Um ano depois, Crimeia celebra oficialmente regresso à “Grande Rússia”

16/03/2015 22:06 - Modificado em 16/03/2015 22:06
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CrimeiaEm Sebastopol, a maior cidade da Crimeia, foi organizado um desfile automóvel e um concerto que se prolongou por quatro horas. “Vocês, habitantes da Crimeia, disseram que queriam voltar a casa e o Presidente [Vladimir Putin] tomou a sua decisão”, disse o governador, Sergueï Meniaïlo, no arranque das cerimónias oficiais da anexação do território que, somada ao conflito no Leste da Ucrânia, que já fez mais de seis mil mortos, levou no último ano a Europa a um risco de confontação generalizada que não conhecia desde a Guerra Fria.

Um comunicado divulgado no domingo pelo presidente do Parlamento da Crimeia deu o tom das cerimónias do primeiro aniversário da anexação da península ucraniana. “Em conjunto, com a Grande Rússia, vamos construir uma nova Crimeia”, disse Vladimir Konstantinov.

Foi a 16 Março de 2014, poucas semanas após o derrube, em Kiev, do Presidente ucraniano pró-russo Viktor Ianukovich, e quando o Parlamento e os lugares estratégicos da Crimeia estavam já, de facto, sob controlo de forças de Moscovo – Putin assumiu ter deslocado tropas para apoiar as “forças de autodefesa da Crimeia” –, que foi votada a anexação, num referendo considerado ilegal pelo Governo ucraniano e pelos países ocidentais.

Para garantir o êxito da anexação, a Rússia não hesitou há um ano em recorrer ao trunfo militar, como agora reconheceu Putin. “Tivemos de reforçar a nossa presença militar na Ucrânia para que o número dos nossos soldados nos permitisse criar condições propícias à organização do referendo”, disse, citado pelas agências noticiosas, num documentário transmitido no domingo pela televisão pública Rossia 1. “Estávamos prontos para o fazer”, afirmou também, em resposta a uma pergunta sobre se admitiu pôr as forças nucleares em estado de alerta.

A anexação fez disparar a popularidade de Putin e reforçou os sentimentos nacionalistas na Rússia. Para muitos, tratou-se de reparar o “erro” cometido em 1954 por Nikita Krustchov, quando, com ambos os países na União Soviética, o então líder “ofereceu” a Crimeia à Ucrânia. Em fotos das concentrações desta segunda-feira em Sabastopol viam-se imagens glorificadoras do actual Presidente russo e símbolos da era soviética, incluindo fotos do ditador Josef Estaline.

O referendo de há um ano, realizado sem a presença de observadores ocidentais, e o decreto de integração da Crimeia na Rússia, que Putin assinou dois dias depois, desafiando ameaças de sanções, fizeram subir a tensão entre os países ocidentais e a Rússia e deram origem a sucessivas sanções económicas.

Em Abril de 2014, um mês após a anexação, a rebelião pró-russa na região do Donbass, no Leste da Ucrânia, que os Estados Unidos e a União Europeia consideram ser apoiada com homens e armamento russos, agravou os desencontros entre Moscovo e os governos ocidentais.

Os acordos de cessar-fogo do último ano mais não fizeram do que permitir, a espaços, uma diminuição da intensidade bélica do conflito no Leste subtraído à autoridade do Governo de Kiev. Uma solução que compatibilize paz com integridade territorial da Ucrânia parece ser uma perspectiva longínqua, apesar de uma relativa acalmia que se seguiu à entrada em vigor, no passado dia 15 de Fevereiro, de um novo cessar-fogo, que previa a retirada de armas pesadas de longo alcance da linha da frente. “Todos os dias há tiros do lado russo”, acusou no domingo o Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko.

“Acreditamos em Putin”

Se, como escreveu a AFP, alguns, sobretudo jovens e tártaros – autóctones opositores da anexação –, recusam falar da situação actual à imprensa ocidental por receio de represálias, muitos preferem acreditar num futuro melhor e, principalmente, no Presidente russo. “Acreditamos em Vladimir Putin, mas não há nada a esperar das autoridades locais”, disse Tatiana Tsarevna, 60 anos, que festejou em Sebastopol. Um ano volvido sobre o referendo as organizações internacionais denunciam violações de direitos humanos e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) manifesta-se preocupada com a “repressão” nos meios de comunicação independentes.

O primeiro-ministro da Crimeia, Serguei Aksionov, um dos visados pelas sanções ocidentais, considera que o referendo de há um ano – 97% dos votos a favor integração – foi um “acto democrático” que permitiu à península voltar a integrar a mãe Rússia. Em seu entender, Putin escolheu proteger a população da Crimeia de nacionalistas ucranianos. “Nada poderia ter acontecido sem o apoio da população local, pelo que não foi um acto de agressão, mas um acto democrático”, disse à BBC. “As pessoas estão mal informadas pelos media, que não conseguem dar um retrato exacto do que aconteceu no ano passado na Crimeia”, sublinhou.

A União Europeia não alterou o seu ponto de vista. E nesta segunda-feira reafirmou a condenação da anexação “ilegal” e a “militarização crescente” da península. O agravamento da situação dos direitos humanos e a perseguição de minorias são também denunciados num comunicado da chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, que sublinha o empenhamento na “soberania” e “integridade territorial da Ucrânia”.

 

publico.pt

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