Ser africano em Cabo Verde é um tabu

4/01/2016 08:07 - Modificado em 4/01/2016 08:07

cabo verdeJOANA GORJÃO HENRIQUES (Texto), FREDERICO BATISTA (Vídeo) e DIOGO BENTO (Retratos)

03/01/2016 – 08:02

 

Este  artigo publicado no jornal português Publico  está a gerar , em  determinados círculos , a polémica do costume   , sempre  que se aborda o tema : Cabo Verde è África ? E também os  silêncios comprometedores de sempre quando a história mostra os cabo-verdianos como “ pretos especiais” usados  como capatazes dos portugueses nas colónias africanas de  Portugal . Tem razão o autor do texto : “ Ser ou não ser africano ainda continua como ponto de interrogação.”. E  um problema   por resolver – acrescentamos nös.

Para ler o artigo na íntegra clique no sublinhado a azul

 

Cabo Verde não é África, os cabo-verdianos são “pretos especiais” e os mais próximos de Portugal. É o país da mestiçagem, a “prova” da “harmonia racial” do luso-tropicalismo. Durante anos esta foi a narrativa dominante. Ser ou não ser africano ainda continua como ponto de interrogação.

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Jorge Andrade só fala crioulo. Sabe português mas escolhe a língua cabo-verdiana como meio de comunicação para afirmar a sua africanidade e marcar a distância do passado colonial. “O crioulo é uma arma de intervenção”, explica no estúdio da Rádio de Cabo Verde, onde dirige o único programa de rádio que fala das questões africanas. “A nossa capacidade de perceber, comunicar, pensar, sonhar é toda em crioulo. A gente sente-se livre quando se expressa em crioulo, e se sente oprimido quando fala a língua dos colonos.”

Clarificando, Jorge Andrade não é contra Portugal, nem contra os portugueses ou contra a língua portuguesa — é contra o imperialismo cultural europeu “sobre África e os africanos”. Nem sequer tem problemas em falar português. Mas sempre que puder usa o crioulo. Sempre que consegue, força os portugueses a tentar ouvir e falar em crioulo.

Ele é uma figura carismática e isso percebe-se pela forma como chega ao bairro Ponta d’Água em Junho deste ano, se senta em plena rua em frente a um grupo de jovens e fala das questões raciais como um pastor a espalhar uma mensagem, cheio de convicção e fé. É um homem que não está com meias palavras para dizer o que pensa. Tem umas longas rastas, presas numa espécie de touca branca, que lhe cai para a camisa branca e gravata escura.

Talvez por sabermos que viveu vários anos nos Estados Unidos, ao vê-lo em conversa com os jovens do bairro, lembramo-nos de figuras como Martin Luther King. Mais facilmente recorre a uma palavra em inglês do que em português para explicar melhor o que pensa. O grupo de cerca de dez jovens olha-o e ouve-o atentamente. A noite vai caindo, mas nem por isso há desmobilização ou desinteresse — pelo contrário, a conversa aquece à medida que mais gente se junta no passeio. “O interessante é que os africanos que estão fora do continente têm mais conhecimento sobre África do que nós que estamos cá”, comenta. “O nosso conhecimento de África é quase nulo”, lamenta, quando fala para os jovens. “A presença de África dentro da Bíblia, por exemplo, como é?”

Jorge Andrade falará do papel da religião e das novas igrejas, que ficarão mais lotadas se não se conseguir passar a cultura africana aos jovens, acredita. “Se África é uma religião, eu sou um pastor”, comenta. “Mas cada um é pastor da sua própria consciência.”

A missão diária de Jorge Andrade, que anda de bairro em bairro de forma discreta, é espalhar a palavra sobre a africanidade entre os jovens que têm sido bombardeados com as imagens miserabilistas de um continente onde existiu uma História antes de os europeus lá chegarem.

Aparece uma mulher no grupo, Keyla. Vem aprender sobre África e pan-africanismo, algo que não se ensina na escola. Um dos jovens, Tosh, 35 anos, explica que acha interessante o ensino e a narrativa oficial, desde cedo, terem passado a ideia de que os cabo-verdianos são diferentes dos “irmãos da costa ocidental”. Mandados para postos de chefia em outras colónias pelos portugueses, “até hoje os cabo-verdianos acham que não são africanos, que são mais inteligentes, mais sábios do que os irmãos que estão no continente”. Isso “veio desde a colonização, foi-nos incutida essa ideia. Hoje está a repercutir-se na nossa sociedade. Temos um grande problema de identidade. Mesmo que a História o mostre, o cabo-verdiano rejeita porque está no nosso DNA desde a colonização. Essa é a sociedade que temos, uma autêntica confusão”.

Tem havido ao longo dos anos várias definições de Cabo Verde como um país que não está nem em África nem na Europa. Muitos dos próprios cabo-verdianos incorporaram este conceito, ao ponto de essa ambiguidade fazer parte da definição de identidade que é descrita por algumas pessoas. Com isso vem a questão da mestiçagem, que Jorge Andrade define como “uma violência”: “Na hora em que se pensa em mestiçagem, pensa-se automaticamente em violação sexual” de uma africana por um europeu. “Na nossa cor de pele, é constante a lembrança do impacto do colonialismo e da escravatura”, afirma.

publico.pt

  1. Firmino Lima

    esses 2 jornalistas portugueses, conseguiram 2 minutos de fama. Agora devemos ignorá-los pois estamos no século XXI e não no século XIX.

  2. Sou Caboverdeano

    Não vejo tabú nisso. Eu afirmo ser Caboverdeano e se alguem me perguntar a minha descendência eu digo que sou descendente de Africanos e dos colonizadores portugueses. Não vejo tabu nisso. Os brasileiros dizem-se brasileiros, os angolanos dizem-se angolanos, …e por ai fora, então porque é que não posso dizer que sou Caboverdano e não Africano? Realmente cabo verde não é africa, não temos os mesmos costumes, hábitos, mesma moeda …. nem sequer eu, caboverdeano, posso ir para alguns paises africanos sem ter um visto agora vou dizer que cabo verde é africa? Na europa os europeus tem livre circulação. Não significa que esteja desvalorizando o continente africano, porque EU, dou até mais valor aos genes de guerreiro e trabalhador que herdei dos africanos do que a parte dos portugueses, com todo o respeito mas voces sabem do que falo. Por isso continuarei dizendo: eu sou Caboverdeano, descendente de Africanos e dos colonizadores portugueses. Não vejo mal nisso. Agora, os falsos hipócritas que digam o que quiserem. Vejo muitos comentários por ai, de caboverdeanos dizendo que são africanos … mas é olhar para a cara deles e ver a forma de olhar para os denominados “mandjacos”. Isso é pura hipocrisia. O caboverdeano herdou um dos piores defeitos dos portugueses, o RACISMO. Não tenham medo de falar, assumem, hoje são livres para tal. Não tenham medo da opinião publica.

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