E se de repente a luta pela Casa Branca fosse travada por duas mulheres?

5/10/2015 08:26 - Modificado em 5/10/2015 08:26
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carlyDepois de o rolo compressor chamado Donald Trump ter começado a perder um pouco de energia, as televisões e os jornais norte-americanos viraram as atenções para a única mulher que está na corrida à Casa Branca em nome do Partido Republicano. Carly Fiorina, ex-presidente executiva da gigante Hewlett-Packard, tem subido como um foguete nas sondagens, e aproveita agora aquele momento em que um candidato se torna na maior promessa até desaparecer para dar lugar à próxima.

Quando anunciou a sua candidatura, em Maio, Fiorina já tinha desaparecido há muito dos radares dos cidadãos norte-americanos, mas em apenas quatro meses voltou a levantar voo, graças a uma combinação de tenacidade pessoal e confusão generalizada na lista de candidatos à nomeação pelo Partido Republicano – a corrida, que chegou a ter 17 nomes e já registou duas desistências, tem facilitado a tarefa de quem agarra com as duas mãos cada oportunidade que os debates televisivos proporcionam.

No caso do Partido Republicano já houve dois debates, ambos com transmissão nacional – o primeiro na noite de 6 de Agosto, transmitido pela Fox News, e o segundo na noite de 16 de Setembro, cortesia da CNN.

A ascensão de Carly Fiorina foi tal que, em Agosto, a sua posição nas sondagens não lhe permitiu mais do que debater ideias com os outros seis candidatos menos populares, numa espécie de sessão de aquecimento para os 11 tubarões que ocuparam o horário nobre. Mas Fiorina conseguiu destacar-se nesse primeiro debate – que ficou conhecido como a “mesa das crianças” –, e a consequente subida nas sondagens deu-lhe um bilhete para o debate principal, em Setembro, desta vez na CNN.

“Conquistei o direito de subir ao palco principal”, Carly Fiorina na edição de 21 de Setembro do programa The Tonight Show, do apresentador Jimmy Fallon. “Quando lancei a minha candidatura, mais de 90% das pessoas nunca tinham ouvido falar no meu nome. Tive de trabalhar muito para me dar a conhecer. Esse debate [na Fox News] proporcionou-me a primeira oportunidade.”

A segunda oportunidade chegou no mês passado, quando Fiorina brilhou no debate principal da CNN, no meio de pesos-pesados muito mais conhecidos do grande público – Jeb Bush pelo seu apelido, Marco Rubio por ter sido em tempos o príncipe do movimento Tea Party, e Donald Trump por ser Donald Trump.

Por essa altura, a próxima grande sensação da corrida no Partido Republicano era Ben Carson, um antigo neurocirurgião que também tinha saído do fundo das sondagens a pulso, com uma visão do mundo que agrada aos mais conservadores e com uma postura serena que contrasta com o espalhafato de Donald Trump.

Chegados a finais de Setembro, o magnata do imobiliário e estrela da televisão continua a liderar as sondagens a nível nacional – é ainda o preferido entre os eleitores do Partido Republicano para os representar na corrida contra o candidato do Partido Democrata, mas os seus números já viram melhores dias, e lançaram-se numa daquelas descidas muito característica das montanhas-russas que são as sondagens sobre uma eleição que só vai ser decidida no próximo ano. Segundo a média das últimas sondagens, Trump recolhe 23,3% das intenções de voto, depois de ter chegado aos 30,5% há apenas duas semanas, e Carly Fiorina subiu de 3,3% para 11,6% no mesmo período. Entre eles está ainda Ben Carson, mas numa trajectória descendente – tinha 20% no dia 19 de Setembro e 16,3% a meio da semana passada. Para quem ainda se lembra do antigo favorito e quase certo vencedor Jeb Bush, fica a nota: tem 9,2% na média das sondagens mais recentes e não consegue chegar aos dois dígitos desde finais de Agosto.

Entre a verdade e mentira
O problema de Carly Fiorina é semelhante ao de muitos outros candidatos que correm por fora, sem o apoio da base do seu partido, como Ben Carson e o próprio Donald Trump: quando os holofotes se viram para eles, têm mais dificuldades para lidar com o escrutínio dos media, e acabam por ser vencidos mais cedo ou mais tarde – ou pelo cansaço, ou pela falta de dinheiro para alimentar uma longa campanha que exige uma presença constante nas televisões e viagens por quase todo o território dos Estados Unidos.

Mas se o dinheiro e a experiência de Donald Trump no mundo do espectáculo lhe dá mais armas para se manter no topo durante mais tempo – com o seu discurso popular contra tudo o que considera ser politicamente correcto –, já Carly Fiorina deverá ter mais dificuldades. E não é preciso ser-se arqueólogo para desenterrar exemplos comprometedores no passado da candidata.

Fiorina apresenta-se aos eleitores norte-americanos como uma mulher pronta para liderar a maior potência mundial porque provou ser capaz de vencer no exigente mundo das grandes empresas, depois de ter começado como secretária no ramo imobiliário. Sempre que fala sobre esse trajecto – ou seja, sempre que aparece em público, em comícios ou na televisão –, pinta o cenário como um exemplo do chamado “sonho americano”, deixando a ideia de que superou os enormes obstáculos de uma vida modesta.

“Comecei como secretária, a escrever e a arquivar numa empresa imobiliária com nove funcionários. Só mesmo neste país é possível passar de secretária a presidente executiva da maior empresa de tecnologia em todo o mundo, e ser candidata a Presidente dos Estados Unidos. Isto só é possível aqui”, Fiorina, há menos de duas semanas, no Tonight Show, numa declaração muito aplaudida pela audiência.

O problema é que a sua história, não sendo mentira, também não é propriamente verdade. Nascida no dia 6 de Setembro de 1954 em Austin, no Texas, Carly Fiorina é filha de Madelon Montross Juergens, uma artista que se dedicou à pintura abstracta, e Joseph Sneed, um homem que teve uma carreira dificilmente associável a uma vida com dificuldades financeiras: foi professor de Direito nas prestigiadas universidades de Stanford, Cornell e Yale; reitor da Faculdade de Direito da Universidade Duke; procurador-geral adjunto nomeado pelo Presidente Richard Nixon; e juiz de um tribunal federal de recurso em São Francisco.

Numa prova dos factos publicada há pouco mais de uma semana, oWashington Post atribuiu a Carly Fiorina três narizes de Pinóquio (de zero a cinco), indicando que a história do “sonho americano” tem “significativos erros factuais e/ou contradições óbvias”, com declarações “tecnicamente correctas mas tiradas de contexto ao ponto de serem enganadoras” – em suma, Carly Fiorina foi secretária, e até trabalhou como recepcionista num salão de cabeleireira enquanto se licenciava em Stanford, mas essa verdade foi em grande parte motivada pelo “forte sentido de ética do trabalho” do seu pai.

Mais controverso ainda é o auto-elogio aos quase seis anos em que liderou a Hewlett-Packard, cujo ponto alto foi a aquisição da moribunda Compaq,anunciada em 2001, por quase 25 mil milhões de dólares (mais de 22 mil milhões de euros à cotação actual). A gestão de Fiorina terminou em Fevereiro de 2005, afastada da presidência pelo conselho de administração por unanimidade. Nesse dia, as acções da Hewlett-Packard subiram 7%.

No debate transmitido pela CNN, em Setembro, Donald Trump acusou Fiorina de ter protagonizado uma das piores lideranças de sempre, citando a opinião de Jeffrey Sonnenfeld, professor de Gestão na Universidade de Yale e especialista em liderança de empresas.

Num texto publicado no site do jornal Politico, no dia 20 de Setembro, Jeffrey Sonnenfeld não só confirmou que a sua avaliação das capacidades de liderança de Fiorina é má, como acrescentou algumas frases mais contundentes.

“Agora, Fiorina quer liderar o país. Eu acredito em segundas oportunidades. Só porque Fiorina falhou numa anterior carreira, isso não significa que não poderá vir a ser uma boa líder. Mas, tendo eu escrito um livro sobre como grandes líderes regressaram após desastres nas suas carreiras, sei que para ultrapassar falhanços é preciso admiti-los e aprender com eles. Durante o debate, em vez de comentar os factos e as minhas observações profissionais, Fiorina decidiu matar o mensageiro. O que ela não percebeu é que esse comportamento – contornar a sua responsabilidade e recorrer à demagogia – é precisamente a razão de ter falhado como líder da primeira vez”, criticou Sonnenfeld.

Nova líder do movimento antiaborto
Como se estes dois temas não fossem suficientes para lhe dar trabalho numa hipotética campanha nacional contra o candidato do Partido Democrata, Carly Fiorina tem também insistido em combater os seus críticos e a generalidade dos media sobre uma polémica relacionada com o aborto.

Durante o debate na CNN, Fiorina a organização Planned Parenthood(que promove a saúde reprodutiva) de provocar abortos de “fetos completamente formados, com o coração a bater, com as pernas a mexer, enquanto alguém diz que têm de o manter vivo para lhe recolher o cérebro”. A candidata referia-se a um dos vídeos gravados por uma organização antiaborto que tem tentado provar que a Planned Parenthood lucra com aquele tipo de procedimentos.

Segundo vários médicos, como Jen Gunter, especialista em obstetrícia e ginecologia e autora de um livro sobre bebés prematuros, as imagens são de um aborto espontâneo, de um feto com 17 ou 18 semanas, e não há nenhuma indicação de que tenham sido gravadas em instalações da Planned Parenthood. O que o vídeo em causa mostra é um aborto provocado ou um aborto espontâneo (não há unanimidade neste aspecto), sem áudio, e inserido durante o testemunho de uma antiga técnica de uma empresa de biotecnologia que diz ter participado no aborto de um feto viável.

Depois do Obamacare, a principal arma de arremesso da ala mais conservadora do Partido Republicano contra a Administração Obama tem sido a actividade da Planned Parenthood, uma organização sem fins lucrativos que fornece serviços de saúde reprodutiva (da contracepção a testes de detecção de doenças sexualmente transmissíveis ou vários tipos de cancro) a milhões de mulheres nos EUA desde a década de 1920 – e que é financiada parcialmente pelo governo federal. Este financiamento não pode ser usado para a prática de abortos, mas os críticos da organização argumentam que as verbas federais permitem que a Planned Parenthood fique com mais saúde financeira para continuar a praticar abortos, e por isso exigem que esse apoio federal seja cortado.

Confrontada no programa Meet the Press, da NBC, com o facto de a cena descrita durante o debate na CNN pura e simplesmente não existir, Fiorina voltou a revelar uma das suas principais armas – aquilo que o Washington Post descreveu como a capacidade de produzir declarações “tecnicamente correctas mas tiradas de contexto ao ponto de serem enganadoras” –, que pode ser valiosa durante as primárias do Partido Republicano, mas que pode também transformar-se num tiro no pé se chegar à campanha nacional.

“Está disposta a admitir que exagerou ao descrever aquela cena”, pergunta o moderador Chuck Todd. “Não, de forma nenhuma”, responde Fiorina: “Aquela cena existe mesmo, e aquela voz que está a dizer o que eu citei [no debate] também existe.”

publico.pt

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