Palin junta-se a Trump para “dar um pontapé no rabo do Estado Islâmico”

21/01/2016 08:04 - Modificado em 21/01/2016 08:04
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trumpEm Fevereiro do ano passado, no episódio em que o programa Saturday Night Live comemorou o 40.º aniversário, a ex-governadora do Alasca Sarah Palin levantou-se da plateia e perguntou ao comediante Jerry Seinfeld quanto é que os produtores estariam dispostos a pagar se ela se candidatasse à Casa Branca em 2016. “Nenhuma quantia seria suficiente”, respondeu Seinfeld, desvalorizando esse cenário com ironia. “E se eu escolhesse Donald Trump como meu parceiro na corrida?”, perguntou Palin, como se estivesse a atirar aos humoristas um delicioso rebuçado. “Sarah, agora estás a tentar seduzir-nos, isso não é nada simpático da tua parte!”

Em menos de um ano, uma hipótese que não passava de uma piada para humoristas – e para milhões de eleitores norte-americanos muito sérios – transformou-se num cenário possível esta semana, quando a ex-candidata a vice-presidente dos EUA em 2008 declarou o seu apoio ao magnata que lidera as sondagens na campanha do Partido Republicano.

“Estão prontos para tornar a América grandiosa outra vez?”, gritou Palin à multidão que se juntou na cidade de Ames, no estado do Iowa, para ouvir Donald Trump e as inúmeras variantes do seu slogan de campanha – “Make America Great Again” (“Tornar a América grandiosa outra vez”, numa das possíveis traduções).

A presença da antiga governadora do Alasca no comício do candidato do Partido Republicano que lidera as sondagens era o mais recente rumor a circular entre jornalistas e analistas políticos, mas ninguém conseguiu confirmar a informação até ao momento em que Palin subiu ao palco, por volta das 16h de terça-feira (hora local, 22h em Portugal continental).

Conservadores divididos
Mais do que o conteúdo do discurso em que Sarah Palin declarou o seu apoio a Donald Trump, foi a decisão em si que dividiu a ala mais conservadora do Partido Republicano.

Numa campanha em que os apoiantes do movimento Tea Party e outros eleitores que desprezam o chamado establishment do Partido Republicano têm razões para dar pulos de alegria, o apoio de Sarah Palin é visto por muitos como uma espécie de atestado – entre Donald Trump e Ted Cruz, qual deles é o melhor representante dos “verdadeiros conservadores”?

Ted Cruz, que chegou a senador do Texas em 2012 muito graças ao apoio de Sarah Palin e do Tea Party, ainda alimentou a esperança de que a antiga governadora do Alasca mantivesse o apoio que sempre lhe deu. Mas Palin acabou por escolher Trump e a sua quase perfeita lista de qualificações para encarnar o herói dos descontentes com a política tradicional – nunca foi congressista na “corrupta” Washington D.C.; não perde uma oportunidade para dizer o que lhe apetece, mesmo que isso ofenda mexicanos ou muçulmanos; e provou que, afinal, tem verdadeiras hipóteses de vir a ser o nomeado do Partido Republicano.

Para os apoiantes de Trump, enfrentar o sistema já não chega – é preciso pôr os políticos que o manobram nos seus lugares, sejam eles do Partido Democrata ou do Partido Republicano. E é preciso dizer ao mundo que sim, a diplomacia existe, mas é para os fracos.

“Estão prontos para um comandante-em-chefe que deixe os nossos combatentes fazer o seu trabalho e dar um pontapé no rabo do Estado Islâmico? Estão prontos para alguém que vai garantir a segurança das nossas fronteiras, dos nossos postos de trabalho e das nossas casas? Prontos para tornar a América grandiosa outra vez? Estão prontos para Trump? Estou aqui para apoiar o próximo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump”, gritou Sarah Palin.

Atrás dela, o magnata limitava-se a sorrir, a acenar à plateia e a agradecer os elogios que lhe iam sendo feitos – mesmo quando Palin se queixou de que os EUA andam a pagar a factura das “squirmishes” no Médio Oriente, quando queria dizer “skirmishes” (escaramuças, confrontos). Trump não acusou o erro linguístico, mas muitos utilizadores do Twitter não fizeram outra coisa: “‘Squirmishes!’ Uma criação digna de Shakespeare. O melhor trabalho dela desde ‘refudiate‘”, ironizou Molly Ball, jornalista de política da revista The Atlantic.

Apoiantes de Cruz desiludidos
Mas não é certo que o apoio de Sarah Palin vá beneficiar Donald Trump perante o eleitorado que está dividido entre ele e Ted Cruz, quando falta pouco mais de uma semana para que os eleitores do Partido Republicano escolham os seus candidatos no estado do Iowa. Na média das últimas sondagens, Trump ainda surge com uma vantagem de 2,2 pontos sobre Cruz, mas a mais importante – a do jornal Des Moines Register – dá três pontos de vantagem ao senador do Texas.

Cruz e os seus apoiantes têm lembrado ao Tea Party que Trump já foi a favor do aborto, a favor do casamento gay, e já se casou três vezes, algo que para os mais conservadores dos conservadores é o mesmo que dizer “Clinton disfarçado”.

É difícil perceber até que ponto mais de 5000 comentários no Facebook podem servir de indicador para alguma coisa, mas a mensagem em que Sarah Palin partilhou um texto da sua filha Bristol com um ataque a Ted Cruz foi mal recebida por muitos que diziam ser seus apoiantes. “Sarah, desta vez estiveste mal. Perdeste o meu apoio”, escreveu Thom Trottier.

Outro potencial eleitor do Partido Republicano, Steven Carson, resumiu num comentário o que está em causa no duelo entre Cruz e Trump pela conquista do eleitorado mais conservador; um eleitorado que despreza quase todos os outros Republicanos – os do establishment, mas também os que são catalogados como falsos conservadores: “As pessoas não gostam de Cruz porque não conseguem lidar com a verdade, e porque apoiam oestablishment. Também não gostam dele porque ele é um homem de Deus. É um homem de princípios, e não anda sempre a mudar de opiniões, ao contrário de Trump. Cruz nunca apoiou nenhum tipo de aborto, ao contrário de Trump, e isso significa que Trump já tem o sangue de muitas crianças abortadas nas suas mãos.”

publico.pt

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