Noites em branco

16/01/2015 07:58 - Modificado em 16/01/2015 07:58

Olá filho.

 

Carne da minha carne

Sangue do meu sangue

Sonho do meu sonho

Fruto da minha entranha

 

Depois dessa triste notícia estive revendo o filme da tua infância através das nossas fotografias. Vendo-lhes, recordei-me de quando eras um traquina. Do teu primeiro dia na escola. Não querias ficar lá nem flaça, das tuas guerras com os colegas, dos teus primeiros testes; Tiveste uma boa infância. Mexi nos teus guardados e encontrei esse colarzinho que a tua mãe fez com os teus dentinhos. Sei que não aprecias que mexam nas tuas coisas…

 

Ainda bem que a Raquel já não se encontra entre nós, morreria por ver o que fizeste da tua vida. Deu-te bons conselhos no leito da morte, pediu-te para seres um bom varão. Porque não atendeste o seu pedido?! `A voz daquele pai tremia. Entraram por um ouvido e saíram pelo outro a mil. Tiveste de um tudo. Demos-te carinho, apoiamos-te em quase tudo. Será que fomos culpados por te dar amor sem limite? Pusemos-te nas melhores escolas… A tua irmã soube aproveitar o nosso esforço. Como é possível que duas crianças que tiveram as mesmas oportunidades possam ser tão diferentes!

Onde foi que erramos filho? Essa é a paga que mereço? Tiveste o que nunca tive. Não sei o que é ter um cacique, cresci só. Comecei a trabalhar cedo. Não tive ninguém para me correr a mão na cabeça.

Desde o dia que resolveste andar com aquela Raquel senti que a nossa trémula relação pioraria.

Quantas noites passei em branco pensando onde e com quem é que estavas! Descansava quando entravas em casa. Tinha um enorme pavor quando o telefone tocava. Dizia para mim mesmo. – Será que é alguém querendo informar-me que tinha-te acontecido algo!? Passei a viver numa ansiedade enorme.

 

Jamais esquecerei da noite de ontem. Quando a tua irmã bateu no ádito da minha alcova para dizer-me que dois agentes da lei queriam falar comigo senti um frio na espinha, minhas pernas custaram a ficar de pé. Ao me perguntarem se eu era teu pai senti uma tontura apoderar-se de mim. Confirmei que sim e pediram-me desculpas pelo adiantado da hora e por serem portadores de má notícia. – Por favor, digam-me o que aconteceu? – Interrompeu-lhes aquele pai. Disseram-me que tiveste um desastre de carro com uns amigos na estrada do Calhau e que…

 

– Pai. Está na hora.

– O quê filha?

– Está na hora do funeral. O carro da agência funerária veio buscar o mano.

– Adeus meu filho.

 

Ronaldo Andrade

 

  1. Amiga*

    grande artigo e mostra a preocupação dos pais nos dias de hj…boa Ronana

  2. Kay

    Parabens Ronana, um gosta. Continua…. Abr

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