Viragem à direita na remodelação governamental de David Cameron

4/09/2012 23:49 - Modificado em 4/09/2012 23:49
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O primeiro-ministro britânico, David Cameron, nomeou para a pasta da Saúde o seu secretário da Cultura, Media e Desporto, Jeremy Hunt, que esteve debaixo de fogo durante o escândalo de escutas ilegais no Reino Unido por causa da sua defesa do império do magnata australiano dos media, Rupert Murdoch.

 

A promoção de Jeremy Hunt foi a maior surpresa da primeira – e vasta – remodelação governamental levada a cabo por David Cameron, cumpridos que estão dois anos e meio de governação.

 

O embaraço causado pelo envolvimento de Hunt na negociação da venda da operadora televisiva BSkyB, a maior estação comercial do Reino Unido, levara os comentadores a descartar sua permanência no executivo. David Cameron, contemporâneo de Jeremy Hunt na universidade de Oxford, provou até onde vai o seu apoio e fidelidade, recusando-se deixar cair o seu aliado político.

 

A nomeação de Jeremy Hunt foi interpretada como uma significativa mudança da postura governamental relativamente processo de reforma e reorganização do Serviço Nacional de Saúde, um dos dossiers políticos mais sensíveis e que tem merecido mais crítica e contestação da opinião pública.

 

Lembrando que na sua anterior encarnação como secretário da Cultura, Jeremy Hunt foi “o homem que tentou cortar o tributo ao Serviço Nacional de Saúde do programa da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos”, os trabalhistas atacaram duramente a sua promoção, descrevendo-o como um “ yes man” que no anterior cargo “andou a fazer cambalhotas para defender os poderosos interesses do sector privado”.

 

“O que o serviço nacional de saúde precisa é de uma nova política e não de um novo vendedor”, considerou o ministro sombra da Saúde, Andy Burnham. “Trocar um ministro que fracassou por outro que revelou ter tão mau discernimento não é a melhor forma de demonstrar que o serviço nacional de saúde é uma prioridade”, criticou.

 

As promoções anunciadas procuram resolver alguns dos desafios mais imediatos do executivo – sejam eles os “problemas de comunicação” com o público ou a gestão da indisciplina da sua base de apoio – sem descurar a sua continuidade eleitoral (mesmo se as legislativas na primavera de 2015 parecem ainda muito distantes).

 

Digeridas as mudanças, os comentadores sublinhavam que David Cameron não quer arrepiar caminho em termos dos objectivos e das políticas do seu Governo. Segundo o porta-voz de Downing Street, depois de uma primeira fase a produzir legislação, o Governo entra agora numa nova fase de “execução” do seu programa.

 

“A remodelação garante que temos as pessoas certas nos lugares certos para levar até ao fim a agenda do Governo”, disse o assessor.

 

Mas as personalidades escolhidas para dar um novo impulso à governação sugerem uma acentuada viragem do executivo para a direita. Peter Bone, um dos membros da ala mais radical dos Tories na Câmara dos Comuns não escondia a sua satisfação com a manobra do primeiro-ministro: “A remodelação ideal para mim seria o fim da coligação, mas é verdade que, comparado com o anterior, este executivo é bastante mais conservador. O partido fica com a sua posição bastante fortalecida”, considerou, em declarações à Reuters.

 

O veterano Kenneth Clarke, um proeminente “europeísta”, foi substituído na pasta da Justiça por Chris Grayling, um homem de direita que sobe da pasta da Segurança Social com a missão de sossegar a ala eurocéptica. Clarke mantém-se no executivo, no ambíguo cargo de ministro sem pasta e conselheiro de Cameron.

 

A despromoção de Sayeeda Warsi, a primeira mulher muçulmana a entrar num Governo britânico, personifica uma outra característica do novo elenco conservador, que será menos heterogéneo e mais ortodoxo, com menos mulheres em cargos de topo e menos diversidade étnica.

 

As mexidas na formação governamental envolveram sobretudo figuras ligadas ao Partido Conservador – os parceiros de coligação liberais-democratas recuperaram David Laws, principal conselheiro económico do vice primeiro-ministro Nick Clegg, e que vai para a Educação.

 

Laws, que cumpriu apenas 17 dias como secretário do Tesouro em 2010, demitiu-se quando a imprensa revelou que reclamara nas suas despesas de deputado o aluguer de um quarto na casa do seu companheiro, mantendo secreta a natureza do seu relacionamento.A salvo da remodelação ficaram as três figuras chave do partido no executivo, e também os mais próximos de David Cameron: a secretária do Interior Theresa May, o ministro dos Negócios Estrangeiros, William Hague e o chanceler George Osborne, responsável pelos cortes orçamentais e a figura mais impopular do Governo.

 

O homem das finanças foi sempre carta fora do baralho da remodelação, não só por causa do compromisso do primeiro-ministro de não se desviar das suas políticas de austeridade, como também pela preocupação com uma reacção negativa dos mercados financeiros.

 

A dança de cadeiras não escapou às críticas da oposição. “Continuamos com o mesmo chanceler e com o mesmo plano económico que mantém o país na recessão. É mais do mesmo”, notou o ministro sombra trabalhista Michael Dugher.

 

Mas as reacções negativas não vieram só da boca dos adversários políticos de David Cameron. O mayor de Londres, Boris Johnson, foi rápido em censurar a nomeação de Patrick McLoughlin para a pasta dos Transportes, interpretando-a como uma traição da garantia do Governo de que não avançaria com a construção de mais uma pista de aterragem em Londres, um projecto que reputa como “pura loucura”.

 

“É um péssimo sinal de que a construção de uma terceira pista em Heathrow está efectivamente nos planos do Governo”, concorda a nova líder dos Verdes, Natalie Bennett.

 

Para Boris Johnson, o afastamento de Justine Greening (que foi indicada para secretária do Desenvolvimento Internacional), só pode ter como objectivo a expansão do aeroporto de Heathrow. “Fica mais do que claro que o Governo pretende quebrar as suas promessas e encher o céu de Londres com mais aviões. A construção de mais uma pista significa mais tráfego, mais barulho, mais poluição, e uma séria redução da qualidade de vida de centenas de milhar de pessoas”, resumiu.

 

 

 

 

 

jn.pt

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