Naufrágio do Navio Vicente: A dor de uma filha que não se quer calar e que não procura culpados, mas…

14/12/2016 08:00 - Modificado em 14/12/2016 08:00

15571338_1259796007428996_418799837_nO naufrágio do Navio Vicente ao largo do Porto dos Cavaleiros, na ilha do Fogo, provocou e ainda provoca dores irreparáveis. Uma dor que não se quer calar, que não procura culpados, mas que o único desejo é que a mãe de Carla, conhecida por Sandy não tivesse viajado nesse navio no dia do aniversário da filha. Esta sente, todos os dias, saudades da mãe, uma mãe que para ela era tudo e afirma que muitas vezes acorda com vontade de ouvir “tudo dret, Nina? Manera ta ser bo dia filha?”. Carla não consegue encontrar consolo, porque nada consegue preencher o vazio da falta que a sua mãe lhe faz.

A tragédia do Navio Vicente tem rostos que entristecem todos os dias quando se quer ouvir a voz de quem até hoje está desaparecido. É o caso de Sandy, mãe de Carla, que viajou no dia 8 de Janeiro de 2015 da ilha de Santiago para o Fogo e nunca mais voltou. “Não existem palavras que possam expressar esta dor, ainda não inventaram remédios para calar essa aflição e esta saudade sem fim que o mar levou de mim”, diz a filha que vive dias mais difíceis que outros, esperando, algumas vezes, que a sua mãe ouça e que ilumine os seus passos.

Carla Rocha, através das redes sociais, escreve palavras que por mais que amigos e familiares tentem entender será difícil. Mas a mesma agradece cada mensagem de apoio e de carinho, porque reconhece que todos os dias são insuportáveis sem a sua mãe. A filha assegura que quando acorda com o desespero de ouvir a voz de Sandy, nada a acalenta, nada preenche o vazio dentro dela. Carla reconhece que “teve defeitos, mas as suas qualidades impediam-me de ser má filha. Nasci e ela era tão nova, ela criou-me, acredito que ela tivesse medo porque eu era um ser inocente e teria que aprender as coisas da vida que se calhar nem ela tinha aprendido. Mas, ela mimou-me, deu-me sermões, brincámos como duas crianças, rimos como duas adolescentes”, refere Carla, uma filha que adora a sua mãe e que hoje dava tudo para a ter de volta.

Memórias que não se apagam, mas não servem de consolo, porque o que Carla mais quer é o regresso da sua mãe que sempre, depois do trabalho, quando estava cansada chamava-a e dizia: “Nina bem fka ma bo mãe un kzinha” (Nina vem ficar um pouco com a mãe). Carla relembra que perguntava à mãe o que se passava e Sandy respondia-lhe que tinha tido um dia cansado e que também estava com saudades e com vontade de falar com a filha. Momentos esses que Carla gostava que o naufrágio não tivesse levado. “Apesar de muitas vezes ter chorado por ter ouvido sermões injustos, algumas vezes pensei que eras tão injusta para mim… Chateei-me, falei coisas sem pensar e muitas vezes não entendia o teu esforço para estar presente, para me educar, para aguentar tudo, mas hoje agradeço cada ‘puxão de orelhas’, pois sou uma pessoa melhor e agradeço todos os dias por ser tua filha e por me teres amado tanto. AMO-TE até aos meus últimos dias (…)”

O naufrágio do Navio Vicente que afundou ao largo do Porto dos Cavaleiros, ilha do Fogo, e que levava a bordo 26 pessoas, ceifou a vida a quinze pessoas e deixou várias famílias desamparadas, num desamparo de carinho, amor e sorriso de uma mãe que não consegue esquecer o que foi levado com o acidente, frisa Carla.

  1. Dulce

    E a dor de quem viajava, e deixou de viajar que chora calada, que lembra do convívio com os tripulantes na hora dos refeições, das brincadeiras na hora do descanso, dos risos…

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