Diálogo sobre a questão da “Língua Cabo-verdiana”

9/03/2015 08:29 - Modificado em 9/03/2015 08:29

DIÁLOGO  SOBRE A QUESTÃO DA “LÍNGUA CABO-VERDIANA”

I Parte

(Este diálogo é entre duas personagens fictícias e terá continuação)

 

Filinto:  ̶  Esta questão do crioulo está como a discussão do sexo dos anjos, uma discussão bizantina, não é verdade, Elísio? Não me parece que haja muito a discutir se é irreversível a decisão sobre a  oficialização do crioulo e tudo o resto que  se espera da “língua cabo-verdiana”.

Elísio:  ̶  Filinto, não vejo que alguma vez tenha existido uma discussão sobre esta matéria, quanto mais poder-se dizer que ela  tanto se arrastou que se tornou bizantina. O assunto esteve sempre sob o domínio exclusivo  de um número restrito pessoas, quais vestais de um templo sagrado, que se presumiram donas da verdade absoluta, e neste momento o ponto de situação se centra apenas na auscultação da opinião das forças políticas representadas na assembleia nacional. A sociedade foi completamente excluída do que devia ter sido um debate à escala nacional, necessariamente num ambiente de pluralidade de ideias e opiniões. E não faltaram especialistas, colunistas e comentadores que, ao longo do tempo, se pronunciaram por iniciativa própria na imprensa, mas  sem nunca  lhes ter sido dada a mínima atenção.

Filinto:  ̶  Está bem, amigo, mas o que mais poderia advir de  valorativo para instituir dignidade nacional ao crioulo?

Elísio:  ̶  Olha, está em causa uma decisão de importância crítica para o futuro do país e dos cabo-verdianos. Como poderia ela ter ficado refém  de algumas pessoas que se convencem dotadas do dom da infalibilidade? Isso alguma vez existe nas ciências sociais, para mais na delicada e complexa questão do fenómeno linguístico? Acaso Cabo Verde não tem mais cabeças pensantes e especialistas na área? E será que o problema é apenas linguístico, ou, bem mais do que isso, não estaremos perante uma questão eminentemente estratégica pelo conjunto diversificado das suas implicações no presente e no futuro? Voltando à questão da discussão bizantina, lembro-te que os termos da dialéctica são a tese, a antítese e a síntese. A tese é a afirmação ou ideia inicial, a antítese é a sua negação, e a síntese resulta do produto final do confronto, e ela pode até reconduzir a uma nova tese, derrogada a razoabilidade ou a sustentação da primeira. Achas que a dialéctica existiu no tratamento da questão do crioulo? Portanto, repito que é errado falar em discussão bizantina, se isso traduz simplesmente a ideia de que houve um exaustivo e cabal tratamento dialéctico do tema. Mas, por outro lado, aquela expressão até ganha certo sentido, e aí terás razão, se pensarmos que o que aconteceu até agora decorreu num ambiente de total alienação das realidades nacionais.

Filinto:  ̶  Então, achas, companheiro, que tudo está para ser decidido sem que tenha havido uma franca e aberta discussão a nível nacional? Mesmo que as forças políticas venham a ser ouvidas e dêem o seu contributo?

Elísio:  ̶  Mas, oh Filinto, sejamos realistas, rapaz. Como pode um problema desta natureza limitar-se ao âmbito político? A decisão já tomada foi, erradamente, política, e pretende agora consumar-se no estrito terreno privado da política, quando se trata de uma matéria tão importante que, a meu ver, até devia justificar um referendo nacional. Reafirmo, não se trata de uma questão política como um aumento da carga fiscal, uma revisão do Código Penal ou a privatização de um banco. É o futuro que está em causa, o que devia por si só desaconselhar a vinculação do problema a qualquer conjuntura política ou ao ideário deste ou daquele político que transitoriamente passa pelo poder. O assunto devia ter sido o mais escrutinado possível, e jamais ignoradas as vozes que se têm exprimido no sentido contrário ao pensamento do governo.

Filinto:  ̶  Como podes induzir que não há consenso nacional sobre esta matéria? As populações de todas as ilhas não estão ciosas do seu falar crioulo? E quando se diz que não vai ser exequível a padronização do crioulo em torno do de Santiago, será que não se reconhece que essa ilha é a maior e a mais populosa do arquipélago?

Elísio:  ̶  Ora, aí estão questões pertinentes merecedoras de clarificação. É um facto consabido que não há consenso nacional, e o argumento de que as populações das ilhas estão ciosas do seu próprio crioulo mais o comprova. Além disso, nestas coisas da língua nem sempre é válido o princípio da maioria. As populações de S. Vicente, S. Antão e S. Nicolau têm direito ao crioulo que lhes está entranhado na alma e no coração, do mesmo modo que as da ilha mais populosa reclamam o seu. Não é a aritmética que conta neste tipo de fenómeno, nele preponderam o enraizamento e o entrelaçamento de factores sociais e psicológicos os mais variados, em que o sentimento comunitário, as memórias antigas e o património de vivências comuns têm uma força incomensurável. Ora, o  crioulo é o cimento agregador das especificidades humanas em cada uma das comunidades sociais. Não se pode decretar a sua extinção. Não há volta a dar-lhe, amigo.

E, já agora, permite-me que te conte um episódio que o ilustra de uma forma flagrante. Há uns anos, um deputado discursou na assembleia nacional em crioulo de Santiago e, no fim, como houve colegas que alegaram não  o perceber, ele, arrogantemente, aconselhou-os a “fazer o trabalho  de casa”. Em seguida, para lhe dar o devido troco, um deputado discursou, propositadamente,  no crioulo  “fundo” de S. Antão, e como a reacção de alguns de Santiago foi em tudo semelhante, ele respondeu da mesma maneira que o colega santiaguense. Vê lá tu o que poderá acontecer na esfera das vivências sociais comuns, se é a própria assembleia nacional que nos comtempla com semelhante exemplo de clara e acintosa clivagem.

Filinto:  ̶  E em que é que nisto tudo entra o ALUPEC?

Elísio:  ̶   Oh rapaz, já viste as horas? O ALUPEC fica para depois. Vamos continuar esta conversa amanhã à mesma hora. Neste mesmo Café, o “Crioula”

 

Tomar, 8 de Março de 2015

Adriano Miranda Lima

  1. Djosa

    E porque não se “revoltar” contra as sistemáticas imposições do governo? Atenção que quando digo “revoltar” não estou a incitar as pessoas a conflitos. Estou a pedir as pessoas que abram os olhos e que saiam às ruas para demonstrar o seu desagrado face ao que vem sendo feito em Cabo Verde. O povo não deve ser consultado apenas de 5 em 5 anos aquando da CAÇA AOS VOTOS. Ter multidões de gente apenas no Carnaval, Enterro de Mandinga, Festival… e no CORDÁ MONTE DE CARA aparecer apenas quatro gatos-pingados é néctar para os políticos da PRAIA. Estamos conversados!

  2. Valdemar Pereira

    1°)

    A hora é de indignação e espero que venha (em breve) a estar na alta da bolsa dos nossos valores morais.

    O meu amigo, Adriano, um dos companheiros de momentos de Reflexão, nos aparece convidando-nos a constatar os malefícios dos “grandes” quando muitos atravessam momentos insuportáveis.

    Não me refiro às condições de vida que se degradam perigosamente, e das esperanças de melhores dias que se evaporam como gotas que somem no chão seco, mas da sentença declarada para a abolição dos falares que o Povo criou e melhorou durante séculos.

  3. Valdemar Pereira

    2)

    A hora é de indignação e por isso há que levantar a voz para dizer que somos NOVE e não queremos ser cobaias para testes de laboratório.

    O grito de manifestação das mulheres e dos homens dignos é uma obrigação nacional, é altamente necessário para a resistência reguladora da normalidade.

  4. Maria Inês

    É este tipo de diálogo que devíamos ter tido desde que começaram com a ideia macaca de inventar um problema linguístico em Cabo Verde. Espero agora para ver se os patrícios ao menos vêm aqui participar e deixar as suas opiniões e achegas. É pelo nosso silêncio colectivo e consentido que os homens do poder têm feito de nós gato e sapato.
    Viva Cabo Verde, com todos os seus crioulos e com a língua portuguesa.

  5. Mário João

    Está mais que visto que a questão é política e mais nada. Eles estão-se borrifando para o país e o problema do crioulo é um faz de conta para enganar o pagode.

  6. Ema Rodrigues

    .Estamos perante uma descarada guerra ràcica
    Falta-nos a coragem para avançarmos com nossos medos e contra eles também. Falta-nos a coragem para interrogar, para remover, para provocar uma implosão, e enfrentar o peso que nos esmaga. Sem isso, o medo continua a nos encurralar num cerco que nos impede de cumprir nossos deveres e nossos sonhos. Há que vencer o medo para combater o chauvinismo, o bairrismo, o delírio, o fanatismo e a xenofobia.Tanto mais que somos um pais de paises.

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