “todos” choraram a morte do herói , líder e libertador.Afinal quem são “todos” nos tempos que correm? Mas contra tudo e contra todos, com a morte de Fidel cala-se uma das vozes mais icónicas do século XX que ao longo dos 2500 discursos que produziu em 50 anos no poder protagonizou a maior desilusão e ilusão do século XX. Fidel está morto e, com ele, o século XX. O século das utopias.

Ulisses 

Em Cabo Verde “todos” votaram na mudança. O PAICV foi derrotado em todas as frentes: legislativas, autárquicas, presidenciais. O país não alinhou com o mundo no “voto inesperado”, no “voto contra a maré” no que “se disse que ia votar e não se votou”. O povo cabo-verdiano agiu dentro do pragmatismo que o caracteriza. “Todos” votaram no óbvio, no esperado, levando para a oposição um partido com quinze anos de governo e que começava a acreditar que era eterno e que através de malabarismos e da sua máquina de propaganda convencia a “todos” que Cabo Verde era o país das maravilhas e  José Maria Neves a sua Alice e que por isso estávamos blindados contra a crise. Não estávamos, como se provou. Em Cabo Verde, felizmente, graças a Deus e pelo sinal da Santa Cruz o diabo não está solto, no mínimo foi mandado para os picos do Inferno, mas isso não diminui as incertezas e os temores. Em relação aos desafios que temos pela frente, em particular, entre o que o primeiro-ministro acredita e quer fazer e o que vai ser possível fazer, o que a conjuntura mundial para 2017 e os constrangimentos do país lhe vão permitir fazer. Ulisses Correia Silva diz que “espera que 2017 seja o ano de renovações para que juntamente com o povo se possa alcançar a felicidade”. E “todos” estão à espera disso mesmo: alcançar a felicidade.Será possível num ano que o diabo estará  a solta pelo  mundo ?

Eduino Santos 

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