Quatro partidos espanhóis disputam a vitória num cenário sem precedentes

9/03/2015 08:55 - Modificado em 9/03/2015 08:55
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podemosA vontade de mudança dos espanhóis não pára de fazer tremer o tabuleiro político no ano de todas as eleições na Espanha. Se em Novembro foi o partido Podemos a surgir pela primeira vez numa sondagem à frente dos conservadores do PP e dos socialistas do PSOE, provocando um sismo inédito na política do país, agora é o Ciudadanos que se aproxima da formação de Pablo Iglesias e dos dois partidos que os espanhóis se habituaram a ter no poder, metade do tempo com maiorias absolutas.

Já não havia dúvidas sobre o fim do bipartidarismo. Mas a ascensão meteórica nas intenções de voto de um partido que nasceu em 2005 como movimento catalão anti-independentista e só em 2014 surgiu como formação nacional (os Ciutadans passaram a Ciudadanos) baralha ainda mais as contas antes das legislativas previstas para Novembro, mas que o primeiro-ministro conservador, Mariano Rajoy, pode decidir antecipar.

Pelo terceiro mês consecutivo, o partido nascido do movimento dos indignados mantém-se à frente na sondagem do instituto Metroscopia para o diário El País – apesar de se estabilizar nessa posição, o Podemos desce cinco pontos desde Fevereiro e surge com 22,5% de votos.

Se em Fevereiro os eleitores colocavam os socialistas em terceiro, atrás do Partido Popular, no poder, agora, depois do debate da nação em que Rajoy foi visto como derrotado, é o PSOE que aparece logo a seguir ao Podemos, com 20,2%. Quase 2% atrás surge o PP, que soma 18,6% (e baixa seis pontos desde Fevereiro) e está praticamente empatado com o centrista Cuidadanos, que reúne 18,4 das intenções de voto.

Esta sondagem, como todos os inquéritos, não é mais do que um retrato do estado de ânimo dos eleitores num dado momento. Mas a análise das sondagens dos últimos meses chega para se poder afirmar com certezas que nem o Podemos nem o Ciudadanos são fenómenos de curta duração. Os próximos meses, com as eleições autonómicas e municipais de Maio (antes ainda, daqui a duas semanas, vai a votos a região da Andaluzia) e as catalãs de Outubro vão permitir ter uma visão mais clara do país que no fim do ano decidirá a constituição do novo Congresso.

Enquanto os dois partidos da alternância se mantêm no pódio, apesar de o fazerem nos seus mínimos históricos, e os dois novos jogadores aguentam a passagem do tempo (ou mostram ter ainda margem para crescer – o Ciudadanos chegava aos 12% nos últimos meses), quem quase desaparece são as duas formações que nos últimos anos tentaram apresentar-se como alternativa (e fizeram, de facto, oposição no Parlamento) sem nunca o terem conseguido: a Esquerda Unida em coligação com os Verdes fica-se pelos 5,6%; a UPyD (criado em 2007 por bascos e políticos que abandonaram o PSOE) não vai além dos 3,6%.

Na prática, o que sai desta sondagem é um empate técnico entre os quatro mais votados, com menos de quatro pontos de distância entre si, todos longe de uma maioria que permita a um deles reclamar com tranquilidade o direito a governar. Isto numas eleições que, a realizarem-se hoje, seriam muito participadas, com 74,6% a planear ir às urnas (um pouco acima dos 71,6% de 2011).

Fim de etapa
Nada que preocupe – ou deva preocupar – os espanhóis. Aliás, a maioria dos ouvidos nesta sondagem, 71%, diz que prefere que o partido mais votado governe sozinho, “com apoios pontuais de outros partidos”. Uma vontade que atravessa os potenciais eleitores dos quatro partidos: 82% no caso do PP, 71% dos do PSOE, 70% no Podemos e 77% dos que consideram votar no Ciudadanos.

“Há quatro anos que os espanhóis reclamam uma regeneração de fundo dos partidos existentes ou, em alternativa, o surgimento de novos. Foi a segunda opção que acabou por acontecer. Podemos, primeiro, e Ciudadanos, depois, fizeram uma irrupção fulgurante que só pode ser desconcertante e inesperada para quem não seguiu com atenção o pulsar cidadão ou ignorou os sinais, múltiplos, de aproximação de fim de uma etapa”, escreve no El País o sociólogo José Juan Toharia, presidente do instituto de investigação da opinião pública que realiza as sondagens mensais para o jornal.

Toharia fala de fim de etapa mas não de trajecto, sublinhando que 84% dos inquiridos continuam a identificar-se com o actual sistema democrático e 75% considera que os partidos são necessários, mesmo se 70% se diz insatisfeito com o modo como a democracia funciona hoje.

Enquanto exigiam reformas no funcionamento democrático, os espanhóis iam ficando cada vez mais fartos dos inúmeros casos de corrupção que envolvem altos governantes dos que eram até aqui os partidos principais, assim como da crispação alimentada pelos líderes do PP e do PSOE. A crise económica e social só poderia transformar-se numa crise institucional em busca desesperada por algo de novo.

Com naturalidade
Os espanhóis responsabilizam os socialistas por não tem antecipado a crise do euro e os conservadores por terem lidado com esta com medidas de austeridade que fizeram aumentar o desemprego e afastaram muitos cidadãos de serviços básicos que um Estado deve assegurar, como o direito à habitação (só no primeiro semestre de 2014, os habitantes de 19.500 casas foram despejados ou entregaram as casas aos bancos por não conseguirem pagar as hipotecas), o acesso a cuidados de saúde e à educação, cada vez mais caros.

É assim com naturalidade que 77%, dos espanhóis diz que que o melhor para a Espanha é que PP e PSOE deixem de ser os únicos protagonistas da vida política, preferindo, em vez disso, que volte a ser fundamental a quem está no poder negociar com os restantes. Metade dos eleitores também não acredita que a interrupção do bipartidarismo possa implicar algum prejuízo para a recuperação económica.

Porque os dados que indicam um desagrado com o funcionamento dos partidos – 70% dos ouvidos neste inquérito diz-se pouco ou nada satisfeito – não são de agora. Já em 2012, 65% dos espanhóis pedia uma mudança de liderança nos principais partidos e reformas que mudassem a forma como estes são geridos.

Claro que a implantação nacional de socialistas e populares é incomparável à do Podemos e do Ciudadanos, cujas estruturas locais ainda estão a ser postas de pé. Por outro lado, os líderes de ambas as formações – com imagens quase opostas: Iglesias, o académico revolucionário; Alberto Rivera, o técnico bem preparado e bem-parecido – são marcas muito fortes.

Rivera, o jovem líder do Ciudadanos, com 35 anos, é o líder mais popular do país e o o único chefe partidário que surge nesta sondagem com saldo positivo – destronando Iglesias, que no fim de 2014 era o líder mais valorizado e o único a conseguir nota positiva, com mais mais aprovações do que desaprovações.

 

publico.pt

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