África do Sul a braços com nova onda de violência contra imigrantes

17/04/2015 09:31 - Modificado em 17/04/2015 09:31
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África do SulPelo menos quatro mortos e milhares de pessoas refugiadas em acampamento improvisados. Presidente Jacob Zuma diz que os ataques “violam todos os valores que a África do Sul defende”.

Alex Marcus nasceu há 24 anos na Etiópia, mas foi na África do Sul que encontrou uma oportunidade para escapar à pobreza extrema. O irmão, Tescma, dois anos mais novo, juntou-se a ele há quatro meses, para ajudar a gerir uma pequena loja de conveniência instalada num contentor nos arredores da cidade portuária de Durban, onde nas últimas semanas se têm multiplicado os ataques contra imigrantes. Alex e Tescma são agora duas dessas vítimas.

Na sexta-feira passada, os dois irmãos foram atacados por um grupo de sul-africanos, que pegaram fogo ao contentor com eles lá dentro. Tescma ainda foi levado para o hospital com vida, mas morreu pouco depois, com queimaduras de 3.º grau; ainda sem saber da morte do irmão, Alex descreveu ao jornal sul-africano The Times o inferno por que ambos tinham passado: “Chorei dentro do contentor enquanto estava a ser queimado. Ficámos lá fechados durante quase uma hora. O meu corpo ainda está a arder.”

Nas últimas três semanas foram mortas pelo menos quatro pessoas na região de Durban, em casos directamente relacionados com violência contra imigrantes de outros países africanos e asiáticos.

Temendo a repetição da onda de violência de 2008, que fez pelo menos 62 mortos, o Presidente Jacob Zuma foi nesta quinta-feira ao Parlamento condenar os ataques das últimas semanas, que ameaçam alastrar-se a Joanesburgo.

“Nenhum grau de frustração ou de fúria justifica estes ataques”, disse Zuma, dirigindo-se aos sul-africanos que acusam os imigrantes de estarem a contribuir para o aumento do desemprego no país – as estimativas da Organização Mundial do Trabalho para 2015 apontam para 25% no total e 52,5% entre os mais jovens, o que equivale à 8.ª maior taxa de desemprego em todo o mundo.

O Presidente da África do Sul condenou “da forma mais vigorosa possível” os ataques contra pessoas que nasceram noutros países, e que podem ou não ter adquirido a nacionalidade sul-africana, afirmando que “violam todos os valores que a África do Sul defende” – o país que se libertou do apartheid há duas décadas, frisou Zuma, rejeita “o racismo, a xenofobia, a homofobia e o sexismo”.

Ainda assim, o Presidente sul-africano sublinhou que é preciso discutir e contrariar a percepção de que os imigrantes representam uma ameaça, com o anúncio de um reforço do controlo nas fronteiras. Muitos deles estão no país de forma legal, e outros são refugiados, “em fuga de conflitos ou de guerras”, à imagem do que muitos sul-africanos fizeram durante o apartheid.

Também a presidente da Comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini-Zuma (ex-mulher do Presidente Jacob Zuma), condenou o clima de hostilidade contra os imigrantes. “Os desafios da África do Sul, a pobreza e o desemprego, são desafios de todos os países do continente, e nós temos de trabalhar em conjunto para combatê-los e para construir um futuro melhor para todos os africanos”, disse a responsável pelo órgão executivo da União Africana.

Manifestações contra e a favor
Quase ao mesmo tempo que Jacob Zuma discursava perante os deputados do país, a sua mulher, Thobeka Madiba-Zuma, marcava presença numa manifestação contra a xenofobia em Durban, que contou com “centenas de pessoas”, segundo o relato da agência Reuters, ou com “cerca de 10.000”, de acordo com o jornal sul-africano The Times.

Mas, num sinal de que o barril de pólvora pode explodir a qualquer momento, durante a marcha contra a xenofobia registaram-se novos confrontos entre cidadãos nascidos na África do Sul e naturais de outros países, segundo a agência Reuters.

Mais a Norte, em Joanesburgo, muitos comerciantes fecharam as suas lojas, com receio de que a violência chegasse à cidade, a maior da África do Sul. Afinal, foi aqui que começaram os motins de Maio de 2008 contra imigrantes de Moçambique, Zimbabwe e Malawi, que se alastraram depois a outras cidades.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, veio já condenar os “actos de xenofobia no país irmão”, dizendo que acompanha o clima de tensão “com grande preocupação e angústia”.

“Perante as vítimas e as suas respectivas famílias no país quero manifestar a determinação do meu Governo de tudo fazer para mitigar o sofrimento desses nossos irmãos, prestando toda assistência necessária”, disse Filipe Nyusi, citado pela Agência de Informação de Moçambique.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, Oldemiro Baloi, disse à mesma agência que pelo menos 100 moçambicanos já fizeram saber que pretendem regressar ao país – outras centenas de moçambicanos, e imigrantes de outras nacionalidades, refugiaram-se nos últimos dias em acampamentos improvisados na região de Durban.

Os receios dos comerciantes (a maioria cidadãos nascidos em outros países, principalmente de África e da Ásia) foram agravados com o envio de uma mensagem ameaçadora por telemóvel, segundo a agência Reuters: “Os zulus estão a caminho da cidade… para matar todos os estrangeiros que encontrarem nas ruas.”

A violência que temiam não se concretizou nas últimas horas, mas cerca de 200 pessoas manifestaram-se nesta quinta-feira num subúrbio de Joanesburgo contra a presença de imigrantes – lançaram pedras contra automóveis e veículos da polícia e acabaram por ser dispersados com balas de borracha e gás lacrimogéneo.

Culpas atribuídas ao rei zulu
Se em 2008 os principais partidos acusaram-se mutuamente de terem sido responsáveis pelos motins anti-imigração, desta vez todos os dedos se viram na direcção do rei zulu, Goodwill Zwelithini.

O mais recente clima de tensão entre sul-africanos e imigrantes começou em Janeiro, no Soweto, mas uma intervenção pública do rei zulu, no mês passado, agitou ainda mais a situação.

“Eu sei que por vezes os políticos têm dificuldade em falar sobre estes assuntos, porque quem pratica o mal passa a ser eleitor cinco anos depois. Vão-me perdoar, mas eu tenho de falar. Na condição de alguém que não tem de esperar cinco anos, na condição de rei zulu – uma nação respeitada em todo o mundo, por causa do seu papel na libertação de África –, não ficarei calado quando pessoas que não têm voto na matéria brincam com este país. Chegou a hora de fazermos ouvir a nossa voz”, começou por dizer Goodwill Zwelithini numa reunião em Pongola, na fronteira com a Suazilândia.

Mas as frases mais polémicas surgiram já na parte final do discurso: “Temos de lidar com os nossos próprios piolhos. Vamos enxotar as formigas e deixá-las ao sol. Os imigrantes têm de pegar nas malas e voltar para de onde vieram.”

O rei começou por desmentir as declarações que lhe eram atribuídas, mas quando os media sul-africanos puseram a circular uma tradução das suas palavras para inglês, disse que foram mal interpretadas – na versão que pode ser lida no site do canal de notícias eNCA, lê-se que a tradução foi feita “com a ajuda de académicos zulus”.

 

Publico.pt

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