Cabo Verde 40 anos após a Independência

23/01/2015 20:04 - Modificado em 23/01/2015 20:04
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Cabo Verde 40 anos após a Independência  

 

1ª Parte- Quando o Cabo Verde moderno renasceu em S. Vicente

 

Com este artigo dou o início a uma série de artigos alusivos aos 40 da Independência de Cabo Verde. Como não podia deixar de ser, nos dois primeiros artigos faço referências à história de Cabo Verde e contextualizo o papel de S. Vicente na sua geração e formação, num momento em que a insurgência de um certo fundamentalismo tenta reescrever a História à sua maneira, conveniência e interesse. Cabo Verde é hoje um Livro Branco, um repositório de todas as narrativas falaciosas, lendas para consumo local, e especulações diversas para justificar opções políticas e económicas passadas actuais e futuras. Para que a narrativa se cole aos novos tempos e às novas vontades, revelam-se ao público ‘épaté’, atónito, descrições de alegadas epopeias gloriosas, combates épicos com as forças coloniais, focos de resistência, etc, tudo isso, imaginem, em solo cabo-verdiano. É claro que neste glorioso cenário, centenas de novos heróis fazem-se luz, impõem-se e recompensam-se: um punhado de combatentes engendra centenas de outros, e toda a clientela que gravita à volta, qual o milagre da multiplicação dos pães e peixes. É claro que tudo isto tem implicações financeiras: é suportado pelo magro erário público cabo-verdiano, ele mesmo dependente da ajuda externa. Como escrevi em tempos estamos na era do conhecimento e da informação, e simultaneamente na era de uma grande desorientação social, política, religiosa e ideológica. Aquilo que era ontem uma verdade quase absoluta parece tornar-se uma inverdade amanhã, com um simples ‘clickar’.

Assim não agradará a alguns, mas é um facto que a ilha de S. Vicente, mais propriamente na cidade do Mindelo, graças a um histórico concurso de circunstâncias e a conjugação de factores externos e endógenos, jogou um papel fundamental na génese do Cabo Verde moderno, na passagem à modernidade, após o que foi considerado uma longa noite colonial, quando o arquipélago deixou de ter a importância estratégica no seio do império português e mergulhou no marasmo. É ainda nesta cidade que se criam as condições políticas em 1974 para a existência do Cabo Verde que se conhece hoje, ou seja, um país independente, uma situação criada por um evento inesperado, extraordinário, que foi o 25 de Abril. Se houve luta política e social no arquipélago, no período colonial recente, antes do 25 de Abril, ela ocorreu essencialmente em S. Vicente, a ilha onde, entre outros, os cabo-verdianos ‘aprendiam a ser gente’, cultivavam-se através do acesso à cultura e melhor se inteiravam do que se passava mundo, transformando-se, assim,  em cidadãos cabo-verdianos. E não podia ser de outra maneira, pois tirando os dois principais burgos do arquipélago, Mindelo e Praia, o resto de Cabo Verde ‘era paisagem’, a tal ‘pasmaceira’, com inúmeras localidades/aldeias abandonadas a elas mesmas. Inclusivamente acredita-se que uma parte da consciencialização política e cidadã de Amilcar Cabral (e de vários dirigentes de Cabo Verde) foi adquirida na cidade do Mindelo, numa altura da sua formação liceal e humana (anos 30), onde aí fervilhavam actividades intelectuais e socio-culturais. Lá porque esta ilha/cidade hoje nem sombra do seu glorioso passado é, pretender rebaixar o seu papel na História moderna/contemporânea de Cabo Verde e valorizar artificialmente outros, não fica bem.

Foi precisamente em S. Vicente, nos meados do século XIX, que dava à luz o novo Cabo Verde e surgia um autêntico homem novo cabo-verdiano, que rompia com a vida rural, semi-feudal do fim da escravatura, para abraçar uma vida urbana livre, sob impulso do capitalismo mercantilista britânico, que estabeleceu os seus arraiais em torno da Baia do Porto Grande, com o intuito de controlar para o seu império, a importante rota do Atlântico Médio, que já tinha sido exclusiva do império português.

  1. Vicente encarnava para o cabo-verdiano, fechado no horizonte montanhoso da sua ilha natal, um El Dorado, a liberdade, o trabalho, o mundo e sobretudo a perspectiva da emigração. A conjugação da massa crítica social, a existência do porto associado à atractividade que exercia a presença britânica no mesmo, e as condições socioeconómicas liberais assim proporcionadas forjaram na ilha um espírito de abertura ao mundo e uma identidade peculiar. Esta identidade nascida do urbanismo, e a industrialização, seria o molde, o substrato para a identidade cabo-verdiana moderna, que iria, como estudiosos defendem, potenciar as aspirações para a formação da nação Cabo Verdiana do século XX e mesmo o estado independente.

Sobre este ponto, a relação entre a identidade cabo-verdiana moderna e a cidade do Mindelo, Ondina Ferreira (1)  escreve: Aproveitaria esta oportunidade para transcrever excertos de um texto que retirei do “blogue” «Arrozcatum» de Zito Azevedo “ (…) na segunda metade do séc. XIX, Mindelo torna-se um pólo de atracção para camponeses sem terra, que fogem da fome e da miséria, para famílias de importantes proprietários agrícolas ou comerciantes que aqui encontram melhores oportunidades de negócio e também para aqueles que, por serem mais escolarizados, podem encontrar bons empregos na Administração e Serviços. Vêm principalmente das ilhas de Santo Antão e São Nicolau, mas ao longo dos tempos é todo o arquipélago que aqui se cruza. No dizer de Onésimo Silveira, S. Vicente é a única ilha povoada por cabo-verdianos.”In: «Arrozcatum» blogspot.com, Zito Azevedo, “A Formação da Sociedade Mindelense“. Esta asserção a negritos da tese de Onésimo Silveira – e é aí que a transcrição tem sentido para este escrito – relativamente ao povoamento inicial da ilha de S. Vicente, com algumas tentativas conhecidas a partir do século XVIII, vem ao encontro da tese da identidade já completamente formada, cujos sujeitos povoadores, vindos de outras ilhas, maioritariamente, de Santo Antão e de S. Nicolau aportaram a S. Vicente – a última a ser povoada – O que só exalta o papel do mestiço, isto é, do filho das ilhas que pôde inclusivamente, povoar uma das ilhas do arquipélago cabo-verdiano. Adriano Lima acrescenta interrogações pertinentes sobre esta temática: para quê tanta preocupação com a nossa questão identitária?. O povoamento da ilha de S. Vicente gerou um cabo-verdiano liberto de complexos étnicos e culturais e é por isso que a mentalidade e as inclinações idiossincráticas do homem do Mindelo são as mesmas, sem distinção de cor de pele ou estrato social ou cultural. Não é que eu queira fazer a apologia do perfil humano do mindelense, até porque a sua mentalidade tem aspectos passíveis de censura, mas se há processo de mestiçagem a merecer curiosidade histórica é o que ocorreu em S. Vicente. E note-se que o processo não se circunscreveu à ilha do Porto Grande, propagou-se e influenciou o cabo-verdiano de outras ilhas, momente no Grupo Barlavento, e é isso que os “ascentralistas” não aceitam por denegar os pressupostos da sua  abordagem política do tema“.

Com a independência, nasce um novo paradigma baseado na ideologia reinante dos anos 60/70. A visão de desenvolvimento que imperava então, era a revolucionária e justicialista, eivada de um certo maniqueísmo, que consistia na ruptura com o passado, uma tentativa de mudar o mundo e libertar os Homens corrompidos espiritualmente pelo colonialismo. Na realidade, segundo os ideólogos, os países recém-nascidos da descolonização deviam fazer uma ruptura com o passado colonial, mudar 180º o rumo, marginalizar aquilo que os colonialistas privilegiaram e priorizar aquilo que foi marginalizado e oprimido, numa tentativa de vingar as injustiças, e de extirpar as sequelas do colonialismo. Uma tal política, segundo eles, libertaria definitivamente o país, ao romper com o passado. O drama destas teses, bem-intencionadas, em que se tenta aplicar a justiça linearmente e mecanicamente, é que os seus resultados podem ter efeitos contraproducentes ou nefastos. Acontece que, segundo alguns ideólogos fundamentalistas, S. Vicente, pela forte presença ocidental e colonial, era precisamente a ilha filha legítima do colonialismo, a sua aliada dilecta. Opções tomadas num prisma  exclusivamente ideológico, como aconteceu em 1975,  não poderiam, pois, eleger, logo à partida, a ilha como motor do desenvolvimento de Cabo Verde, e redundariam a longo prazo no nivelamento por baixo do arquipélago e na queda vertiginosa da ilha. Onde tudo ficou mais complicado é que na ausência de projecto credível para Cabo Verde, o investimento no interior do país não se saldou no desenvolvimento da agricultura que pudesse gerar uma auto-suficiência alimentar e uma nova economia. Sem agricultura, indústria e turismo, não havia motores de desenvolvimento, as perspectivas para o país tornaram-se sombrias: sem fonte de receitas, Cabo Verde transformava-se num eterno assistido da comunidade internacional.

Janeiro de 2015

José Fortes Lopes

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