Esclarecer morte de Samora é «uma missão muito difícil»

20/10/2016 08:27 - Modificado em 20/10/2016 08:27
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joaquimO antigo estadista moçambicano, Joaquim Chissano, considera `missão difícil´ o esclarecimento das causas da morte de Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique independente.

A dificuldade no esclarecimento do caso reside, segundo Chissano, no facto de os actores principais estarem mortos.

«O apartheid acabou e também os actores, muito deles, morreram. Estou a falar de Peter Botha (Primeiro-Ministro), de Magnus Malan e de outros generais que podiam nos esclarecer sobre este segredo que foi revelado pela caixa negra do avião. E foi revelado este segredo lá (na África do Sul) durante as investigações», disse.

Chissano, que sucedeu a Samora Machel na chefia do Estado, falava quarta-feira à margem das cerimónias centrais alusivas ao 30° aniversário da tragédia de Mbuzini, havidas em Maputo, dirigidas pelo Presidente da República, Filipe Nyusi.

Segundo Chissano, o navegador do avião dava as direcções para o esclarecimento do caso, considerando os dados da Frequência Muito Alta (VHF, sigla em inglês) do Sistema de Navegação de Alcance Omnidireccional (VOR).

«Este assunto não foi cavado e é difícil cavar agora, porque queríamos saber se havia lá um VOR, onde estava o VOR, quem colocou o VOR, houve ou não esses exercícios militares naquele lugar. Portanto, é ali onde o inquérito foi inconclusivo, porque aqueles que deviam responder a estas perguntas recusaram-se a responder e recusaram-se a continuar a investigar, até que morreram», explicou.

Chissano disse que estava criada uma Comissão da Verdade na África do Sul, ao qual os actores principais recusaram-se a participar.

«Não sei se lá na Comissão da Verdade teriam interrogado sobre este aspecto. Mas eu creio que o Presidente Nelson Mandela estava com vontade de aproveitar a Comissão da Verdade para fazer falar o Malan, para fazer falar o Peter Botha. Mas nem Botha, nem Malan estão cá. E sabemos que naquele exército sul-africano havia muitos segredos. Sabíamos até que havia um exército secreto dentro do exército, que fazia o que entendia, que matava em toda a região, desde Angola até Dar-es-Salaam», afirmou.

Para Chissano, há muitas perguntas que se podem fazer a respeito deste assunto, mas, para ele, o segredo está no VOR.

«É uma missão difícil. Considero difícil, porque, se fosse eu a ser incumbido, não saberia como andar. Talvez tínhamos que nos reunir de novo com os nossos camaradas da África do Sul. Sabemos que eles não herdaram o apartheid. Nós todos estávamos a lutar contra o apartheid. Não podemos pegar os crimes do apartheid e pôr em cima dos nossos camaradas», sublinhou.

Contudo, Joaquim Chissano, que dirigiu o país de 1986, após a morte de Samora Machel, até 2004, altura em que foi sucedido por Armando Guebuza, afirma ter esperança de que a justiça seja feita e, um dia, que a «luz venha ao de cima».

 

abola.pt

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