O espírito olímpico no Rio? Tomara que acabe logo

11/07/2016 09:02 - Modificado em 11/07/2016 09:02
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rio janeiroMarcelino Mateus Silva Proença tentou apagar a tocha olímpica com um balde de água numa cidade rural de Mato Grosso do Sul e foi aclamado como um herói nacional nas redes sociais. “Ele fez o que muitos brasileiros revoltados gostariam de fazer”, escreveram no Facebook. “Esse cara merece respeito.” A pouco menos de um mês da abertura dos primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul, os brasileiros acreditam cada vez menos que o saldo será benéfico para o país.

Em nenhum lugar esse sentimento está tão à flor da pele quanto no Rio de Janeiro, a cidade-sede dos jogos, onde a penúria dos serviços públicos básicos  hospitais, escolas, esquadras de polícia contrasta com arenas olímpicas impecáveis, onde os trabalhadores da periferia passam horas em transportes públicos para chegar ao trabalho enquanto no centro financeiro da cidade o novo VLT, um eléctrico moderno, percorre o seu curto trajecto praticamente vazio. Quem aterrar no Galeão, o aeroporto internacional do Rio, em Agosto, talvez seja recebido, em bom inglês, com a mensagem: “Bem-vindos ao inferno”. No início desta semana, um grupo de agentes da polícia civil fez um protesto na área de desembarque do aeroporto com essa e outras faixas, dizendo “Não se preocupe, no Rio apenas 54 polícias foram assassinados neste ano olímpico”.

O trânsito na cidade continua caótico e congestionado, por causa das obras no sistema de transportes públicos. A cidade não parece mais arrumada ou preparada do que há seis meses. As novas estações de metro, que deverão facilitar o acesso ao Parque Olímpico, situado na Barra da Tijuca, ainda estão por terminar e a previsão é que comecem a operar a 1 de Agosto, isto é, quatro dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos e sem tempo para todos os testes de segurança inicialmente previstos. Sem o metro, chegar ao Parque Olímpico pode demorar umas duas horas em dias normais.

“Não há ambiente olímpico na cidade”, diz Anderson França, 41 anos, morador em Cachambi, um bairro de classe média-baixa na zona norte do Rio, que ganhou notoriedade publicando crónicas ácidas sobre o Rio no Facebook. O livro Rio em Shamas, que reúne uma selecção desses textos cheios de calão carioca, neologismos e pura inventividade, sairá em Outubro na Companhia das Letras. “Compara Chicago, a cidade que perdeu [a candidatura aos Jogos Olímpicos de 2016], com essa. Chicago seria uma cidade olímpica nessa fase. Sem ninguém obrigá-los. Porque americano sabe trabalhar, americano sabe fazer entrega, americano sabe fazer evento. O Rio está em pânico. Já ouvi muita gente boa dizer que seria muito prudente cancelar as Olimpíadas”, diz. O escritor contraiu chikungunha há três meses, um vírus transmitido através da picada do mesmo mosquito responsável pela zika e pelo dengue, e que ainda lhe causa dores nas articulações, razão pela qual se apoia numa bengala. “Há casos em que as sequelas levam dois anos para desaparecer… Estamos falando de uma doença gravíssima. Eu fui atendido em rede publica e os médicos não sabem diagnosticar. Cada um dá um remédio diferente. Qual é o clima olímpico que estamos vivendo?”

Quadro negro nos hospitais

As autoridades do Rio de Janeiro têm vindo a relativizar a ameaça do zika, insistindo no argumento de que as Olimpíadas vão decorrer num período mais frio e menos favorável aos mosquitos. Mas o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Darze, disse esta quinta-feira que essa afirmação é “leviana e irresponsável”. “Só quero lembrar que vivemos num país tropical, em que as estações não são bem definidas. Sabemos que o ovo do mosquito dura em média um ano, então ele está em condições de eclodir e proliferar. Nenhuma autoridade tem condições para afirmar que durante as Olimpíadas teremos essas doenças sob controle.”

Na mesma conferência de imprensa foi traçado um quadro negro da rede pública de hospitais no Rio e da sua capacidade para atender a grande quantidade de turistas e visitantes esperados durante as Olimpíadas. Os hospitais estão sobrecarregados e existem centena e meia de pacientes em estado grave na fila de espera para serem internados nas alas de cuidados intensivos. O hospital mais perto do Parque Olímpico, Lourenço Jorge, não tem neurocirurgia, pelo que, numa eventualidade, o paciente terá de ser transferido para outro hospital. Quanto mais demorado for o atendimento, maior a probabilidade de complicações, alerta o presidente do Sindicato dos Médicos.

“O mais triste é você ver pessoas que poderiam ser salvas e que morrem por falta de dinheiro. O programa de transplante de órgãos foi todo desmontado. Acabaram com o helicóptero que transportava órgãos”, diz Ricardo Farias Junior, ortopedista no hospital de Saracuruna, o maior do estado, que serve a zona da Baixada Fluminense, isto é, uma população “bem pobre, como todo o hospital público”.

Pergunte-se a qualquer carioca e ele dirá: o sistema público de saúde no Rio sempre foi ruim. Mas agora está pior, por causa do colapso financeiro nas contas públicas do governo estadual. Em Junho, o governador do Rio de Janeiro decretou o estado de calamidade pública, uma medida habitualmente reservada para catástrofes naturais, reconhecendo que o cenário actual é de falência e que o Rio não iria conseguir honrar os seus compromissos olímpicos sem ajuda. O pedido de socorro foi atendido com 800 milhões de euros do governo federal, a fundo perdido, destinados a gastos com segurança pública durante os jogos e à finalização das obras na linha 4 do metro. Enquanto isso, funcionários públicos, incluindo médicos, professores e policiais, estão há meses a receber os seus salários em atraso e em parcelas. O decreto de calamidade pública “foi uma fraude institucional adoptada pelo estado para burlar a lei de responsabilidade fiscal e ficar bem na foto da imprensa internacional”, acusa o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze. O governo estadual está impossibilitado de pedir novos empréstimos por já se encontrar endividado além dos limites previstos na lei.

“Não foi uma catástrofe natural que nos deixou nesse estado”, diz Anderson França. Os responsáveis por esse erro deveriam ser judicialmente responsabilizados. Chama na justiça [Sérgio] Cabral, [Luiz Fernando] Pezão, [Francisco] Dornelles”. São os três últimos governadores do Rio, todos do PMDB. “É ruim para a imagem da cidade e é um absurdo que a gente tenha chegado nesse ponto já que somos o segundo estado mais rico do país. Conseguimos dinheiro do governo federal, mas para onde está indo esse dinheiro? Não vi ninguém ir a Brasília pedir dinheiro para a saúde e para a educação. Pediram para suprir uma necessidade de segurança pública para o evento e não necessariamente para a cidade.”

As equipas médicas vão ser reforçadas para lidar com a eventualidade de uma emergência que envolva múltiplas vítimas durante os jogos, mas o treino desses profissionais só começa a 30 de Julho.

“O brasileiro é sortudo. Não vai ter nenhum evento catastrófico. Não tem o menor estado para atender nenhum tipo de catástrofe. Caiu um estádio, atentado terrorista, avião caiu? Não tem. É caótico mesmo”, diz Ricardo Farias Junior.

A questão política

“A grande ironia é que, embora as Olimpíadas tenham sido pensadas como uma maneira de tornar o Rio de Janeiro uma cidade globalmente admirada, elas vêm tendo um efeito contrário”, sublinha Maurício Santoro, cientista político e professor do departamento de relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Os Jogos Olímpicos deveriam coroar uma cidade e um país em estado de graça, carimbar a sua modernidade e cosmopolitismo, mas em vez disso a contagem decrescente para o Rio 2016 tem sido, no mínimo, turbulenta e embaraçosa. O processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff, levado a cabo por um Congresso sem credibilidade e maioritariamente corrupto e oportunista, chocou a comunidade internacional de uma forma que o Brasil talvez ainda nem tenha consciência. (Curiosamente, Dilma foi afastada da presidência sob o argumento de que violou a lei de responsabilidade fiscal e afundou as contas públicas, mas isso não parece ser um problema em relação à gestão do Rio de Janeiro; os governadores continuam nos seus cargos e até receberam dinheiro extra de Brasília.)

Uma ciclovia que contorna a costa litoral entre o Leblon e São Conrado desabou em Abril, três meses após a sua inauguração e no mesmo dia em que a tocha olímpica era acesa em Atenas. Duas pessoas morreram e, na sequência do acidente, soube-se que a estrutura, que custou 45 milhões de reais (12,4 milhões de euros), apresentava uma série de deficiências e falhas, desde a construção à fiscalização. O consórcio que construiu a ciclovia também é responsável pela gestão de sete obras ligadas aos Jogos Olímpicos.

Só nas últimas semanas, o noticiário sobre o Rio de Janeiro incluiu: a invasão de um dos hospitais-referência para atendimento durante as Olimpíadas, o Souza Aguiar, por um bando de homens fortemente armados que resgataram um traficante de drogas, conhecido como Fat Family, que se encontrava internado, sob custódia policial; o assalto à mão armada de uma velejadora paralímpica australiana que está a treinar no Rio; a morte de uma médica baleada durante uma tentativa de assalto na Linha Vermelha, a principal artéria que liga o aeroporto à cidade; a descoberta de um corpo esquartejado na praia de Copacabana, a poucos metros da arena olímpica que está a ser erguida para as competições de vôlei de praia; e o roubo de contentores com o equipamento de duas televisões alemãs que chegaram ao Rio para cobrir as Olimpíadas (o material foi, entretanto, recuperado). As estatísticas mostram que a criminalidade e os homicídios aumentaram no Rio. “É o maior índice dos últimos dez anos”, diz Cecília Oliveira, especialista em segurança pública. Cecília concebeu um app chamado Fogo Cruzado, que acaba de ser lançado, a 30 dias dos Jogos Olímpicos. Ele servirá para geo-localizar os tiroteios que ocorrem na cidade, usando como fontes os boletins diários da Polícia Municipal, os relatos na imprensa e a colaboração dos utilizadores. “O objectivo é ter uma real dimensão do quão inserido numa cidade violenta a gente está. Não acontece só tiro em favela. A bala está voando em todos os pontos da cidade. E ter uma ideia do preço dessa violência: as escolas que fecham por causa de tiroteio, as linhas de comboio que são suspensas, etc.”.

Segundo o plano elaborado pela secretaria de segurança do estado do Rio, as forças armadas vão ocupar seis favelas que ficam próximas das áreas de trânsito de turistas, autoridades e delegações olímpicas.

O brasileiro em geral e o carioca em particular sentem que estas Olimpíadas não foram feitas para ele. “Há um senhor que vem uma vez por semana no meu prédio fazer a limpeza”, conta Maurício Santoro. “É um senhor de uma certa idade, pacato e gentil. Outro dia, ele disse: ‘Eu torço para que chova durante as Olimpíadas e estrague a festa deles.’ Evidentemente, esse senhor não sente esta iniciativa como uma festa que é para ele também. E por que haveria? Os ingressos são caros, os estádios são na Barra, longe de onde as pessoas moram, especialmente as mais pobres.”

“Acho que toda a zona norte do Rio pensa isso: que acabe logo, que devolvam a cidade para as pessoas que moram aqui”, diz Anderson França. “O carioca não torce contra si mesmo No fundo, ele quer que apareça alguém salvando tudo e a gente consiga resolver. Mas, na verdade, a gente está mais próximo de dar errado. Então, se vai dar errado, tomara que chova. Tomara que a pessoa que gastou dinheiro para comprar um ingresso grande sofra um pouco o que eu estou sofrendo.”

publico.pt

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