Desmistificando as questões da oficialização do crioulo e do bilinguismo

23/03/2015 08:00 - Modificado em 23/03/2015 08:00

DESMISTIFICANDO AS QUESTÕES DA OFICIALIZAÇÃO DO CRIOULO E DO BILINGUISMO

Considerações gerais (1ª Parte)

A imprensa cabo-verdiana tem dado desde finais de Fevereiro um destaque à questão da oficialização crioulo, chamado oficialmente língua cabo-verdiana ou oficiosamente Língua Materna. A semana anunciou (1) “Oficialização do Crioulo em debate no Parlamento ainda este ano” reportando que o ministro da Cultura anunciou na tarde de Carnaval, no Mindelo, que a oficialização do crioulo volta à discussão no Parlamento ainda este ano. Uma afirmação feita a propósito do Dia Internacional da Língua Materna, celebrado no dia 21 de Fevereiro em todo o mundo.   

Consta que está eminente a Oficialização do Crioulo, e perante uma 3ª revolução sob forma de uma revolução cultural para resgatar o Crioulo ‘da sua longa noite colonial’. Na realidade, trata-se de uma enésima iniciativa, cuja nota dominante é ser sempre apresentado de maneira atabalhoada. A questão da língua em Cabo Verde não deixa de ser polémica, controversa e pouco consensual.

Mas, desta vez, segundo as intenções do poder, não obstante a falta de consensos na sociedade, é que vai ser a vez. O Sistema foi todo mobilizado para a derradeira ofensiva política: a passagem em força e rapidamente, estando talvez já garantido o voto da maior parte da oposição e uma revisão conveniente da Constituição da República, de modo que a sua formalização assegurará a perenidade e a irreversibilidade desta Revolução palaciana, esta transição civilizacional em Cabo Verde.

A questão da oficialização levanta muitas dúvidas ao comum dos cidadãos. E assiste-nos o direito de as colocar e trazer ao público as nossas preocupações uma vez que neste como noutros assuntos a demissão da sociedade civil é total. Vergonhosamente, poucos querem tocar num assunto tão quente como a questão linguística, não obstante o facto de o país já contar com uma classe média importante, centros universitários e intelectuais etc.. Parece que em Cabo Verde a pior coisa que pode acontecer a um cidadão é ficar mal visto por exprimir determinadas opiniões. Por isso, quando o faz, fá-lo comodamente no anonimato.

Tenho razões de sobra para desconfiar do projecto de oficialização do Crioulo, que nasceu mal, e temo que assistimos agora a uma corrida contra o relógio, em fim de mandato, para concluir à pressa um projecto que tem sido elaborado em perfeito secretismo, uma autêntica Revolução Cultural cabo-verdiana silenciosa e que a meu ver vai lançar Cabo Verde no desconhecido.

A temática da língua tem sido instrumentalizada desde há 40 anos por questões de ordem e de agenda política. Foi uma bandeira identitária dos anos 60 e tem sido actualmente a marca de um certo nacionalismo fundamentalista. Apresentado como um factor de afirmação nacionalista e de coesão nacional, está longe de poder preencher este papel, e há quem o vê como factor de divisão: a sua má gestão tem sido negativa para o próprio processo e poderá ter consequências irreversíveis. Mesmo no seio de nacionalistas mais convictos, esta revolução está sendo encarada com muitas reservas, na medida em que os seus contornos e consequências não estão totalmente definidos.

Recorde-se que, com a oficialização do Crioulo, pretende-se substituir, na prática, a língua portuguesa em todas as suas funções, esvaziando o papel desta língua em Cabo Verde. Nas palavras de um certo nacionalista fundamentalista, este acto corresponderá ao hastear da bandeira, a da Língua Materna, e ao arrear da bandeira estrangeira, a da língua portuguesa. Segundo eles, marcaria o regresso às praias do Restelo do último contingente colonial que resta da presença portuguesa em Cabo Verde, representado precisamente pela sua língua portuguesa.

 A questão linguística é uma das mais caras das utopias do pós-25 de Abril em Cabo Verde, protagonizada pelos sectores mais radicais da sociedade cabo-verdiana da época, representados pelas alas esquerdistas do movimento independentista. Recorde-se que uma das manifestações de revolucionarismo, num período em que a demagogia política estava em plena expansão e atingia o seu auge, consistia em opor a língua portuguesa ao Crioulo. A mobilização da sociedade para a Independência incluía, é claro, a questão de identidade e a questão do crioulo subjugado e oprimido durante o período colonial, e sobretudo pelo regime salazarista. O Crioulo era um candidato predilecto para desempenhar esta função revolucionária e libertária da época. Não importava a racionalidade e a viabilidade desta proposta, nem que estávamos a pôr em questão a nossa principal ferramenta de comunicação e de trocas com o Mundo.

Para perceber a génese problemática da oficialização do Crioulo é necessário mergulharmos e recuarmos na História do país. Só assim compreendemos as razões deste retorno do fundamentalismo irredentista em torno da questão do crioulo. Como vimos com o estabelecimento da presença britânica em S. Vicente, no auge do seu poderio imperialista, nos meados do século XIX, situação que potenciou a criação das condições sociopolíticas mais liberais no arquipélago, no quadro do seu estatuto colonial, ocorria uma autêntica revolução social em S. Vicente e de grande impacto para o todo o arquipélago, e que muitos pretendem ter dado à luz um novo Cabo Verde. Um autêntico homem novo cabo-verdiano nascia, com uma nova identidade forjada pelo urbanismo, enquanto a ‘industrialização’ e o cosmopolitismo mindelense despontavam como substrato de uma nova identidade cabo-verdiana, moderna e arvorando outro sentido de liberdade. É, pois, precisamente nesta ilha de S. Vicente que nasce naturalmente um outro Crioulo, fruto desta mistura, síntese do ‘input’ de culturas e línguas faladas no arquipélago, assim como das estrangeiras que ali se instalaram. Segundo Ondina Ferreira, ‘O povoamento da ilha de S. Vicente gerou um cabo-verdiano liberto de complexos étnicos e culturais e é por isso que a mentalidade e as inclinações idiossincráticas do homem do Mindelo são as mesmas, sem distinção de cor de pele ou estrato social ou cultural …” (2).  É assim que nos finais do século XIX, S. Vicente já é Cabo Verde e atrai todos os cabo-verdianos, e no dizer de Onésimo Silveira, S. Vicente acabaria por ser a única ilha povoada por cabo-verdianos.”In: «Arrozcatum» blogspot.com, Zito Azevedo, “A Formação da Sociedade Mindelense“. Mas é com o 25 de Abril e a independência que S. Vicente assume o grande protagonismo político em todo o arquipélago, graças à sua pequena burguesia estudantil, e pretende congregar a Nação cabo-verdiana em torno dela para um novo projecto sob a batuta do PAIGC, antevendo-se longe de toda a influência da então Metrópole. S Vicente projecta-se de novo no futuro, assume protagonismo, e enobrece tudo o que é genuinamente cabo-verdiano: a língua crioula assume naturalmente o estatuto de língua oficial deste país em vias de nascer de uma revolução quase pacífica e que poderia ter sido perfeita. O PAIGC, novo poder, assume politicamente esta nova realidade linguística, mas face aos desafios do recém-nascido país em 1975 e à inviabilidade da sua implementação, o projecto é abandonado graças talvez à influência das tendências moderadas e pragmáticas do próprio partido (o moderado Aristides Pereira, Secretário Geral, só se exprimia em português), dando prioridade a questões de sobrevivência e de viabilização do novo estado. A questão só viria a reaparecer nos anos 90 do século passado, com a revolução sociológica ocorrida depois da independência, sob a égide de um Centralismo programado como opção política sacramental e que viria a ser assumida, pelo menos até há pouco tempo, por ambos os partidos que se alternaram no poder, o que significa que foi o regime demo-liberal a selar o problema considerado identitário. O combate do Crioulo tornou-se o leitmotiv de uma certa elite emergente que se revê nos ideias fundamentalistas e foi levada ao poder através de uma fulgurante ascensão nas rédeas dos principais partidos. Defendem o renascimento de Cabo Verde através da promoção daquilo que é genuinamente cabo-verdiano (que muitos erradamente associam ao que é sobretudo de Santiago, a ilha considerada até então oprimida nas suas manifestações culturais e linguísticas, mas na realidade a mais autêntica do arquipélago, pelas suas raízes africanas). Segundo eles, a língua portuguesa é hoje um estorvo à   aspiração de uma plena assunção do verdeiro nacionalismo cabo-verdiano, a plena e pura cabo-verdianidade. Por isso nunca esconderam os seus propósitos, embora mais ou menos disfarçados, nalgumas circunstâncias, de eliminar qualquer possibilidade de um aprofundamento do bilinguismo em Cabo Verde, pretendendo erradicar paulatinamente dos nossos hábitos a língua portuguesa, que, alegadamente, corrompe o Crioulo autêntico. Defendem um crioulo oficial e padronizado em função do dialecto maioritário, o de Santiago, e um processo de assimilação progressiva dos outros crioulos, condenados assim ao desaparecimento. Para além disso, propõem no futuro uma fusão programada e assistida de todas as versões do crioulo falado num único crioulo  unificado, que chamam a língua cabo-verdiana. Mas antes disto os crioulos de Sotavento deverão fundir-se na versão de Santiago e os crioulos de Barlavento fundir-se-ão na versão de S. Vicente. Assim os dois centros, S. Vicente e Santiago, serão os carrascos do crioulo, uma operação que consistiria na eliminação dos crioulos minoritários falados nas diferentes ilhas de Cabo Verde. Para eles, só assim nascerá o Cabo Verde Novo, com Homens Novos, em ruptura com o passado colonial, ardentemente desejado pelos actuais políticos. Estamos assim perante uma operação de engenharia linguística sui generis na História, que nenhuma ditadura até agora ousou praticar de forma tão aberta e determinada. Recorde-se que este tipo de política foi seguido há séculos pelos diferentes estados centrais através da conversão dos súbditos minoritários à língua maioritária, ou tentando fundir diversos dialectos num só unificado. Na altura, estes processos eram impostos à força das armas e do poderio económico. O espanhol, a língua de Castela, tornou-se a língua da Espanha e o francês de Paris impôs-se às várias línguas dos diferentes povos que povoaram ou invadiram a Gália.

Assim, antes de chegada ao fim do seu mandato, o actual governo pretende deixar engatilhada, para o próximo governo e para Cabo Verde, esta revolução. Não podendo garantir ao seu povo a autossuficiência e mesmo a viabilidade económico-financeira, perante o desastre social das políticas até hoje implementadas, o sistema distrai o mesmo tentando convencê-lo dos benefícios desta revolução, a passagem de uma situação de dependência linguística para a da auto-suficiência linguística, a independência cultural sob os auspícios de Praia/Santiago, que será eleita centro do Crioulo domesticado e Unificado, o novo polo de difusão de cultura, ciência e valores de Cabo Verde.

Uma questão pertinente é a de saber se em 2030 os cabo-verdianos ainda perceberão o português ou dirão coisa com algum nexo nesta língua e noutras. Esta é a questão que perpassa muitos observadores de Cabo Verde que temem que a oficialização vá trazer os cabo-verdianos de volta ao verdadeiro estatuto de indigenato e à balcanização do país, o seu fecho umbilical. Andaremos 50 anos  para trás graças à vaidade de uns e à sede de hegemonia de outros.

1-http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article73315&var_recherche=oficializa%E7%E3o&ak=1#ancre_comm

2-http://www.coral-vermelho.blogspot.pt/2015/01/reconciliacao-sim-indulto-ou-amnistia.html

 

Março de 2015

José Fortes Lopes

  1. D. Semedo

    Quando poderemos debater sèriamente?
    Este jornal està perdendo crédito nacional

  2. Joaquim ALMEIDA

    Como disse o escritor caboverdeano Germano ALMEIDA ( com o crioulo como lingua nacional nao iremos a parte nenhum ) que nao ultrapassa Monte Cara !..Isso quer dizer que vàmos progredir no sentido retrôgrado !..E provocar a lei do menor esforço , preguiça mental , jà que ( esta lingua ) nao vai ajudar nos em aprender coisa nenhuma !..Sempre eu disse e nao sou o ùnico caboverdeano a dizer que isso é PROTAGONISMO nada mais !..

  3. Adriano Lima

    Muitos ainda não se aperceberam das graves consequências que esta questão da língua poderá ter no futuro do país. O Professor José Lopes e outros vêm, desde há muito tempo, alertando a opinião pública para a gravidade do que poderá ser uma perda significativa da nossa competência no uso do português. É o que fatalmente vai acontecer se, com a pressa de defender o crioulo e priorizar o seu ensino e uso nos actos oficiais, o mandarmos para o lixo. Ou existe mesmo esse propósito?

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