Diálogo sobre a questão da “Língua Cabo-Verdiana” IV Parte

16/03/2015 01:39 - Modificado em 16/03/2015 01:39

DIÁLOGO  SOBRE A QUESTÃO DA “LÍNGUA CABO-VERDIANA”

IV Parte

(Este diálogo é entre duas personagens fictícias e terá continuação)

 

Elísio:  ̶  Hoje, ê mim  q’tá dá pontapé de saída. Ondê  q’nô fcá onte.

Filinto:  ̶  Ah, foi naquel queston de identidade nacional e sê relaçon c’nôs criol.

Elísio:  ̶  Ah, pois, foi isso mesmo. Olha, para começar, há uns anos, quando o Manuel Veiga publicitou as suas ideias sobre a oficialização do crioulo e deu à luz o ALUPEC, afirmou:  “Com o Crioulo é que Cabo Verde marca a sua diferença no mundo”.  Esta afirmação  entronca precisamente nas considerações que ontem fizemos acerca de identidade nacional, e se dúvidas houvesse acerca da questão político-ideológica que subjaz a esta problemática, aquela afirmação as desfaz por completo. Não achas?

Filinto:  ̶  Pois, com certeza. Para já,  é muito discutível aquela  afirmação, para não dizer que é pretensiosa e abusiva. Quem é esse senhor para sentenciar o que deve ser a imagem do povo cabo-verdiano no mundo? Essa imagem não se decreta nem pode ser forjada na oficina de um ou dois artífices, por mais imaginativos que se julguem. Ela  não pode cingir-se unicamente a uma língua, pois é muito mais do que isso, é um produto multifacetado que tem a sua raiz na idiossincrasia do povo, no seu temperamento, nos traços essenciais do seu carácter, nos seus sentimentos, nas suas inclinações naturais, etc., etc..

Elísio:  ̶  Ao exprimir-se assim, o Manuel Veiga não julgava suficiente a imagem intrínseca do seu povo, e por isso considerou que o crioulo  é o único ou o mais importante selo da sua autenticidade. Discordo veementemente desse ponto de vista, pois o povo cabo-verdiano pode ostentar ao mundo outras facetas marcantes  da sua identidade, porventura até mais gratificantes, como a sua imagem de povo pobre mas rico de sentimentos, de povo maltratado pelo destino mas esperançado no futuro, de povo prisioneiro da insularidade mas aberto à universalidade, enfim, de povo pacífico, convivente e comprometido com o humanismo.  Além disso, é um perfeito disparate considerar que uma língua restrita a um pequeno povo pode ser imagem de marca neste mundo globalizante e em que o domínio das línguas universais é cada vez mais uma ferramenta indispensável para o sucesso individual e para a competição.

Filinto:  ̶  Sabes uma coisa?,  tenho o pressentimento de que, com esta aventura do Governo, estamos a entrar num terreno ignoto e cheio de armadilhas, só para satisfazer os caprichos de algumas pessoas. Ainda por cima, de uma forma imprevidente, o que me faz lembrar aquela do gato escondido com o rabo de fora. Passo a explicar. No enunciado de intenções do Governo, e segundo aquilo que recentemente me chegou aos ouvidos, o crioulo vai ser consagrado e  dotado de um “estatuto social condigno”, em paridade com o português, mas ao mesmo tempo diz-se que “deverá ser equacionada a possibilidade de a língua portuguesa se manter como a língua de comunicação internacional, tanto na comunicação oral como na escrita, enquanto decorrer o processo de padronização do crioulo”. Repara que sublinhei a expressão “deverá ser equacionada”. O gato está, pois, escondido com o rabo de fora. É que tudo indica que a intenção é mesmo banir o português da nossa vida e que apenas o toleram enquanto não estiver concluído o processo de padronização dos crioulos.

Elísio:  ̶  E quanto tempo vai demorar esse processo de padronização, que eu entendo deve requerer um período razoável para a sua consolidação? O mesmo é perguntar por quanto tempo mais teremos a língua portuguesa nos nossos hábitos e práticas sociais e oficiais. Parto do princípio de que todo esse processo de transposição linguística subentende que o crioulo já estará enraizado em todo o nosso sistema de ensino. E sobre o ensino podemos fazer uns prolegómenos sobre os trâmites do processo?

Filinto:  ̶  Está bem, até porque considero a introdução do crioulo no sistema do ensino a fase mais crítica e desafiadora  do processo que se tenciona implementar. É preciso saber como   vai funcionar tudo isso, por onde começar, até onde ir, como superar eventuais situações de bloqueamento, que metodologias serão utilizadas para a aferição do processo, que instrumentos didácticos irão suportar cada fase de transição.  E, muito importante, saber com que meios  e quem vai custear todo um processo que não deixará de exigir uma fatia não despicienda do orçamento. Será que até nisto vamos ao peditório internacional, para a mera satisfação de um capricho?

Elísio:  ̶  Ora, aí estão elencadas algumas questões para discussão. Mas antes de metermos a foice nessa seara, convém trazer de novo à baila uma questão que terá sérios reflexos no processo de ensino. Segundo o que ouvi recentemente, e já foi ventilado nas nossas conversas, existe a promessa de que todas as variedades do crioulo serão consideradas, em pé de igualdade, no processo de padronização, normalização e instrumentalização, e isto desde logo a aplicar-se na publicação de gramáticas, dicionários, prontuários, terminologia científica e técnica, etc.  Foi o que me constou, e é assunto que acho devíamos abordar antes de tratar a questão do ensino e da formação com o uso do crioulo. Queres pegar na ponta?

Filinto:  ̶  Começo por dizer que aquela promessa do tratamento igualitário a todas as variedades do crioulo não convence nem ao mais ingénuo. Não é necessário ser um expert para perceber que tudo isso é expediente dilatório. É que basta imaginar o que será a complexidade e a inviabilidade prática desse  processo, para desconfiarmos  que o Governo vai entreter o pagode com promessas vãs e incumpríveis enquanto fermenta no seu bojo outro desígnio. E qual é ele?  Precisamente, a uniformização e padronização dos crioulos cabo-verdianos num único modelo, como objectivo a alcançar a prazo, convencido de que o tempo (e a paciência dos cabo-verdianos) se encarregará de esbater a memória dos crioulos da  “periferia” e de os diluir paulatinamente  no da ilha de Santiago.

Elísio:  ̶  Bem, deixa-me agora completar. Em suma,  por simples tacticismo político,  o Governo não defende ou não prescreve de uma forma clara a extinção das variedades dialectais exteriores à ilha de Santiago, por acreditar que serão absorvidos inapelavelmente pelo organismo do crioulo dessa ilha, no pressuposto de que o efeito de massa prevalecerá sobre as realidades sociolinguísticas tidas como menores. Não o dirá assertivamente, pois preferirá subterfúgios de linguagem  ambígua, de modo a  iludir os ingénuos.

Filinto:  ̶  Elísio, independentemente das nossas conjecturas e opiniões, achas  que, como fenómeno sociolinguístico, a absorção das variedades do crioulo num único modelo é coisa que poderá acontecer num futuro distante? A processar-se de uma forma sub-reptícia ou por coacção levada a cabo das formas mais subtis? Por exemplo, começar a exigir que todos os funcionários do Estado ou os que se candidatam a cargos públicos usem apenas o crioulo de Santiago tanto na fala como na escrita? Olha, estou a especular, mas não é destituída de sentido essa possibilidade. No entanto, duvido que haja sustentação científica em todo este processo, tal a pressa na sua implementação, pelas seguintes por estas duas razões essenciais:  não parece haver precedentes históricos que validem esta experiência; será difícil, se não impossível, interferir por via oficial nas variedades de crioulo faladas nas comunidades emigrantes, onde o de Santiago não é o mais representativo, uma vez que as mais importantes correntes emigratórias tiveram origem nas ilhas do Barlavento e no Fogo e na Brava. E não se esqueça da expressão demográfica da população emigrada ou radicada no estrangeiro.

Elísio:  ̶   O tempo passou depressa sem darmos por isso. Julgo que será melhor continuarmos a abordar o tema do ensino amanhã.

Filinto:  ̶  Por mim, tudo bem. Depois telefono-te.

 

Tomar, 12 de Março de 2015

Adriano Miranda Lima

  1. Januário M.Saores

    Amigos, palavras claras para que entendo esta obçessão de fazer o Criol uma lingua oficial.Não maies do que uma casmurriçoeu não chamo criol, mas sim, DIALETO das KAPAS, Se juntarmos 10 palavras vamos ver quantas Kapas, ate parece impossivel. Ainda na na vida do nosso falecido Ze Figueiras, disse-lhe creio que aqueles linguistas estava a arranjar um dialeto so com Kapas.Uma pequena amostra, e ver como eles estão a querer mudar o nome de de Cabo Verde.

  2. Mateus

    Amigo.. muito obrigado pelo artigo.
    A população precisa ir a rua manifestar essa barbaridade que alguns governates querem impor a força.

  3. Joaquim ALMEIDA

    Esse diàlogo , entre Elisio e Filinto ,escrito e orientado de forma extraordinària pelo nosso amigo Adriano Miranda sobre a questao da ( lingua caboverdiana ) , é de forma culturalmente falando de interesse para todos os caboverdianos , que seja dentro ou fora de Cabo Verde . E um assunto importante que nao devemos considerar como um simples assunto de conversa do dia a dia !.. E a nossa cultura o progresso intelectual de todos nos seja da geraçao actual como para as futuras geraçoes !..

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