IN MEMORIAM

13/08/2012 00:35 - Modificado em 13/08/2012 00:35

CARO AMIGO ZIZIM FIGUEIRA, CRONISTA DO MINDELO DE OUTRORA

Já lá vai quase um mês desde que nos deixaste, nha broda. Por acaso, eu estavade férias no nosso Mindelo quando, em 22 de Julho, soube da infausta notícia, que, infelizmente, era aguardada a todo o momento, dado o agravamento súbito, e aparentemente irreversível, do teu estado de saúde. No entanto, acredita, meu caro, eu não estava de todo convencido, pois admiti que mais uma vez haverias de nos surpreender, driblando o desfecho derradeiro, como bastas vezes tiveste o sortilégio de alcançar, ressurgindo debilitado de corpo mas de alma sempre inquebrantável.

Sei que não estranhas só agora estar a escrever-te. É que deixei simplesmente que os dias fluíssem para tentar diluir na memória a mágoa da tua partida, convencido de que a ilusão dos sentidos é um refúgio conveniente quando não sabemos bem do que é feito o ténue véu que separa a vida da morte. O tempo é um enigma e a noção que temos da existência resume-se à percepção da transitoriedade entre os dois pontos distintos que assinalam o nascimento e a morte física. E como em boa verdade não sei se as coisas são mesmo assim tão lineares, resolvi escrever-te acreditando que algures me irás ler com o mesmo carinho com que nestes últimos anos fui acompanhando as tuas “storias mindelenses”. Digamos que é o consolo que resta à minha pobre criatura.

Foi por tua sugestão que comecei a escrever no Liberal, e isso reporta-se à data da criação do jornal, no qual começaste a publicar as tuas crónicas em crioulo sobre a nossa ilha. Recordas-te de me teres pedido um comentário aos teus escritos e de eu ter correspondido com um artigo? Isso terá acontecido em 2005, nos primórdios do Liberal, e o artigo intitulava-se “AS STORIAS MINDELENSES DE ZIZIM FIGUEIRA”. Logo de seguida, e já por minha própria iniciativa, escrevi outro artigo, intitulado “JON D’ALCANJA E ZIZIM FIGUEIRA, A CONJUGAÇÂO DE DUAS FORÇAS DA NATUREZA”.

Se me permites, como retrospectiva começo pelo segundo artigo, o qual rezava assim a dado passo do meu discurso:

“Cada uma destas figuras-forças da natureza tem a sua própria origem, marca de nascimento e percurso evolutivo, mas sem dúvida que são muito idênticas na simplicidade estrutural e na espontaneidade natural como acertam o seu ritmo vital com este pulsar cósmico que tudo comanda. Só quem não leu ainda as storias do Zizim Figueira (José Figueira Júnior) fica intrigado com estas palavras introdutórias, ignorando que Jon d’Alcanja é aquele mestre pescador de Calhau (S. Vicente), a figura central da crónica com o mesmo nome já publicada no Liberal.”

Pois fazia todo o sentido o que eu então disse, nha broda. Eras, sim, uma força da natureza, conforme bem o demonstraste na verdura dos teus anos, lavrando os mares do litoral da nossa ilha e mergulhando nos seus abismos. Embora menino de liceu espevitado, não tiveste pejonenhum em aprender com aquele homem calejado a arte de vencer ventos, marés e correntes, para cimentar uma prática desportiva fortalecedora do ânimo e do carácter. Se para Jon d’Alcanja o enfrentar a adversidade da natureza não era de modo algum um passatempo lúdico, mas apenas uma condição inalienável do seu ofício, para ti, Zizim, foi a oportunidade de converter o saber de experiência feito daquele homem de barba rija em lições de altíssimo proveito para toda uma vida. Aprendeste a respeitar a natureza e os seus limites e colheste no saber empírico do pescador importantes lições sobre a protecção do ecossistema, numa altura em que o assunto era pouco ventilado.

Acredito que essa mesma bravura com que enfrentaste a natureza serviu-te para lutar obstinadamente contra a doença que te consumiu, não lhe dando tréguas. Ou não tivesses alma de boxeur, como amiúde me confessavas, sem exibicionismo, porque de facto praticaste boxe amador.

Mas assim como aprendeste a lavrar as águas do mar, começaste há alguns anos a lavrar também a palavra escrita do crioulo da nossa ilha natal. E a arte de tentar domar a sua natureza virgeme desregrada serviu-te de veículo para abrires o reportório da tua rica memória sobre factos e figuras de outrora da nossa terra, sobretudo aqueles que se reportam à década de 1950 e princípios de 1960.Vá-se lá agora saber qual das intenções teve primazia ou antecipação sobre a outra, se a narrativa sobre o Mindelo de outrora ou se a vontade de dar o nosso crioulo à estampa. Mas creio que as duas se conjugaram numa feliz realização, de que colhe proveito o povo do Mindelo.

Conforme escrevi no primeiro dos artigos citados, as “tuas storias conseguem recriar com autenticidade retratos singulares do meio mindelense, dando vida ao homem típico e enredando-o, harmoniosa ou conflituosamente, na teia do quotidiano em que ele busca o sustento para si e para os seus, espairece o espírito em “paródias” de grupo ao som das cordas dum violão e em redor duma “bafa” de moreia e um cálice de grogue, ou em que simplesmente sobrevive altivamente no labirinto da sua existência. Ou seja, pintas-nos com mestria o quadro social em que o nosso conterrâneo vive, sonha, ama, diverte-se e dá largas à sua natureza mais sublime, ora ironizando e driblando a sorte madrasta, ora ousando rasgar com inconformismo o estreito horizonte em que se desenrolam os seus dias”.

O curioso é que, quando te iniciaste na tua escrita em crioulo, veio a público a saga da pretensão de criar-se, por via administrativa, um crioulo padrão (regido por um alfabeto – ALUPEC–e baseado unicamente no dialecto de Santiago) para a língua materna cabo-verdiana, procedimento que uma larga maioria de intelectuais, pessoas ligadas à cultura e cidadãos comuns rotulou de insensato e contrário à evolução natural de uma língua. Os defensores daquela solução pareciam ignorar que a imposição de um crioulo padrão,para mais concebido naquelas condições, às populações das nove ilhas habitadas de Cabo Verde, era o caminho aberto para a discórdia e o conflito. Pareciam fazer tábua rasa da verdade axiomática que subjaz à história das línguas humanas, segundo à qual um idioma não se impõe por súbita congeminação de um qualquer presumido e circunstancial iluminado, visto que é o produto de uma lenta e gradual evolução, com avanços, recuos e ajustamentos, em que os grandes fautores são as populações falantes e os criadores literários. As coordenadas mentais que regulam um processo desta natureza não podem, pois, partir de uma única pessoa ou grupo restrito de pessoas, mormente quando o padrão que se pretende impor não é reconhecido por uma larga maioria das populações. Insistir nesse desiderato é uma violência psicossociológica susceptívelde quebrar os liames da coesão nacional.

E é então que, com as tuas crónicas em crioulo mindelense, deixaste em carne viva, de forma natural e espontânea, o cerne do diferendo e o busílis da questão. É evidente que não foi teu propósito apresentar qualquer solução normativa para uma escrita uniformizada, emprestando-lhe um espartilho gramatical. De resto, não podias fazê-lo e ninguém te reconheceria autoridade para tal, porque não és linguista nem gramático. E se tivesses tido essa presunção estarias a cometer os mesmo erro dos “alupequistas”, que, por sinal, não se coibiram de te zurzir só por seres o que és. Mas não, limitaste-te a escrever espontaneamente e sem querer ensinar ou impingir o que quer que seja a alguém.Começaste algo errático e inconstante na expressão escrita e com o tempo foste aprimorando-a, uniformizando a sua morfologia, e de tal maneira que nos últimos tempos qualquer um te conseguia ler com toda a fluência, diferente dos primeiros tempos. Dir-se-á que deste o pontapé de saída a uma tarefa que outros terão de continuar. Oxalá apareçam mais lavradores da nossa palavra escrita.

Voltando às tuas crónicas sobre o nosso Mindelo antigo, foi para mim uma surpresa a fidelidade e a verosimilhança que colocaste nas tuas narrativas, prova de que nunca se diluíram no teu espírito as imagens do real que tiveste oportunidade de observar na tua infância e na tua juventude. Mais do que simplesmente observar, soubeste guardar, com uma atitude de compromisso artístico, as imagens colhidas, para no futuro as trabalhar, recriar literariamente e temperar com saber, imaginação e criatividade.

Mas, lamentavelmente, não conseguiste compilar e publicar em livro as tuas crónicas, que devem exceder mais de uma centena. Sei que houve diligências nesse sentido, mas algo que eu ignoro impediu-te de lançar o livro da tua vida, que é também o livro do povo do Mindelo. Estou convencido de que a tua família não deixará que os teus créditos fiquem no anonimato ou ao sabor de qualquer circunstância espúria. Os teus amigos e o povo do Mindelo exigem a publicação do livro das “storias mindelenses”.

E é tudo o que tinha para te dizer, nha broda. Até sempre!

 

Algarve, 10 de Agosto de 2012

Adriano Miranda Lima

  1. Dje Guebara

    Sempre ao fim do tunel haverà uma luz e esta luz ès tu,Adriano ao recordar do nosso imortal e amigo do povo que foi Zizim de Ti Djô Figuera.Quanto estranhamos a partida do nosso querido Zizim que nos domingos trazia-nos as estorias do nosso querido Soncente.E tu eres um amigo de verdade pois aqui vai o meu apoio.(Um amigo è aquel que conhece a canção do teu coração, e que pode cantar-lo cuando tu jà não estàs.) Descança em paz Zizim.
    Djê Guebara Lake Worth FL.U.S.A.

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