Os Crioulos de cabo Verde – Estatuto menor ou morte lenta

9/03/2015 15:03 - Modificado em 9/03/2015 15:03

OS CRIOULOS DE CABO VERDE ESTATUTO MENOR OU

MORTE LENTA (1)

 

Fátima Ramos Lopes

 

 

As línguas são entidades vivas em permanente evolução. As transformações que vão sofrendo efectuam-se de forma lenta, gradual e inconsciente, envolvendo a lei do menor esforço ou seja a tendência para se reduzir o esforço necessário para a pronúncia de certos fonemas assim como diversos outros fenómenos linguísticos (tais como supressões, substituição de sílabas, etc.) perfeitamente naturais e que contribuem para a formação de uma língua a partir de outra.

A língua está intimamente ligada à cultura e à história de um povo, reflecte os seus valores, as suas crenças, a sua forma de ser, pensar e estar. É através dela que são transmitidos às gerações seguintes os referidos valores, garantes da continuidade e da perenidade de uma sociedade. Uma criança que aprende a sua língua materna está a aprender e a interiorizar a sua própria cultura. Existe portanto uma forte interacção entre a língua e a cultura, sendo que aquela molda a cultura e vice-versa.

Os crioulos definem-se como línguas originadas a partir do contacto entre duas ou mais civilizações, comunidades linguísticas, uma das quais europeia. Incorporam traços de ambas ou das várias línguas envolvidas e constituem-se como língua-mãe de uma determinada comunidade crioula, como é o caso dos crioulos falados em Cabo Verde e noutras áreas do globo onde houve contacto directo de civilizações num mesmo solo. No caso particular do crioulo de Cabo Verde, pode-se afirmar, sem exageros, que o seu conteúdo lexical é composto maioritariamente pelo português, numa proporção superior a 95.0 % ou 99.0%, dependendo da ilha, as restantes percentagens sendo oriundas de línguas africanas (caso dos crioulos de sotavento) ou de outras línguas.

A génese dos crioulos decorreu de um longo processo (pelo menos 500 anos), que culminou, modernamente, nas formas actualmente utilizadas no mundo e em Cabo Verde.

O crioulo (composto por 9 versões) é a língua materna dos cabo-verdianos, adquirido e formatado no primeiro contacto com a realidade e desde logo tornado instrumento de comunicação no dia-a-dia. Neste artigo, designo como crioulo todas as variantes do mesmo, faladas no arquipélago, porque em cada ilha realidades específicas tanto culturais como psicossomáticas moldam um perfil próprio no falar, com inflexões na semântica, na fonética e na entoação. É nesta lógica que defino crioulo de S. Vicente, de S. Antão, de Santiago, do Fogo, etc, e defendo as suas oficializações.

No caso do crioulo de S. Vicente, este resultou do encontro, da interacção e da miscigenação de vários crioulos falados no arquipélago, resultantes das sucessivas vagas migratórias de populações oriundas das vizinhas ilhas de Sº Antão e de Sº Nicolau, assim como do Fogo e da Brava, não negligenciando, obviamente, a contribuição das outras ilhas, tal como o Sal, Boavista e mesmo Santiago. Acresce a este facto o de que o crioulo de S. Vicente esteve em contacto directo com diferentes línguas estrangeiras. Primeiramente, beneficiou até recentemente de um contacto directo com a ‘língua mãe’, a língua portuguesa, devido à forte presença de contingentes militares e de profissionais liberais portugueses residentes nesta ilha. Por outro lado, a forte presença inglesa desde os primórdios da ocupação da ilha determinou uma influência não negligenciável de vocábulos de origem inglesa no crioulo de S. Vicente. Pode-se assim afirmar que S. Vicente constitui um laboratório linguístico vivo e natural onde o crioulo está em constante evolução mercê das interacções com o mundo. Este forte dinamismo do crioulo desta ilha constitui a sua riqueza.

Em Cabo Verde, a questão linguística tornou-se nos últimos anos uma questão central da sociedade cabo-verdiana em processo de consolidação da sua identidade nacional. Este assunto tem sido polémico, pois na prática alguns sectores têm tentado ir mais longe do que era suposto, impondo incorrectamente uma visão centralizada da problemática do crioulo, em torno de uma matriz que predefiniram como pura e genuína, que pretendem dever representar todos os crioulos do arquipélago, e que corresponderia à matriz de Santiago. É assim que quando referem à língua cabo-verdiana subentendem que se trata do crioulo falado nesta ilha, por ser a mais populosa do arquipélago, o que corresponde a um desrespeito pela diversidade do crioulo (composto por 9 versões) falado em Cabo Verde.

Uma língua encontra-se em risco quando diminui o seu número de falantes ou quando estes passam a utilizar de forma sistemática uma outra língua deixando de falar a sua, ou seja, são assimilados. Os grupos minoritários são empurrados para uma posição de desvantagem social e cultural, e inconscientemente vão assimilando a cultura e a língua do grupo preponderante. Este comportamento pode constituir, subconscientemente, uma forma de integração no seio do referido grupo, o que poderá corresponder a uma forma de dissolução dos valores e identidade do grupo integrado, acarretando uma perda da identidade cultural e histórica para os seus falantes. É assim que a oficialização de uma língua maioritária no seio de uma comunidade linguisticamente diversa condena implicitamente as línguas minoritárias a um desaparecimento e com ela todo conjunto de valores a elas associados, ou seja, a extinção da própria minoria enquanto comunidade linguística única.

Com o 25 de Abril de 1974 e independência em 1974, o(s) crioulo(s) cabo-verdianos ganharam prestígio, afirmação e abrangência, ao serem abandonados os complexos que outrora ensombravam a sua expressão (era politicamente incorrecto antes do 25 de Abril de 1974 exprimir-se em crioulo, em situações formais), ao mesmo tempo que, de uma maneira irrealista, tentou-se relegar o português para um segundo plano. Não é novidade para ninguém que a partir de 1975 alguns sectores da sociedade de então defenderam uma revolução linguística em Cabo Verde com a eliminação pura e simples da língua portuguesa. Esta é uma vã utopia, mas é infelizmente o argumentário político para quem faz do assunto sério e delicado, a oficialização do crioulo, uma bandeira de exclusividade. Este é o problema que assombra o actual debate sobre o crioulo, muito poluído por questões de ordem ideológica, quando as questões técnicas e políticas deveriam tomar, doravante, preponderância.

É impossível falar da oficialização do crioulo e não falar da problemática do português. Uma visão de guerra entre a língua portuguesa e o crioulo está fora do tempo e da época, não interessa a ninguém, e mormente os cabo-verdianos. A defesa da língua portuguesa em Cabo Verde é a defesa do crioulo e a defesa do crioulo é a defesa da língua portuguesa, pois estas línguas devem ser vistas como gémeas e não numa perspectiva maternalista ou paternalista de raiz conflituosa. A propósito desta problemática, o escritor Germano Almeida em tempos afirmou que o Crioulo não estava ameaçado de extinção em Cabo Verde, mas sim a língua portuguesa (2). Esta afirmação deveria preocupar muita gente, nomeadamente os responsáveis políticos, pois a oficialização do crioulo não pode ser vista como uma escapatória à presumível impossibilidade de o cabo-verdiano exprimir-se correctamente na língua portuguesa ou noutras línguas. É preciso saber que a competição internacional do mundo globalizado em que todas as nações e povos vão estar mergulhados, onde vender serviços e produtos se fará ao ritmo da internet, o facto de não se dominar línguas, de não se ter um discurso estruturado, poderá vir a ser penalizante. No séc. XXI, a comunicação escrita e oral será uma ferramenta essencial, tudo tem que ser apresentado em línguas internacionais, inglês em geral, ou alternativamente nas grandes línguas que ligam vastas comunidades linguísticas, o espanhol, o francês, e o português. O debate da oficialização do crioulo deve portanto incluir o debate de como operacionalizar a questão do bilinguismo, uma vez que, tendo em conta os condicionalismos de Cabo Verde, é irrealista ou mesmo utópico encarar prescindir-se da língua portuguesa como ferramenta de comunicação e trabalho. Este é um problema que exige uma reflexão muito ponderada, dada a sua complexidade. Qualquer fuga em frente ou solução voluntarista pode ter consequências irreversíveis e graves. Não se pode alimentar expectativas exageradas ou usar demagogia com um assunto tão delicado e que envolve o futuro do país.

O grande enigma que encerra a oficialização/padronização do crioulo em Cabo Verde é, na realidade, a forma como ela vai se processar. A oficialização do crioulo pode ser uma ferramenta útil para revivificar e redinamizar o crioulo, desde que seja reconhecida a existência de crioulos minoritários para que sejam utilizados como veículos de comunicação oral e escrita das diferentes comunidades, e, mais importante ainda, se se conceder espaço para que eles se afirmem nos diversos sectores da sociedade. Ela pode, todavia, transformar-se num instrumento de destruição de identidades, se se optar por uma via abrupta de unificação/fusão artificial dos crioulos, denominada padronização. Ao longo da história, tem-se verificado sistematicamente que as tentativas de extinção de uma ou mais línguas num país são explicadas por razões políticas.

A padronização de uma língua corresponde à instituição de um conjunto de regras gramaticais por que se vai reger a utilização da língua. No caso de Cabo Verde, deveria corresponder a instituição de regras comuns e básicas para todas as versões do crioulo. Todavia, muita gente não sabe em que é que consiste a padronização ou tem entendido este processo como a instauração de um crioulo padrão escolhido entre as 9 versões, desconhecendo-se os contornos deste processo, não estando clara a forma como vai ser implementado. Um tal projecto de padronização entendido desta forma acarretaria que, a longo prazo, os crioulos de Cabo Verde fossem forçados a extinguirem-se (seria decretado oficialmente a sua extinção e a escolha e eleição do crioulo padrão?), não por falta de falantes mas por serem coagidos a se suplantarem e/ou a misturarem-se, contribuindo assim, inconscientemente, para a morte lenta da sua identidade cultural e linguística. Temos que ter bem presente que uma língua morre quando morre o seu último falante. Este processo poderá, portanto, acarretar a perda gradual do crioulo falado em cada ilha, pelo facto de passarem a ter menos preponderância como veículos de comunicação escrita e passarem a ter um estatuto inferior como língua e pelo facto de se verem sobrepostas pela língua de um grupo dominante. É um processo que resulta assim na dissolução cultural da ilha, pela imposição de valores culturais alheios à sua própria identidade linguística. Ilhas, com fraca densidade populacional, são ambientes frágeis, que poderão ver o seu panorama linguístico ameaçado. Seria uma perda para a diversidade cabo-verdiana que os santantonentes começassem todos a falar sanvicentino ou que estes começassem todos a falar santiaguense. Assim, a tese oficiosa que pretende a fusão/assimilação das versões do crioulo de sotavento por uma baseada no crioulo de Santiago e a fusão/assimilação das versões barlavento por uma baseada no crioulo de S. Vicente, como preconizado por alguns teóricos, seria a todos os títulos um erro. Uma questão importante é saber como os ‘especialistas’ irão viabilizar e protagonizar esta inédita e utópica experiência linguística de laboratório, levado a cabo em tempo real e à escala do país real, para não falar dos meios e custos políticos e sociais envolvidos.

Mas se havia alguma dúvida sobre os verdadeiros propósitos dos mentores da oficialização, elas ficam esclarecidas quando se questiona sobre a ou as versões do crioulo utilizadas actualmente nos meios de comunicação social (rádio, televisão), nos aviões etc., ou ensinadas nos cursos. Outra questão que se coloca é a de saber por que se apresenta internamente e internacionalmente uma versão do crioulo como sendo a única genuína e oficial, votando-se as restantes ao silêncio.

Teme-se, portanto, que o fenómeno da oficialização e padronização venha a espoletar situações que ponham em risco a existência ou continuidade da diversidade linguística e cultural de Cabo Verde. Consequentemente, o(s) crioulo(s) cabo-verdiano(s), no sentido da diversidade e riqueza linguística cabo-verdiana, poderão estar condenados, a longo prazo, se as gerações futuras forem restringidas à aprendizagem de um único crioulo.

Se a oficialização do crioulo constituiu até agora um assunto pacífico para todos cabo-verdianos na medida em que deveria corresponder, em princípio, à valorização da sua língua materna, ela, todavia, poderá deixar de o ser, se o processo for mal conduzido e se servir para dividir as pessoas e o país.

Este cenário pode, à primeira vista, reflectir certo pessimismo, mas a longo prazo é muito susceptível de vir a acontecer, e só muito tarde se aperceberá do erro cometido, quando já não haverá possibilidade de arrepiar caminho.

Neste sentido, se compreendem as preocupações e ansiedades geradas no seio de vários sectores mais esclarecidos da elite cabo-verdiana.

Devemos todos estar atentos ao desenrolar do processo de oficialização ou simplesmente parar para reflectir sobre as vias alternativas para não virmos a estar confrontados com factos consumados de consequências incontroláveis.

Assim, considero que qualquer oficialização deve salvaguardar e respeitar os estatutos de cada grupo de falantes do crioulo e a sua coexistência em pé de igualdade com os demais, pelo que é indispensável uma fase longa de estudo aprofundado das diferentes versões do crioulo abrindo aos investigadores um enorme campo de estudos, investigação e produção de trabalhos com qualidade científica credenciada. A língua portuguesa poderá ser o refúgio e o amparo contra eventuais tensões regionais, bairrista ou étnicas de origem linguística no pós-oficialização. Por conseguinte, este processo deve ser efectuado no quadro do bilinguismo e não pode implicar de maneira nenhuma a ostracização da língua portuguesa.

No âmbito do que precede, deve-se levar a cabo investimentos na área do estudo e da investigação dos crioulos para que a sua implementação como língua oficial tenha o sucesso desejado e implique a protecção dos crioulos minoritários. É extremamente importante que este processo não seja levado ao rufar dos tambores, politizado, fechado numa visão única e comunitária. Deve-se recentrar o debate, torná-lo abrangente, participativo, democrático e levado a cabo em cada ilha. Todas as implicações devem ser estudadas, analisando os prós e os contras de cada decisão. A oficialização deve abranger todas os crioulos, ilha por ilha, sem discriminação alguma.

Urge pois:

– Valorizar todos os crioulos como línguas e que isto fique bem definido na constituição de Cabo Verde;

– Ter em consideração que negligenciar os crioulos considerados minoritários é colocá-los em risco de desaparecimento;

– Promover o acesso igual e indiscriminado de todos os crioulos aos principais meios de comunicação;

– Promover o uso de todas as versões do crioulo sempre que ocorrer a necessidade;

– Divulgar ou apresentar ao mundo todas as versões do crioulo;

– Fazer tudo para que se respeite a herança linguística de cada comunidade ou ilha, e tomar medidas por forma a assegurar que a sua língua seja transmitida às gerações futuras, evitando o risco de ela desaparecer; em cada ilha deve ser ensinado e estudado o crioulo que nela se fala;

– Fazer um estudo exaustivo e documentado de todos os crioulos cabo-verdianos e produzir material escrito e de apoio a todos, nomeadamente material didáctico;

– Fazer uma avaliação dos crioulos em risco, nomeadamente monitorizar a sua progressão em termos de número de falantes e grau de utilização, documentação escrita e registo, e incentivar a sua escrita e aprendizagem para evitar que desapareçam;

– Inventariar e registar os contos, lendas e tradições de cada ilha;

– Produzir dicionários, gramáticas ou outros meios didácticos que simultaneamente contemplem os diversos crioulos falados em Cabo Verde.

 

Considerando por fim que é impossível isolar Cabo Verde do Mundo e da Comunidade Lusófona, e que a língua portuguesa é uma herança do país, considero que é imprescindível:

– Preservar o actual estatuto da língua portuguesa e melhorar o seu ensino;

– Generalizar o bilinguismo em Cabo Verde e adoptar medidas para que todos os cabo-verdianos expressem correntemente em português e que dominem o inglês e eventualmente o francês/espanhol.

Convinha deixar claro que embora seja favorável à instauração do bilinguismo em Cabo Verde, mesmo assim continuo céptica em relação à eventual adopção num futuro próximo do crioulo no sistema educativo cabo-verdiano, não somente devido às dificuldades que um processo feito a pressa enferma e enfrentaria, mas também pela falta de transparência e diálogo sobre o mesmo, já viciado por alguma deriva etnicista, inspirando portanto alguma desconfiança e apreensão. Também porque duvido da sua viabilidade actual tendo em conta os constrangimentos do país, dos custos/benefícios desta estratégia, quando se perspectiva a inserção do país na comunidade Lusófona e no Mundo.

 

  • OS CRIOULOS DE CABO VERDE – ESTATUTO MENOR OU MORTE LENTA, in Cabo Verde, os Caminhos Da Regionalização, p. 294-299, 2014

http://noticiasdonorte.publ.cv/17658/os-crioulos-cabo-verde-estatuto-menor-morte-lenta/

 

  1. Eduardo Oliveira

    Lenta ou brutalmente, se fizerem este genocidio terão contas a dar sobretudo às gerações futuras. Não so eliminam nove falares (nossa riqueza) como assassinam a lingua que é o nosso elo de ligação intra e extra muros.
    Ainda ninguém pensou que os Governantes serão obrigados a falar com tradutores em qualquer parte do Mundo. Serà a repetição da barraca da ONU.
    E que não venham dizer que foi a vontade do Povo, embora este esteja a ver a banda passar enquando bebe um copinho descontraidamente.

  2. Julio Goto

    Ninguem ve a banda passar. Banda (alupecadora) sempre esteve encarcerado longe do Ze Povinho.O Ze povinho nao consegue sair das ilhas quanto mais tomar conhecimento do Instituto do Creol Caboverdeano cedeado no Estados Unidos da America,cujos donos sao fantasmas da Rep. de Saotiago,Manuel Gonsalves ,Manuel Veiga e um tal Monte de trapo oh !Montronde.
    A(s) lingua8S) caboverdeana nada tem a ver com o Ze Povinho e problema dos politicos Manuel Veiga.
    Sr, Jorge C. Fonceca abre la a boca.

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2017: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.