O novo jihadista do Estado Islâmico é gangster e terrorista

22/03/2016 11:31 - Modificado em 22/03/2016 17:04
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bruxelasHá muito que as prisões europeias são terreno fértil para radicais islamistas, mas criminalidade e extremismo estão agora mais interligados. Os pequenos crimes de recrutas prosseguem mesmo depois de verem “a luz” do Islão radical.

Os ataques terroristas em Paris iluminaram os contornos do crescimento de uma nova estirpe de jihadistas, que esbate as fronteiras entre o crime organizado e o extremismo islâmico, que usa ferramentas afinadas a violar a lei ao serviço do radicalismo violento.

O Estado Islâmico está a construir um exército de fiéis a partir da Europa que inclui um número cada vez maior de rufias e antigos presidiários, enquanto a natureza da radicalização se modifica na era do seu autoproclamado califado. Em vez de deixarem para trás as suas vidas de crime, alguns dos adeptos servem-se dos seus talentos ilícitos para financiar círculos de recrutamento e custos de viagem para combatentes estrangeiros, mesmo que o seu passado lhes possa dar acesso mais fácil a dinheiro e armas – o que representa um novo desafio para as autoridades europeias.

Antes de se transformar no célebre orquestrador dos ataques terroristas de Novembro em Paris, Abdelhamid Abaaoud, 28 anos, esteve ligado a uma quadrilha de ladrões radicalizados liderados por um homem alcunhado Pai Natal. O gangue – que incluia homens que acabaram por ir lutar na Síria e no Iraque – assaltava turistas e lojas, e construíu assim uma organização de pequeno crime ao serviço do Estado Islâmico, dizem as autoridades.

A imagem que emerge agora das maquinações do Estado Islâmico (EI) na Europa é diferente da evolução da Al-Qaeda, que nos seus primeiros anos dependia em larga medida de recrutas ostensivamente pios e patrocinadores estrangeiros ricos.

Criminoso reincidente

Abaaoud, filho de imigrantes marroquinos na Bélgica, era um criminoso reincidente que foi posto fora de casa com 16 anos. Radicalizou-se e partiu para combater na Síria em 2013. Mas continuava a cometer roubos, mesmo no seu breve regresso à Bélgica, nesse mesmo ano. Usou os ganhos para financiar uma nova viagem para a Síria, em Janeiro de 2014, desta vez com o seu irmão de 13 anos, Younes, segundo afirma um agente de topo nos serviços de informação que interrogou um familiar de Abaaoud. Como outros responsáveis entrevistados, prestou declarações sob anonimato, por estar a discutir uma investigação em curso.

A rede terrorista de Abaaoud em Paris, dizem os investigadores, era diferente do círculo de pequenos crimes de Bruxelas, que não executou ataques em solo europeu, mas em vez disso recrutava combatentes e financiava o seu trânsito para o Médio Oriente. Mas a maioria dos atacantes de Paris tinha também um passado criminoso. Dois deles – Brahim Abdeslam, que se fez explodir a 13 de Novembro, e o seu irmão, Salah Abdeslam, ainda em fuga – geriam um café em Bruxelas, encerrado em Agosto, dada a sua actividade relacionada com o tráfico de drogas.

Um responsável francês ligado à investigação de Paris disse também que as análises forenses detectaram vestígios de Captagon – uma droga muito traficada no Mèdio Oriente, apesar da proibição de produtos intoxicantes no Islão, que normalmente é uma mistura de anfetaminas e teofilina – em restos mortais de vários dos atacantes.

“Esta ligação ao mundo do crime não se veria com [Osama] bin Laden”, diz Mohammad-Mahmoud Ould Mohamedou, vice-director do Centro para as Políticas de Segurança de Genebra. “Havia um certo fundamentalismo dentro do terror.”

Terreno fértil 

Há anos que as prisões europeias são terrenos férteis para radicais islamistas, particularmente em França e na Bélgica. Mas, recentemente, extremismo e criminalidade começaram a estar ainda mais interligados, e o comportamento ilegal dos recrutas prossegue mesmo depois de lhes ter sido mostrada “a luz” do Islão radical.

“Muitos viviam vidas de delinquentes, tiveram uma epifania e tornaram-se religiosos, mas as ligações à criminalidade não desaparecem”, diz Peter Neumann, especialista em radicalização no King’s College de Londres. “Vejo isto como um aspecto operacional do EI.”

Num exemplo da nova tendência, um tribunal em Colónia, Alemanha, está a julgar o caso de oito homens suspeitos de fazer assaltos a igrejas, escolas e empresas, entre Agosto de 2011 e Novembro de 2014, como forma de apoiar combatentes islamistas na Síria. Numa só igreja, roubaram alegadamente objectos religiosos no valor de dez mil euros. Não é ainda evidente qual o grupo que apoiavam, mas “todas as provas apontam para o Estado Islâmico”, diz o porta-voz do tribunal, Achim Hengstenberg.

Há poucos casos em que o elo aparente entre criminalidade e radicação esteja tão realçado como no do círculo de Bruxelas, alegadamente chefiado por Khalid Zerkani, um redondo e barbudo marroquino de 42 anos alegadamente ligado ao EI.

Conhecido pelos seus seguidores como Papa Noel – ou Pai Natal –, Zerkani dava dinheiro e prendas a jovens desorientados que recrutava como ladrões e combatentes em potência, dizem investigadores. Tinham por objectivos principais estações de comboios e turistas, roubavam bagagens e assaltavam lojas em nome da sua causa. Os lucros, dizem responsáveis da investigação, destinavam-se a cobrir os custos do envio de recrutas da Europa para os campos de batalha no Médio Oriente.

Roubar pela “causa”

O roubo é proibido no Islão. Mas os seguidores do Estado Islâmico racionalizam as suas actividades, dizendo quetêm como alvo os não-crentes, ou que os seus crimes são executados com fins estratégicos.

Responsáveis pela investigação avançam que a alegada rede de Zerkani permite analisar as tácticas de recrutamento e financiamento usadas por combatentes do EI nascidos na Europa. Zerkani, dizem, está ligado a pelo menos 30 ou 40 pessoas que trocaram a Bélgica pela Síria e Iraque.

Um dos seus recrutas, Youssef Bouamar, de 21 anos, contou às autoridades que Zerkani o encorajou a roubar bagagens em estações de comboio para financiar a “causa islamista”.

Zerkani parecia escolher aqueles que tinham já um um registo criminal sujo. Seduzia recrutas em cafés e nas ruas próximas de mesquitas não-oficiais em Molenbeek, um bairro de Bruxelas com muitos imigrantes do Norte de África. Mohamed Karim Haddad, cujo irmão foi recrutado para combater na Síria, disse à polícia que Zerkani era “um charlatão que manipula jovens e homens socialmente desajustados para a causa errada e provavelmente em nome do seu próprio negócio”.

As autoridades belgas detiveram Zerkani em Fevereiro de 2014 e acusaram-no de chefiar uma organização terrorista. Foi condenado a 12 anos de prisão. Disse-se inocente e pediu recurso. O seu advogado, Steve Lambert, recusou-se a comentar.

Abaaoud era muito próximo do mundo de Papa Noel. A sua família vivia em Molenbeek pela altura em que Zerkani e os seus seguidores se instalaram lá. Abaaoud esteve ligado a pelo menos três membros dessa rede, de acordo com documentos dos serviços de informação, registos do tribunal, relatórios da polícia e mais de uma dúzia de entrevistas. Foi condenado in absentia, este ano, no mesmo julgamento que Zerkani, apesar de as autoridades não terem chegado a dizer que os dois trabalhavam em conjunto. Mas uma mensagem encontrada num dos telemóveis de Zerkani parece referir-se a Abaaoud pelo seu nom de guerre na Síria, Abu Omar Soussi.

Um dos irmãos mais novos de Abaaoud – Yassine – contou às autoridades que a sua mãe lhe implorara para evitar Zarkani e o seu grupo. “Ela tinha medo deles por causa de todos os problemas”, disse Yassine, segundo os registos do tribunal. “Chamava-lhes os ‘tipos barbudos’.”

Outro ângulo para a jihad 

Os mais recentes grupos jihadistas são um ponto de viragem, afirmam especialistas. Organizações mais antigas, como a Al-Qaeda, muito mais severas na interpretação da teologia, costumavam usar vídeos de recrutamento que não passavam de 45 minutos de divagações em sermão de Bin Laden, o herdeiro de uma família de endinheirados industriais sauditas. O EI usa propaganda colorida na Internet para patrocinar a atracção de um paraíso onde jovens alienados sentem disparos de adrenalina e gozam os despojos de guerra.

“São terroristas de qualidade inferior”, afirmou um responsável pela segurança europeia.

Isso não quer dizer que são menos perigosos. As ligações criminosas podem estar a permitir a membros de novos grupos que obtenham armas e dinheiro na Europa com mais facilidade. E as suas ligações ao mundo da pequena criminalidade podem ter feito com que as autoridades menosprezassem o seu verdadeiro perigo.

Um dos discípulos de Zerkani, um recruta chamado Yoni Mayne que já tivera os seus choques com a lei, partiu para a Síria no início de 2013, de acordo com a sua mãe, que tem 68 anos e que falou sob a protecção do anonimato por temer represálias. Passadas poucas semanas, Mayne voltou a casa.

A mãe diz que pediu às autoridades que impedissem o filho de regressar ao Médio Oriente e que lhe asseguraram que estavam no seu encalce.

“Mas depois ele partiu e eles não fizeram nada”, afirma.

Os agentes desculpam-se com as ferramentas que tinham na altura a seu dispor. Mas vozes críticas afirmam que as autoridades belgas, na verdade, viam a partida deste jovens como algo positivo: uma maneira de exportar o problema dos rapazes muçulmanos que praticavam crimes. As autoridades dizem agora que Mayne regressou à Síria em Janeiro de 2014 e que o fez na companhia do seu irmão de 13 anos, Abaaoud. Mayne, segundo registos de tribunal, morreu em combate pelo Estado Islâmico em Março de 2014.

Existem mais ligações entre o orquestrador dos ataques em Paris e o círculo mais próximo de Zerkani. Documentos apresentados em tribunal mostram que uma rusga policial em Fevereiro de 2014 descobriu o passaporte marroquino fora de prazo de Abaaoud no apartamento de um dos seguidores de Zerkani.

“Revolta”

Investigadores e líderes muçulmanos afirmam que os recrutas do EI seduzem jovens muçulmanos com passados criminais porque estes são os melhores alvos. Estão muitas vezes zangados e alienados, como é o caso de Farid, homem magro e pálido na casa dos 20, antes amigo de Abaaoud, que afirma ter ficado “feliz” quando soube dos ataques em Paris.

Filho de emigrantes marroquinos, Farid – que não deu o seu último nome para evitar ser identificado pela polícia – afirma que passou os anos de adolescência dentro e fora da prisão. Ao longo de uma conversa num café fumarento no distrito de Molenbeek, deu a ver o perfil daquilo que disse ser uma pistola no seu bolso e mostrou um molho grosso de euros daquilo que disse ser actividades ilícitas.

Descreve a vida de jovens muçulmanos na zona como algo desesperante. Muitos sentem-se sem Estado e enfrentam taxas de desemprego bem acima da média nacional. A maioria dos seus amigos, diz, já esteve presa.

Afirma que ele e outros jovens conhecidos seus querem ir para a Síria para se juntarem ao Estado Islâmico. O grupo tem apelo porque, segundo ele, está a criar um local onde muçulmanos como ele se podem finalmente sentir em casa.

“Revoltamo-nos contra este Estado e esta sociedade que nunca nos aceitou como belgas. Revoltamo-nos contra os nossos pais e os seus países de origem”, afirma. “Não me sinto belga. Não me sinto marroquino. Encaro-me como muçulmano e era assim que Abdelhamid [Abaaoud] se via.”

Exclusivo PÚBLICO/Washington Post

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