Diálogo sobre a questão da “Língua Cabo-verdiana” II Parte

11/03/2015 08:16 - Modificado em 11/03/2015 08:16

DIÁLOGO  SOBRE A QUESTÃO DA “LÍNGUA CABO-VERDIANA”

II Parte

(Este diálogo é entre duas personagens fictícias e terá continuação)

Filinto:  ̶  Bem, Elísio, em que ponto ficámos ontem? Ah, já me lembro, o ALUPEC. Mas porque é que para muitos ele é tão mal amado, como se fosse algo estapafúrdio criado só para azucrinar a malta do Barlavento?

Elísio:  ̶  Pois é, pois é, não terá sido propriamente para azucrinar mas o efeito foi praticamente o mesmo se virmos a reacção negativa que ele mereceu nas ilhas do Barlavento e na diáspora. O ALUPEC surgiu em 1994 e foi elaborado pelo chamado Grupo de Padronização da Língua Cabo-Verdiana, constituído por Manuel Veiga, Dulce Almada Duarte, Eduardo Cardoso, Inês Brito, e outros. É um sistema fonético que essencialmente define as letras para representar cada som, e o objectivo é, alegadamente, uniformizar a escrita de todas as variedades do crioulo, para evitar que cada um utilize a grafia que julgue mais consentânea com a expressão da variedade dialectal da sua ilha, com o seu próprio sociolecto e o seu próprio idiolecto. Aquando da sua aprovação, prometia-se que depois de um período experimental seria encarada a sua introdução no ensino, o que parece estar agora para breve.

Filinto:  ̶  Ah sim, e que mais?

Elísio: ̶ Bem, diz-se que a importância deste sistema se prende exclusivamente com a língua escrita, mas veremos mais adiante o grau de susceptibilidade que poderá ter ou não ter na expressão oral. Não sendo especialista no assunto, a minha opinião é apenas  pela rama, mas sem deixar de valorizar as reacções negativas e as muitas opiniões que têm surgido de vários quadrantes da sociedade. Para além de uma generalizada contestação à substituição da letra “c” pela letra “k”, existe a desconfiança de que a intenção é, com o tempo, e ao contrário do que é agora propalado, padronizar todas as variedades dialectais em função do crioulo falado na ilha de Santiago. Contudo, é iniludível  a diferença significativa a nível fonológico, e não só, entre os crioulos do grupo Sotavento e os do grupo Barlavento, daí que qualquer tentativa de uniformização tenha de produzir fortes traumas, e a resistência passiva será o mais provável. No entanto, para agradar a todos, numa primeira abordagem diz-se que serão respeitadas todas as variedades porque o ALUPEC contém as soluções linguísticas adequadas para cada caso. Resta porém saber se não é um expediente dilatório, na crença de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. E isto porque não vejo como tornar o crioulo o ambicionado instrumento de comunicação válido, escorreito e eficaz no ensino e em outras funções exigentes, com a coexistência de todas as suas variedades.

Filinto:  ̶  O que queres insinuar é que, por exemplo, se o crioulo de S. Vicente utilizar o ALUPEC, acabará mais tarde ou mais cedo por convergir com o de Santiago, não é? Estamos a falar de padronização do processo da escrita, mas seria, de facto, interessante especular se a domesticação da grafia não acabará por ter um efeito reflexivo na oralidade. Explico melhor. O ALUPEC é uma ferramenta pensada mais para privilegiar o crioulo de Santiago do que para a generalidade dos crioulos cabo-verdianos, ainda que os seus autores aleguem o contrário. Assim, em que medida a prática generalizada da escrita baseada no ALUPEC não fará transpor insidiosamente para a oralidade as inflexões fonéticas que aquele alfabeto consagra, com predomínio na letra “u”?  Contudo, tudo isto só seria possível se a escrita em crioulo se tornasse uma prática corrente e generalizada, pelo que a questão é saber como atingir esse desiderato enquanto o português não for destronado dos nossos hábitos. De facto, se, ao longo de séculos, os cabo-verdianos sempre escreveram as suas cartas, bilhetes e recados em português, que transmutação sociolinguística ocorrerá para justificar que o crioulo  passe a substituir a língua lusa nessa função instrumental? Para mais, nesta época de abertura ao exterior e de mobilidade social sem precedentes em que vivemos.

Elísio: ̶  Bem, Filinto, estás a colocar questões de uma certa complexidade. Repito que não sou especialista na matéria e por isso me inibo de sentenciar depreciativamente o que é da lavra dos que o são, ou julgam sê-lo, embora se censure que no grupo de trabalho nomeado não tenha havido uma representação plural e equilibrada da sociedade cabo-verdiana. Em suma, no grupo predominava e predomina uma certa orientação político-partidária. E é por isso que alguns autores, de opinião tão respeitável como a dos defensores do ALUPEC, defendem a padronização dos crioulos de Sotavento em torno do de Santiago e a dos crioulos de Barlavento em torno do de São Vicente. E o curioso é que o Governo parece admitir agora essa possibilidade, como forma de atenuar o ruído de fundo, procurando agradar a gregos e a troianos. A ser assim, o crioulo tornar-se-á numa língua pluricêntrica, mas não nos iludamos com os expedientes dilatórios.

Filinto:  ̶  Interpreto isso no sentido de que passaria a haver duas formas básicas e  distintas de crioulo em Cabo Verde, mas só no âmbito da grafia, uma vez que ainda há dúvidas se a oralidade ficará imune às prescrições impostas na grafia. A sensação, para já, é que estamos a armar uma enormíssima confusão em Cabo Verde, em matéria linguística. Verdade ou não?

Elísio: ̶ Ah, pois, nisso estou como tu. Também julgo imprevisível a influência que a grafia possa vir a ter na expressão oral. É que, em princípio, estamos perante duas situações distintas, a da grafia e a da oralidade, mas, na verdade, até que ponto se pode definir ou garantir zonas estanques no comportamento do fenómeno linguístico. E julgo que nem os próprios linguistas terão qualquer opinião avalizada sobre este aspecto particular, mas não duvidemos que estão a apostar nessa probabilidade.

Sempre teria sido aconselhável olhar com olhos de ver para o percurso histórico das línguas mundiais, no sentido de colher adequados instrumentos de análise e aferição susceptíveis de ajudar a compreender mais profundamente o nosso caso. Até que ponto uma cautelosa atitude prospectiva presidiu à decisão de oficialização do crioulo? É uma pergunta que aqui deixo.

Filinto:  ̶  Enfim, estamos para ver o que vai acontecer. Mas, para já,  o ar que se respira nos círculos oficiais é de franco optimismo em relação ao sucesso da adopção e vulgarização da escrita do crioulo.

Elísio:  ̶  Voltemos um pouco atrás, Filinto. A introdução e vulgarização da escrita em crioulo parte do pressuposto de que a língua portuguesa será secundarizada nos nossos hábitos de escrita e leitura e em grande parte da comunicação oral, quer nas vivências informais quer mesmo nos actos oficiais a nível das funções do Estado. Não tenhas dúvidas acerca disso. Achas provável que isso aconteça num futuro mais próximo ou mesmo mais distante? As pessoas vão abdicar voluntariamente de utilizar a língua portuguesa, ou  será isso imposto mediante formas subtis de coacção? É que não vejo o que pode motivar as pessoas a escrever em crioulo enquanto prevalecer o português, impregnado como está nos nossos hábitos e nas nossas práticas, e sem que aparentemente se descortine qualquer vantagem na sua substituição. Bem pelo contrário, passar do português para o crioulo é como passar do garantido para o incerto, sem nada que o justifique. A não ser que para alguns seja um acto patrioteiro.

Filinto: ̶ Mas, espera aí. O governo não diz que vai suprimir a língua portuguesa. Defende, sim, a construção de um bilinguismo social com base no crioulo e no português, e é precisamente como resposta à chamada situação de diglossia existente na sociedade cabo-verdiana que oficializa o crioulo para o colocar em paridade com o português.  Nesse sentido, um dos primeiros passos é introduzir o crioulo no sistema de ensino.

Elísio:  ̶  Tudo isto cheira-me a uma autêntica  aventura em que nos vamos mergulhar de cabeça, porque nada de verdadeiramente imperioso recomenda a alteração do panorama linguístico que ao longo de séculos foi o nosso. Repara que esta conversa oferece pano para muita manga e as questões surgem em catadupa.

Ma já bô oiá pa reloje, Filinto? Pa hoje tá tchgá. Manhã, na meme hora d’hoje, lissim na Cafê “Crióla”.

Filinto:  ̶  OK, rapaz, pa mim tud dret.

Tomar, 10 de Março de 2015

Adriano Miranda Lima

  1. Andrea Fortes

    “E DEPOIS NAO NOS VENHAM DIZER QUE NAO VOS ÁVISAMOS”

    [Alguns anos atras por inspiração demagógica o governo da Ilha Curacao que é um departamento da Holanda mas com uma grande autonomia e governada pelos autóctones decidiu introduzir o papiamento como língua oficial nas escolas publicas substituindo assim a língua holandesa considerada como uma língua de colonizadores e portanto menos valida.
    Entretanto logo no inicio esses mesmos políticos que tudo fizeram para introduzir o papiamento como língua oficial retiraram imediatamente os seus filhos das escolas publicas e colocaram os mesmos nas escolas privadas onde o ensino era ministrado em língua holandesa.
    Passado 5 anos duma experiência que desde do inicio estava condenada ao falhanço chegaram a conclusão que a introdução do papiamento como língua oficial em detrimento da língua holandesa foi um verdadeiro desastre pelo que nao havia outra alternativa senão começar de novo com a “língua nao amada”.
    Nada de novo. Este desastroso resultado como é logico já era de esperar. Os alunos das escolas publicas sofreram um atraso de 5 anos. O fosso entre os alunos filhos das elites que frequentaram as escolas privadas onde a língua oficial era a língua holandesa e os alunos das classes menos favorecidas que frequentaram as escolas publicas onde a lingua oficial era o papiamento foi enorme e estes últimos sofreram um retrocesso de 5 anos.
    Marciano e comparsas que nao sao tao parvos e que sabem perfeitamente quais as nefastas consequencias de oficializar o crioulo deviam ir ate Curacao e inteirarem-se da sua experiência negativa em substituir a “língua nao amada” mas de qualquer forma a mais funcional pelo papiamento]
    Fonte de informacao:
    ELSEVIER N0. 23 de 7 de Junho de 2008.pagina 34 capitulo KONINKRIIJK / NIET DE GELIEFEDE TAAL

  2. Julio Goto

    Principio de Igualdade da Constituicao da republica de Cabo Verde nao permite que ninguem seja PREVILEGIADO.
    Introducao do Criol da Republica de Saotiago ou de Sao Vicente pode-se considerar um previlegios aos falantes das duas variantes ,da linha de frente cuja funcao sera engolir as outras variantes.
    Onde estao os juridicos ?

  3. Ema Rodrigues

    O Manuel Veiga, o Marciano e seus benfeitores sabem que a imposição do crioulo é por megalomania e por ódio. O primeiro porque quer ficar na história e, ao mesmo tempo triturar as ilhas nomeadamente S.Vicente e sua gente, e o Marciano, pelo ódio que nutre ao Português que considera menos que nada.
    Eles sabem o mal que fazem à terra hesitante de medo, sabem o desastre, quer financeiro quer cultural, que estão provocando mas os seus interesses pessoais são maiores. O mais triste é ver um Primeiro Ministro a dar barraca e um Presidente da República a observar. E o Povo é simplesmente ignorado. O Povo amordaçado e sem a defesa dos seus Deputados escolhidos quando os deviam escolher para uma obra comum que é enfrentar o adversário ou mesmo o inimigo politico decidido na teimosia, no preconceito e na violação moral. Nada mudará se não houver a coesão para a alternativa se continuarmos mudos e imperturbàveis ouvindo impropérios e suportando vexâmes.
    Basta de assédio !!!

  4. Matrixx

    Deixem a natureza trabalhar e não forcem nada, os crioulos evoluem sozinhos. A criação de um Observatório dos crioulos de Cabo Verde, tendo como missão preservar a herança cultural de cada grupo de falantes, ao estudar os crioulos para melhor compreender como se formaram e evoluíram, registar os vocábulos que vão sendo criados, (não esquecer que os falantes é que fazem a língua e a enriquecem), os provérbios, as expressões enigmáticas, as lendas, os mitos, os contos do imaginário de cada um, etc. . A teoria que refere um crioulo maioritário é um subterfúgio para relegar os outros crioulos para segundo plano o que poderá contribuir para o seu desaparecimento ou modificação de forma forçada e tem mais a ver com acções políticas tendentes à preponderância de um grupo político. A diversidade em si é uma prova de como funciona a língua, a cultura e o conhecimento em cada grupo de falantes, pois cada grupo tem uma forma própria de pensar, de ver o mundo e de experienciá-lo, o que se traduz nas suas manifestações culturais sendo uma riqueza que não deve ser desprezada. A título de exemplo o crioulo de barlavento, mais propriamente o de S. Vicente, tem uma forma própria de humor, muito diferente da de sotavento e isso tem muito a ver com a forma de estar no mundo e das vivências dos sanvicentinos.

  5. Oldair

    Garanto-vos que ninguém vai impedir-me a mim e à minha família de falar o crioulo que entendermos. Qual gramática qual quê, cada um fala como quer e mais nada. A escrita dispensa-se que bem ou mal temos o português ensinado nas escolas e que nos permite falar com brasileiros, portugueses, angolanos, santomenses e até guinenses.

  6. Julio Goto

    Artigo 23 (Constituicao da Republica de C.V.)
    Principio da Igualdade
    Todos os cidadãos têm igual dignidade social e são iguais perante a lei,
    ninguém podendo ser privilegiado, beneficiado ou prejudicado, privado de
    qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de raça, sexo,
    ascendência, língua, origem, religião, condições sociais e económicas ou
    convicções políticas ou ideológica.

    A oficalizacao do BADIU do Veiga e Markianu Fidje de Podre e um previlegio par os oriundos de Sao Tiago.

  7. Djidjê

    Viva a Estado de Santiago na República Federal de Cabo Verde : Badiu será a língua deste Estado e Praia a sua capital

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