Luís Morais: o pai da música moderna caboverdiana

31/12/2015 09:11 - Modificado em 31/12/2015 09:11

Luis Morais3Luís Morais é um dos mais importantes personagens da música cabo-verdiana, ou melhor, pode ser considerado, sem medo de exagerar, o pai da música moderna cabo-verdiana. A sua biografia está estreitamente ligada com a história do grupo por ele fundado, Voz de Cabo Verde.
Nasce em 10 de Fevereiro de 1935 no Mindelo, na ilha de São Vicente.
Logo se interessa pela música, paixão que deriva da família do pai, originário da ilha da Boa Vista e também ele músico. Começa a fazer parte de vários grupos musicais e, ainda adolescente, também da banda municipal de São Vicente mas, sobretudo, é aluno do Senhor Reis, uma autêntica instituição para os jovens que se interessam pela música e que formou muitas gerações de músicos no Mindelo. Em 1954 muda-se para a ilha do Sal onde encontra emprego numa empresa de construções. Encontra, todavia, tempo para formar um grupo musical para se apresentar nos locais juntamente, entre outros, com Taninho Évora e Tututa, tocando, em especial, o clarinete, instrumento introduzido pela primeira vez na ilha, precisamente, pelo próprio Morais. Depois do serviço militar, em 1962 decide emigrar para o Senegal, onde se reúne ao pai e onde encontra Bana, outra figura importante da música cabo-verdiana. Em Dakar frequenta o Conservatório juntamente com alguns amigos, entre os quais Djosinha, onde ganhava para viver apresentando-se nos locais da capital, primeiro no Miami Jazz, depois no Saloum, oferecendo um repertório que compreende merengue, cha-cha, bolero, patchanka, ritmos latinos muito na moda naquela época, mas também ritmos tradicionais cabo-verdianos, quais a coladera e a morna, que adapta no tempo certo.
Em 1966, depois de um convite de Frank Cavaquinho, músico da ilha de Santo Antão, residente em Roterdão, parte para a Holanda onde, em pouco tempo, dá vida ao lendário grupo Voz de Cabo Verde, juntamente com o próprio Cavaquinho (bateria) e Toy Ramos (guitarra), Jean d’Lomba (baixo) e Morgadinho (trombeta, baixo e vvz), a quem se juntaria mais tarde Djosinha (voz) e Chico Serra (piano). Os cincos amigos fundadores do grupo animam as noites do “Bonanza”, uma discoteca frequentada não só por muitos cabo-verdianos residentes em Roterdão, mas também por holandeses que apreciam seja as interpretações deles ou dos standard americanos e das baladas pop inglesas ou italianas, seja as mais tradicionais mornas ou coladeras.
Luís Morais foi sempre o líder indiscutível do grupo e para além de tocar vários tipos de sax – alto, baixo, tenor e soprano – e flauta, distingue-se especialmente no clarinete. Era dotado de uma extraordinária capacidade de orquestração e foi o arranjador das músicas do grupo. Rapidamente, a Voz de Cabo Verde alcança um sucesso que permite aos músicos de se apresentarem em muitos palcos europeus, de serem tratados como profissionais e de serem pagos por tocarem, especialmente música africana, como poucos tinham conseguido fazer até então. Morais e companheiros representam, assim, o primeiro grupo musical a difundir fora do pequeno arquipélago os ritmos cabo-verdianos da morna  e da coladera. A música torna-se também num elemento através do qual os cabo-verdianos emigrados no exterior reforçam o sentimento de pertença e de identidade e constitui um motivo de agregação e de sustento ideal para a luta pela independência que, particularmente naqueles anos, o povo cabo-verdiano e da Guiné-Bissau, sob o comando de Amílcar Cabral, estava conduzindo contra o regime colonial de Salazar. Era comum Cabral afirmar que a independência sem cultura não tem valor e que a música deve ser uma arma. Luís Morais, partilhando plenamente e tendo sempre presente estas declarações, representou-as em seguida, através da música, um importante elemento para o seu País também do ponto de vista político.
Em 1968, pela primeira vez, o grupo chega a Cabo Verde, onde conhece um enorme quanto inesperado sucesso. Era também a primeira vez que no arquipélago se ouvia música executada com instrumentos eléctricos. A novidade teve um notável impacte sobre o desenvolvimento dos diferentes géneros musicais e, a partir desse momento, outros jovens artistas começaram a reunir-se e a imitá-los. Depois de alguns anos de sucesso, em 1970 o grupo perde, durante a sua caminhada, alguns componentes: Djosinha, o cantor, muda-se para os Estados Unidos e é substituído por Bana, em seguida Ramos e Morgadinho, estabelecem-se em Paris. Voz de Cabo Verde, seja pela inserção de legítimos jovens artistas entre os quais Tito Paris e Paulino Vieira, continua a tocar e a incidir discos, todavia, não será mais o mesmo grupo de outrora.
Por seu lado, Luís Morais continua a sua actividade seja com o grupo seja a solo, gravando numerosos discos. Realiza arranjos para alguns, compõe para outros e torna-se promotor de novos nomes entre os quais os irmãos Paulino e Toy Vieira, os irmãos Paris, acompanhando outros músicos, seja cabo-verdianos ou estrangeiros. Fica próximo de Cesária Évora até à estreia da sua carreira, participando nas realizações dos discos “La Diva aux pieds nus” e ”Mar Azul”.
Continua incansavelmente a sua actividade no campo musical e, em 1974, é-lhe confiado o encargo de maestro na Banda Municipal de São Vicente, ocupando a vaga deixada após a aposentadoria de Jorge Monteiro, um entre os mais importantes compositores de Cabo Verde de todos os tempos. Retornou definitivamente a Cabo Verde leccionando em vários institutos escolares e dirige uma escola de música para crianças por ele mesmo criada, continuando, ao mesmo tempo, a sua actividade de compositor.
Em Junho de 2002, Voz de Cabo Verde reuniu-se na formação original (com Toy Paris no lugar de Frank Cavaquinho que falecera alguns anos antes), para um concerto na Praia, na sede do Parlamento Nacional. Tratava-se de um tributo que o País queria fazer a um grupo que era conhecido como o pioneiro da música cabo-verdiana e que tanto havia contribuído para a difusão da cultura fora dos confins nacionais. Daquela experiência nasce aquele que será também o último disco de Luís Morais enquanto líder da Voz de Cabo Verde, publicado póstumo em 2003. Luís Morais, neste meio tempo, tinha gravado há pouco o seu último disco a solo, “Novidade de Mindelo”, infinita homenagem à sua cidade natal e ao clarinete, o instrumento que ele mais amou.
Morre inesperadamente em 25 de Setembro de 2002 em New Bedford, no estado de Massachusetts, Estados Unidos, onde se retirou para curar um cancro que o tinha atingido na garganta. Em 2004 sai “Voz com Paz e Amor”, o último disco da Voz de Cabo Verde, dedicado à memória de dois fundadores do grupo prematuramente falecidos: Frank Cavaquinho e Luís Morais.
Ti Lis, apelido com que era afectuosamente chamado, foi  um pioneiro nas incisões de discos no seu país. Entre LP e CD, gravou mais de 30 discos a solo e pelo menos 15 em companhia do seu grupo. Entre estes, “Boas Festas” é o absoluto, sendo o disco mais escutado e amado pelos cabo-verdianos. Mais adiante, ao enorme trabalho desempenhado durante os anos para mostrar ao exterior a cultura do seu País, Luís Morais, um dos precursores da música instrumental de Cabo Verde, com a sua actividade de compositor, maestro, poli-instrumentista, teve um papel fundamental na formação de jovens músicos, também através da criação da escola de música. A sua recordação ficará para sempre na alma dos cabo-verdianos. Não há lugar em Cabo Verde ou no mundo, onde quer que exista uma comunidade cabo-verdiana, que não ecoem as notas do seu imortal “Boas Festas”, uma grande emoção que durante quarenta anos acompanha as festividades de fim de ano.

Por Antonio Danise – Tradução Maurizio Chiosini

P.S. Aproveito a ocasião para agradecer o amigo Dr. César Monteiro por me ter fornecido o material de onde tirei algumas das informações utilizadas para a redacção desta contribuição.

  1. José Anónimo

    «(…) pode ser considerado, sem medo de exagerar, o pai da música moderna cabo-verdiana.»
    Eu peço desculpas mas essa frase é um exemplo crasso de exagero. Faz parte da nossa cultura, quando alguém morre, ser deificado, exagerando as qualidades e ocultando os defeitos. Luís Morais nunca foi grande compositor, e a mania que ele tinha com cumbias torna-se um bocadinho irritante. Aquilo que ele foi, sim, foi um exímio executante (clarinete, flauta, saxofones). Ele teve um papel importante como arranjador mas ele não chega aos calcanhares de, por. ex., Paulino Vieira. Mas ele não foi «pai» de coisa nenhuma, ele não inventou a música moderna cabo-verdiana e ele nem foi influente no sentido de ter um «estilo» que fosse seguido ou imitado por outros. Eugénio Tavares, Manuel de Novas, Catchás ou até Pantera são exemplos de músicos que foram influentes, no sentido correto da palavra.
    Com todo o respeito, deixem-se de exageros, e vamos admirar o homem pelas qualidades que ele tinha, e não por aquilo que ele nunca foi!

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2018: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.