Unanimidade vs. Unanimismo

7/05/2015 07:47 - Modificado em 7/05/2015 18:54
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Hermano Lopes da Silva«O problema de mentir é que isso vai depender de o mentiroso ter uma clara noção da verdade a ser escondida. Nesse sentido, a verdade, mesmo aquela que não aparece em público, tem uma primazia sobre toda falsidade.» Hannah Arendt

Salvaguardando o devido e sincero respeito que hão-de nos merecer os deputados – pois, a generalização é, quase sempre, um erro – não houve unanimidade, como se disse, e sim unanimismo ou algo muito próximo disso. Unanimidade pressupõe uma coincidência de raciocínios, baseada na razão livre e consciente; razão que vem da inteligência, definida por Olavo de Carvalho como sendo a «potência de conhecer a verdade por qualquer meio que seja», a que distingue o ser humano dos outros animais, também, portadores de inteligência. Hitler era inteligente, no entanto, a sua incapacidade de chegar à bondade e à verdade, pelo menos àquela que interessa à humanidade, fê-lo distanciar-se zero de um felino, de um “verme”- este nem inteligência tem. O unanimismo traz esse consenso baseado numa razão bojuda, alimentada pela “fome” e ganância instintivas, e, não pelo jogo mental estribado no bom senso, na coerência, na ética e respeito pela dignidade da pessoa humana, esta indissociável da realidade específica – a nossa. Não iria tão longe quanto o escritor Nelson Rodrigues, afirmando: «toda a unanimidade é burra! Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar»; assim, estaria eu, como dissera o outro, a afirmar que «esta frase funciona como uma armadilha e ironia, pois, no momento em que todos chegassem a concordar que toda a unanimidade é burra ficaria comprovado de que toda a unanimidade é burra». Não! Não vou por aí. Porém, fica-nos a sensação de que se perguntássemos a cada um dos deputados, em separado, com quais das inteligências, ou das razões, fez fé para validar o Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos, com um polígrafo à frente (e não carece da Máquina TAY 43), chegaríamos à bojuda. Para quem não sabe, polígrafo é um detector de mentiras; e a Máquina TAY 43? Bem! Dispensa apresentações.

O cabo-verdiano é deveras sui generis na sua existencialidade, reinventa-se reinventando. Vejamos: das «cabras que nos ensinaram a comer pedras para não perecermos» reinventamos um sistema bi-partidário formado pela coligação UCID-MPD-PAICV e um partido de oposição – POVO. Esta coligação menospreza as manifestações populares, vota sim contra o pulsar emotivo do povo, simula demitir-se caso o chefe da Nação não validar aposentações almejadas, esboça limitar a liberdade de expressão mesmo suspeitando que «a verdade é encontrada quando os homens são livres para procurá-la» – dizia Roosevelt.

Não houve aumento de 65%, antes reajuste, diz um dos responsáveis da coligação. Mas os outros também não querem aumentos! Apenas reajustes, diz o POVO. Quem disse que a classe política, pelo menos com o perfil ético-moral da que temos, é mais importante que as outras classes? Imaginemos uma greve (sem fura-greves) dos deputados, comparada com a dos médicos, dos polícias, dos professores, etc. O respeito é uma conquista – vem com o tempo de permanência na dignidade. Políticos, há-os honestos, sem dúvida, mas qual é a percentagem dessa espécie rara? Pitágoras dizia, «respeita a ti mesmo e terás um caráter nobre».

Os deputados tresleram o espirito da lei emanado do Povo e, levados pela razão que a própria razão encefálica desconhece, conseguiram a pontaria do (in)oportuno, quiçá, no mais (in)oportuno dos momentos vividos nas últimas décadas do pós-independência. Como disse o outro: «verdade não existe, a mentira útil é a verdade»; será?

Quem governa afinal? Quem faz oposição? Quem diz a verdade/mentira-útil? De que lado ficamos: dos “populistas” (hipocrisias & maquiavelismos) ou dos impopulares (despotismos & incoerências)? Quem é quem nesta luta fratricida? Que dizer desse permanente e nauseabundo cheiro a campanha, divertindo-se com a inteligência do povo. Será que este povo tem os partidos que merece? E os políticos também?

E se começássemos a fazer um exercício de discriminação qualitativa dos senhores de acordo com o mérito?! Qual é o salário justo para os deputados e os outros? Não! A pergunta justa é, qual deverá ser o salário justo para cada um dos deputados, e, assim chegaríamos à conclusão de que este deve auferir 50, aquele 144 e aqueloutro 250. Nunca pagar hoje e aguardar que a classe melhore amanhã. Obiang mais a sua Guiné Equatorial entraram para a CPLP com o compromisso de eliminar as atrocidades; até hoje, nada. O Ministro/artista disse (recriando com arte) que na cultura «é crer para ver», mas com esses meninos a experiência manda acautelar-se no «ver para crer». Um anónimo ironiza: “com o salário que o gestor do programa Luta-contra-pobreza aufere este deveria ser, antes, designado de Luta-contra-pobre”.

Quem quer auferir salário chorudo, sobretudo, num país que sobrevive de ajudas externas deve sair do sistema, criar sua empresa e justificar com a sua criatividade e capacidade empreendedora os milhões amealhados; a política e o Estado não devem gerar novos-ricos e muito menos arrogâncias endémicas. A política é nobre, o contrário é pobre. «Luxo pago com dinheiro do contribuinte é imoral» – Göran Lambertz, Juiz da Suprema Corte da Suécia. Haverá cabo-verdiano inteligente, sério e não portador de deficiência, que discorde de  Göran? Não; no entanto, neste preciso instante não duvido que pelo menos um leitor se revê nesse luxo/lixo.

Nos EUA, e noutros países evoluídos, ricos são o(s) Bill(s) Gates e não o(s) Bill(s) Clinton(s) – esta classe é “Clean”; a política alberga os nobres, não é o santuário da ganância. Já temos gestores públicos, e de empresas “falidas”, com salários cobiçados pelos doadores da nossa própria sobrevivência. Módi…?!   

  1. P.S.:

I have a dream” vs. Eu tive um pesadelo

Há, no ar, uma diabólica sensação, cada vez mais real, da existência de duas vias para se enriquecer em Cabo Verde: a da Política e a da Ilícita; qual conspiração divina contra a pátria de Eugénio Tavares e Paulino Vieira.

O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente /…Fernando Pessoa

Com a permissão de Pessoa, faço a seguinte analogia (sublinhado meu): O político é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é verdade / A mentira que deveras conta /   

Não são todos assim, como é evidente; aliás, meu profundo respeito pela “desgraçada” minoria.

15-04-2015

Hermano Lopes da Silva

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