Muitos italianos e líderes europeus sonham com um “Monti-bis”

14/09/2012 02:15 - Modificado em 14/09/2012 02:15
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O primeiro-ministro restabeleceu a credibilidade internacional da Itália, mas a situação económica continua grave. Muitos gostariam que ele permanecesse após as eleições. Monti resiste. É uma incógnita.

 

Duas sondagens publicadas nos últimos dias reactualizam a questão que há meses domina a cena política italiana: quem sucederá ao primeiro-ministro Mario Monti? O que está em jogo não é o nome do líder partidário, da esquerda ou da direita, que venha a vencer as eleições, mas aquilo a chamam a solução “Monti-bis”. Depois do voto, na próxima Primavera, vai a governação ser assumida pela coligação partidária vencedora ou voltarão os partidos a recorrer a Monti enquanto durar a “emergência nacional”? Os meios económicos italianos – e Berlim e Bruxelas – não escondem o seu interesse em ver Monti permanecer à frente do executivo na próxima legislatura.

 

Não se trata de um dilema entre política e tecnocracia, observa o politólogo Gianfranco Pasquino. “O governo Monti faz política. É um governo não partidário mas a política não desapareceu.” Ainda este fim-de-semana Monti apelou a uma cimeira europeia sobre o eurocepticismo e o populismo que “ameaçam desintegrar a Europa”. O problema tem a ver com a credibilidade de Roma na Europa e nos mercados e também com o imobilismo dos partidos e do Parlamento que ainda não aprovaram sequer uma lei eleitoral nem clarificaram as suas políticas de alianças.

 

A questão da credibilidade

 

O que dizem as sondagens? A sondagem Ispo, conduzida pelo sociólogo Renato Mannheimer para o Corriere della Sera, indica que 37% dos italianos defendem o “governo tecnocrata” como a melhor solução. Esta opinião é maioritária entre os jovens com menos de 35 anos. O resto divide-se entre a opção por coligações de centro-esquerda ou centro-direita ou por uma grande aliança do PD ao Povo da Liberdade (PdL, de Silvio Berlusconi).

 

A sondagem do instituto Demos, realizada pelo politólogo Ilvo Diamanti para La Repubblica, indica que 52% dos inquiridos aprovam o governo e que 55% manifestam confiança em Mario Monti. Esta confiança não significa satisfação em relação às políticas do governo: a mudança do regime das pensões de reforma, o agravamento do IMU (equivalente ao IMI) e a reforma do mercado do trabalho desagradaram à maioria dos italianos.

 

Enquanto 52% dos inquiridos entendem que o próximo executivo deverá ser o da “coligação que vença as eleições”, 39% desejariam um “novo governo tecnocrata” ou de “professores” independentes.

 

Em termos partidários, o PD permanece como primeira força política (27%) contra 19,8 do PDL, que continua em erosão. Os populistas do Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grillo, mantêm-se na casa dos 15%. Mas, explica Diamanti, há uma grande desorientação entre os eleitores, que não sabem quando se votará, “com que lei eleitoral, com que alianças e com que candidatos” à chefia do governo.

 

Quase três quartos dos italianos sentem-se mais seguros dentro do euro e Monti é visto como uma garantia. A instituição política mais valorizada é o Presidente da República, Giorgio Napolitano, em contraste com o Parlamento e os partidos que têm a confiança de, respectivamente, 10 e 5% dos inquiridos.

 

“A agenda Monti”

 

Monti tem repetido que a sua tarefa termina na Primavera. Acontece que, para lá dos eleitores e de políticos do centro-esquerda que desejariam ver o actual primeiro-ministro prolongar o seu mandato após as eleições, os agentes económicos italianos (82%, segundo uma sondagem), as instâncias europeias, Bruxelas e Berlim pressionam Monti para que aceite permanecer na governação até ao fim da consolidação financeira e ao relançamento económico. Monti respondeu no domingo: “Não posso acreditar que um país não seja capaz de designar um líder político capaz de o governar”.

 

Estas declarações não impediram o líder centrista, Pierferdinando Casini, de proclamar: “Depois de Monti, um Monti-bis”. Não se trata de repetir a actual fórmula de governo presidencial mas de um governo saído de uma nova maioria para concluir a “agenda Monti”.

 

Tanto Monti como o ministro do Desenvolvimento Corrado Passera – de que se fala como nome alternativo – têm dado a entender que para realizar reformas mais incisivas e com apoio popular é necessária uma relegitimação eleitoral. “O Monti-bis é uma das opções mais verosímeis, o que não quer dizer que tenha de acontecer”, observa o analista Paolo Franchi. “No fundo, o actual debate pode resumir-se na distinção entre quem está com Monti ou tenciona desposar a agenda Monti e quem entende seguir um caminho diverso, talvez assumindo uma linha social-democrata.” É esta a clivagem que hoje parte ao meio o Partido Democrático.

 

Um “Outono quente”

 

Monti declarou ontem que a sua política de emergência financeira “contribuiu em parte para agravar a conjuntura económica. Só um tolo pode pensar em conseguir debelar um mal que dura há décadas sem causar no curto prazo um agravamento da situação”.

 

Ontem, as estimativas oficiais indicaram que o PIB desceu mais do que o previsto no segundo trimestre. Anuncia-se um “Outono quente” na frente social. Em Roma, manifestam-se já os mineiros do carvão e os trabalhadores da multinacional Alcoa (alumínio), da Sardenha, ameaçados de despedimento. Anota o economista Pietro Garibaldi: “A rapidez de destruição de empregos é impressionante e altamente dramática, sobretudo para os jovens: antes da crise, a taxa de desemprego juvenil era de 18%, agora está nos 36. Levará anos a reduzi-la para metade”.

 

Resume, no La Repubblica, o colunista Gianluca Luzi: “Monti devolveu a credibilidade ao país, mas os postos de trabalho ainda não foram criados. O país saiu da emergência e já não corre o risco de acabar como a Grécia, mas a preocupação na UE é que os partidos retomem, depois das eleições, os velhos hábitos da despesa fácil”.

 

 

 

 

 

publico.pt

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