Carta Aberta ao Primeiro-ministro

9/12/2016 08:12 - Modificado em 9/12/2016 08:12

Carta Aberta ao Primeiro- ministro

Opinião

 

Carta aberta à S. Excelência, o Senhor Primeiro-Ministro da República de Cabo Verde,

Ulisses Correia e Silva,

 

Excelentíssimo Senhor,

 

Aproveito a oportunidade para saudá-lo e felicitá-lo pela vitória conseguida nas eleições legislativas ocorridas há pouco tempo, no nosso país.

Desejo-lhe os maiores sucessos nesta nova etapa da sua carreira política, que certamente irá acelerar-lhe o aparecimento de mais cabelos brancos.

A escolha do povo espelha, sem margem para dúvidas, uma grande e urgente necessidade de mudança, aliada a uma esperança enorme de ver concretizadas e traduzidas em benefícios, as promessas que lhe fez, aquando do período eleitoral.

Eu, da minha parte, aguardo pela regionalização, convencido de que é a via para eliminar as indesejáveis assimetrias existentes no país (e estou disponível para apoiar na tarefa.)

Governar um país, não é tarefa para qualquer um. Pior ainda, quando se trata de países insulares, pequenos e pobres como o nosso, onde a produção de riqueza é insignificante.

Como todo o cabo-verdeano na diáspora, sou um cidadão atento às políticas do nosso país e, nesse particular, tomei conhecimento pela comunicação social, de que é intenção firme do governo que V. Exa. superiormente dirige, privatizar áreas-chave do desenvolvimento do nosso arquipélago, incluindo a energia e água.

Concordo plenamente que determinados sectores devam ser privatizados, mas só no sentido de trazerem benefícios para as populações.

Para tal, esse processo deve ser conduzido de forma séria, cuidada e responsável, mas nunca rápida, pois a pressa, não costuma ser boa conselheira.

No entanto, acredito que determinados sectores do Estado podem dispensar a sua privatização, se a sua gestão se pautar por elevados padrões de rigor e competência profissional.

Os resultados da privatização de sectores-chave da economia, em países pequenos e pobres como o nosso, normalmente não trazem o abaixamento de preços para o consumidor, mas em alguns casos, uma ligeira melhoria da qualidade do serviço prestado.

É cartaz da privatização, antes de ela ser feita, a diminuição de custos para o Estado e um aumento de benefícios para os cidadãos. Todavia, na prática, os resultados têm mostrado que acontece o inverso – aumento de despesas para o Estado e quase zero benefícios para os cidadãos.

Mas a grande vantagem da privatização é sim, e sobretudo na era da globalização, o aumento do lucro dos grandes grupos privados, o que acredito não ser a intenção do seu Governo.

Ora, no que tange ao sector da Energia e Água, o alarme tocou! Cuidado!

Como conhecedor da área, peço-lhe publicamente que analise bem, que analise muito bem, e com muita ponderação, este dossier, pois Cabo Verde é específico neste domínio.

Ainda vou mais longe, e peço-lhe, pelo menos para já, que não avance com a privatização do sector da energia e água pelas razões, que são sobejamente conhecidas de todos, relevando que essa experiência não foi vantajosa para Cabo Verde no passado recente, e por coincidência, levada a cabo por um Governo a que V. Exa. pertenceu.

Por outro lado, estou convencido de que grupos internacionais com expertise, não terão grande interesse no sector em causa, dada a pequena dimensão do mesmo.

Ficaria assim a opção para eventuais pequenos grupos nacionais que, estou certo, não trarão nem vantagens nem respostas às dificuldades vigentes.

A energia e água, como necessidades básicas dos cidadãos, e como principais factores de desenvolvimento do país, que se quer competitivo para fazer face à concorrência feroz em áreas como o Turismo entre outros, devem, em minha opinião, continuar a ser comparticipadas pelo Estado de Cabo Verde em virtude das condições específicas do nosso arquipélago, de onde saliento, entre outras, as seguintes: 

• Escassez (subsolo) e falta total de água doce na natureza (rios, lagos, etc.), como fonte de água potável e produção de energia;

• Elevados custos de produção, associados aos custos da insularidade concernentes à captação, tratamento, transporte e distribuição de água;

• Elevado custo de produção de energia através de grupos electrogéneos, dada a pequena dimensão das ilhas em particular e do Arquipélago em geral;

• Elevados custos de manutenção e operação dos sistemas de energia e água;

• Outros.

Os países que avançaram para a privatização da energia e água não conseguiram proporcionar benefícios aos seus consumidores, nem pouco mais ou menos.

Temos o caso bem próximo de Portugal. Com a privatização destes sectores os preços aumentaram e de que maneira. A água hoje está mais cara, muito mais cara. A energia idem, mesmo com o mercado livre. Não tenhamos dúvidas, é um dado adquirido.

Para o Estado, acredito que terá algumas “vantagens” iniciais, pois, aparentemente, e só numa primeira fase, poderá deixar de suportar encargos, mas que virá mais tarde a ter de suportar para manter as condições de vida básicas dos seus cidadãos.

Privatizar a energia e a água em Cabo Verde é dar um tiro no próprio pé.

Temos inclusive exemplos de países que privatizaram a água e esse líquido precioso passou a ficar mais caro que a água Perrier engarrafada.

Para finalizar, constatei que no sector da água, estamos a seguir as tecnologias possíveis para o nosso arquipélago face aos custos inerentes e à nossa débil capacidade financeira.

Para a energia, não obstante as razões indicadas no parágrafo anterior e, para além de estudos técnicos e económicos desenvolvidos, sugiro uma aposta forte nos recursos que temos, nomeadamente solar, eólica, ondas do mar, etc., as ditas energias renováveis, otimizando a manutenção destes equipamentos, que tem sido deficiente até a um passado recente.

Existem e são do seu conhecimento, programas internacionais que financiam com bonificação, o recurso a energia renováveis.

Pelo exposto e por outras razões que gostaria de referir e porque acredito que me dará ouvidos, volto a pedir-lhe, como cidadão que tem muita esperança no nosso país, que deixe ficar a energia e água fora do bloco de privatizações, pelo menos num futuro próximo.

Como dizia Tales de Mileto, “a água é o princípio de todas as coisas”, e se ela for cara, tudo ficará ainda mais caro.

Lisboa, 26 de novembro de 2016

Carlos Adriano Vitória Soulé

  1. Carlos Silva - Ralão

    Meu caro Carlos Soulé . Cau, sem palavras aqui, aliás sem letras para escrever, excelente, esperemos que o Primeiro Ministro, Dr. Ulisses Correia e Silva analise estas palavras muito friamente e com inteligência, com certeza todos os cabo-verdianos sairão a ganhar. Por um Cabo Verde sempre melhor para os cabo-verdianos e para todos aqueles que acreditam em nós.

  2. sr carlos o alarme tocou no que concerne á energia e água porque o sr livio lopes apressadamente assim o quiz para poder arranjar temas e assuntos paraque o seu partido podesse criticar criticar o governo pois a sua lider stá num vacuo de ideias.
    agora se osr ulisses não abrir os olhos com alguns dos seus ministro ( Olavo Jose Gonçalves )principalmente vão lhe minar os pés que é capaz de em 2021 ficar sem alicerce e aí casa cair

  3. Adriano Lima

    Apoiado cem por cento, meu querido primo. A tua experiência académica no sector da energia e água capacita-te a opinar com todo o fundamento nesta tão importante questão. Oxalá o governo pondere bem e tenha em devida conta a tua opinião. Aparece mais vezes.

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