Na esteira de Onésimo

8/08/2012 02:24 - Modificado em 10/08/2012 23:57

 Importante contributo para a reflexão sobre a substância e as inclinações, naturais ou impostas, da nossa jovem democracia, os textos de Onésimo Silveira merecem ser comentados  com seriedade intelectual e sentido de responsabilidade cívica.  São preciosos demais para não se curar de uma atitude elevada na abordagem crítica que se nos impõe como cidadãos empenhados em querer dialogar sobre o melhor para a nossa terra. Não vale estar a enfocar sistematicamente o percurso político pessoal do autor para, à partida e arbitrariamente, pretender, com isso, duvidar dos seus intentos ou menosprezar o valor e o impacte do seu discurso. Nenhum político de carreira está isento de erros de cálculo ou oscilações de critério na congeminação da sua trajectória pessoal ou de grupo. A História é que o diz.

O Onésimo Silveira afirma, e bem, que “a força da democracia cabo-verdiana é tributária mais da sua ancestralidade do que da sua modernidade. Aquela lhe confere uma praxis cultural, enquanto esta lhe dá uma ossatura constitucional e institucional.”

Verdade pura e indesmentível. E esta verdade vejo-a plasmada em dois exemplos que a seguir menciono e em que se há algo que os diferencia é a dimensão material e social da sua implicação, não a natureza da sua “ancestralidade”, ou seja, a ética e a essência da sua humanidade.

No mês passado, ao transitar pela antiga Rua do Telégrafo, presenciei uma cena digna de recorte. Uma pessoa de aparência muito, mas muito, modesta meteu a mão ao bolso e deu uma esmola a uma velhinha pedinte, sentada no passeio. Pareceu-me que muito pouco separaria as duas criaturas em matéria de recursos. Essa pessoa deu certamente o que lhe fazia falta.

Outro exemplo: Nos princípios do século passado, o Senador Vera Cruz abdicou do conforto da sua residência (antigo Grémio) para nela se instalar provisoriamente o antigo liceu de S. Vicente, na altura ameaçado de extinção pelo governo de Lisboa. Foi morar para uma residência bem mais modesta, com todo o transtorno que isso acarretaria para a sua família.

Ora, os exemplos mencionados extremam-se na amplificação social da sua importância mas não no seu simbolismo. São um espelho dessa nossa “ancestralidade” a que se refere o Silveira, e exemplos não faltariam para a ilustrar no seu “estado de natureza”, usando a expressão epistemológica de John Locke. Essa “ancestralidade” é anterior a qualquer moldura institucional que se possa dar à nossa democracia, por mais que a burilemos em termos jurídico-formais sob os auspícios da “modernidade”. Por certo que essa “ancestralidade” sobreviverá a todo o figurino constitucional que a nossa democracia possa vir a revestir nos tempos mais próximos ou no futuro mais distante.

Silveira diz, e com razão, como corolário do seu discurso: “O medo está de volta em São Vicente: medo como antigamente, medo de perder o emprego, medo de não conseguir um emprego, medo do Estado todo poderoso. Medo que conduz ao silêncio…”

Mas não quero crer que esse medo seja culpa a imputar exclusivamente à actual força política em exercício de poder. É provável que outro fosse o partido do governo, o inventário de sintomas e queixas em tudo se equipararia, talvez diferenciando-se  apenas na localização geográfica ou sociológica dos seus emissários. Sim, porque o problema é mais de regime, tem a ver com a concepção que foi dada ao Estado. O regime concentrou todo o Estado, mas todo o Estado cabo-verdiano, numa única ilha e nela foi, ao longo dos anos, entretecendo a malha dos vícios e disfunções orgânicas e psicológicas que hoje denunciamos e acreditamos só serem passíveis de correcção mediante uma judiciosa reforma político-administrativa, a qual passa necessariamente pela regionalização do país.

Um dos aspectos cruciais daquelas disfunções é a tendência fundamentalista que Silveira vem denunciando e que impertinentemente parece querer interferir com a essência da nossa cultura como povo, precisamente onde radica o somatório complexo dos seus traços identitários, fonte da única legitimidade natural que podemos imprimir à nossa democracia e aos nossos sentimentos e sonhos colectivos. A extensão geográfica e o circunstancialismo demográfico local não podem, por si só, determinar o sentido unívoco de uma política cultural, esquecendo ela toda uma fragmentação arquipelágica que consagra singularidades próprias, algumas delas até contendo as formas de expressividade mais maioritariamente cultivadas e divulgadas (a crioulidade). E mais ainda não se pode esquecer que a crioulidade lançou âncoras pelo mundo fora, mantendo as suas raízes mas enriquecendo-se, sem se desvirtuar, no convívio com outros valores e outras culturas. Isto é prova de que a crioulidade não pode ser ponto de chegada com refúgio definitivo num círculo fechado e concebido à estreita medida do pensamento desta ou daquela figura que temporariamente exerce o poder tutelar na área da cultura. Pelo contrário, a crioulidade é, pela sua mais profunda natureza criativa, ponto de partida e braço aberto para metamorfoses e aglutinações que é arriscado calcular onde e como acabam. É a dinâmica imparável das miscigenações culturais, processo em que o nosso povo tem cartas a dar e demonstra uma invejável vitalidade. Por conseguinte, conceber a cultura cabo-verdiana cristalizada densamente na ancestralidade africana é um erro crasso em que só pode incorrer uma visão esquizofrénica da realidade ou o compromisso espúrio com a intromissão do Estado em áreas onde só podem medrar as tendências e os impulsos naturais das sociedades. O Estado não pode moldar comportamentos culturais ou desviar artificialmente (ou artificiosamente) o seu curso natural. O Estado deve, isso sim, atribuir os meios possíveis, criar incentivos e estimular a criatividade natural dos povos, velando pela salvaguarda de todos os patrimónios que consubstanciam a memória, a identidade e a cultura, em vez de tomar partido de forma mais ou menos coerciva ou encapotada.

É por isso que Silveira afirma, e de novo com acerto: “Na sua globalidade, a intervenção pública, desde a independência à actualidade, nunca se mostrou capaz de encontrar uma solução para a situação de desenvolvimento da nossa cultura. Muito pelo contrário, tem tido frequentemente um papel fulcral e funcional para a manutenção do seu status quo. Tudo indica, pois, que o Estado é incapaz de funcionar para inverter a lógica do subdesenvolvimento cultural. As casas de cultura e um ministro fundamentalista com a viola às costas é folclore, que nada tem a ver com o desenvolvimento cultural, que não se compagina com a mediocridade e a falta de visão.”

De facto, ou o Estado quer mexer no ADN da cultura ou o ministro da tutela se movimenta  como elefante em loja de porcelana.

E com isto termino.

Tomar, 7 de Agosto de 2012

Adriano Miranda Lima

 

  1. Loje

    Esta luta por um Cabo Verde democrático diverso em que se aceitam as diferenças, é uma luta de ‘long haleine’, pelo que temos que manter a chama do debate de ideias sempre aceso, tendo como meta a Regionalização de Cabo Verde o Pluralismo e a Democratização de Cabo Verde e por fim um outro modelo de desenvolvimento deste Arquipélago. Apesar dos seus erros cometidos ao longo da sua vida política, que o levaram quase a falência política, é preciso reconhecer os talentos do Onésimo como um grande intelectual/pensador, e um político com 7 vidas. Nenhuma solução para S. Vicente e para o Norte pode ser obtida pelas costas do Onésimo. Todavia OS tem que pereceber que não pode prescindir da Diáspora, pois temos funcionado ultimamente como uma autêntica reserva moral e de ideias face ao desvario que está a acontecer na nossa terra. Nenhum mindelense,’ nascid o criad’ que sente o pulsar daquela ilha e que já conheceu Mindelo pujante não pode ficar indiferente à decadência de S. Vicente e aos castigos de JMN pelo simples facto desta ilha votar sempre na oposição, situação que, de resto, acontece desde os tempos do Paigc. Carlos Veiga já teve também a amarga experiência de tentar um braço de ferro com a ilha. Mindelo pode sofrer mas nunca verga debaixo dos tiranos. Ela é uma ilha irreverente e digna, não obstante dos índices preocupantes da sua decadência moral.

  2. Sim senhor caro Miranda Lima. Se leres a minha reacção ao artigo do Onésimo darás conta da satisfação em te ler. Realmente é necessário que os que sentem os problemas com mais dor no coração se manifestem para levar os acanhados e medrosos a lançarem-se sem medo na defesa das ilhas e a GRITAR ALTO QUE O REI VAI NU EM PELOTA e de costas voltadas para S. Vicente, como se esta ilha tivesse cometido pecado mortal devendo penar, quando ajudou sem egoismos o país no seu tempo de canecadinha..

  3. Município de Santa M

    Em Defesa da Cratera da Pedra de Lume,
    património mundial e pretence do povo salandês!

    Não há inimigo pequeno, nem forca desdenhável, porquê já não há ilhas, nem povo isolado, em Cabo Verde. Como estabelece a segunda declaração da Cidade
    e Município de Santa Maria, nenhum povo ou ilha de Cabo Verde é débil, porque forma parte de uma família arquipélega de dêz ilhas habitadas e somos cerca de 2.000.000 de possoas, de irmãs e irmãos, contando com as ilhas de Cabo Verde e diásporas. Somos dêz ilhas que padecem as mesmas misérias, a mesma opressão, o mesmo colonialismo, a mesma exploração, alberguem os mesmos sentimentos, têm o mesmo inimigo, sonham todos o mesmo sonho, melhor destino e contam som a solidariedade de todos os homens e mulheres honrados do mundo. Esta epopeia, que temos à frente, será escrita pelas massas com fomes, jovens desempregados, camponeses sem terra, empregadas domésticas, pescadores, trabalhadores e escravos de Santo Antão a Brava, os explorados, esta epopeia será escrita pelas massas progressitas, proletariados, pelos intelectuales honestos e brilhantes, que tanto abundam, em Cabo Verde e no mundo, por aqueles que foram obrigados a deixar as nossas sofridas, ilhas, vilas, povoacões e municípios colonizados e explorados pelo Estado Colonial da Praia e República de Santiago. Esta é uma luta de massas e de idéias. Esta epopeia que levará em frente os nossos povos e as nossas ilhas, maltratados, sem justiça e despreciados pelo estado e governo colonial, comunista-fascista, terrorista, policial e de carácter imperialista e, liberalismo selvagem.
    Os nossos povos e os seus direitos, até hoje, desconhecidos, começa a tirar-los o sono. O Paicv e MpD, como o governo e estado colonial da Praia, nos consideravam rebanhos impotentes e submissos, mas, já começaram a sentir medo e assustados, deste rebanho. Rebanho gigante de 2.000.000 pessoas, dos povos das Ilhas de Cabo Verde e diáspora, que advertem já as suas supurações de fraudes, corrupção, nepotismo, compras de consciências, colonialismo e exploração das ilhas de Cabo Verde (vascas leiteiras e escravas), para construção da Capital de Santiago, Praia mamão e os seus sepultureiros já se preparam, para enterrar os nossos colonos da Praia e Mindelo. Agora e na hora das reividicações dos povos destas Ilhas de Cabo Verde, momento por eles mesmos eligido (e não pelo poder colonial e central), com precisão de um extremo a outro no arquipélago e diáspora. Agora essa massa anónima, estas Ilhas de Cabo Verde, de côres diferentes, tornadas de sombras sentidas e cantam com a mesma tristeza e desengano. Agora essa massa, que se começa a entrar definitivamente na sua própria história, e não na história de Santiago. Ela escreve a sua história com o seu próprio sangue e suor. Ela começa a sofrer e a morrer, pelos os seus direitos. Porque agora, pelas ilhas, campos e montranhas de Cabo Verde, nos vales das suas serras, nas suas rebeiras, cheias e suas selvas, nas suas praias, nas esquinas, nos trabalhos, nas escolas e universidades, nos caminhos e estradas, nos seus mares e horizontes imensos, nas suas ilhas diasporisadas, nos barcos com tripulacão caboverdeana, nas suas cidades, vilas e aldeias, se começa a fazer estremecer este mundo grande, cheio de corações, com punhos quentes de desejos de morrer pelos seus, na conquistar dos seus direitos, depois de quinhentos anos burlados, por uns e por outros. Agora sim, a história de Cabo Verde, de Africa, Europa e Mundo inteiro terá de contar com “a história de todas as Ilhas de Cabo Verde” (e não somente de Santiago), com os explorados e depenicados de Cabo Verde, que decidiram a escrever por eles mesmos e para sempre, a sua própria história. Já se os vê pelos caminhos a pé a marchar, dias e dias, quilómetros e quilómetros, ondas de gente contra os olimpicos dos governantes para rabatar os seus direitos. Já se os vê armados de pedras de fogo, de paus, de machetes, de fuzís, de um lado e outro, diáriamente, ocupando as terras, afincando os seus fargos nas suas terras i ilhas, que lhes pertencem e defendendo-as com a sua vida. Se os vê levando os seus cartazes, as suas bandeiras regionais, das suas próprias ilhas e consignas, constituindo um mar de gente, movendo como vento entre as montanhas, cidades, vilas, povoacões, localidades, ribeiras e cheias ilhanas de Cabo Verde. Agora estremecidos pelo rancor de justiça reclamada, de direitos pisoteados e rejeitados, e essa onda de fogo de liberdade, que já se começou pelas Ilhas de Cabo Verde, não parará jamais. Essa onda crescerá cada dia que passa, porque essa onda, se forma pelos mais pobres e explorados, a maioria em todos os aspectos. Os que acomulam com os seus trabalhos as riquezas, criam os valores, fazem andar as rodas da história e que agora desperta do sono profundo e embrutecedor, que lhes foram submetidos.

    Avante meu povo, que os triunfos custam sacrifícios!

    Viva a Cratera de Pedra de Lume, património mundial e pretence do povo salandês!
    Viva o Município de Santa Maria!

    Força da Resistência do Sal (FRS),
    Cidade e Município de Santa Maria – Salândia,
    Contacto: pidis_sal@yahoo.com,
    Facebook: Partido para a Independência e Desenvolvimento da Ilha do Sal (Pidis)

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