As bombas podem ajudar a destruir o “califado” mas não vão travar o extremismo

5/01/2015 08:44 - Modificado em 5/01/2015 08:44
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siriaOs jihadistas que controlam grande parte do Leste da Síria e quase metade do Iraque vão perder território. Até podem já ter iniciado a sua autodestruição, mas enquanto houver tiranos no poder o seu discurso vai manter poder de atracção.

O autoproclamado Estado Islâmico não apareceu em 2014 e dificilmente irá desaparecer em 2015. Com raízes na Al-Qaeda e criado a partir de um grupo que nasceu no Iraque para combater a ocupação norte-americana e os xiitas que os Estados Unidos colocaram no poder depois de derrubarem Saddam Hussein, alimenta-se da ditadura de Bashar al-Assad e da tirania dos que têm liderado o Iraque.

De Estados Islâmico no Iraque passou a Estado Islâmico no Iraque e no Levante (ISIS), querendo assim anunciar o seu projecto territorial — o termo Levante era usado pelos franceses para designar o Mediterrâneo Oriental e, para além da Síria histórica, que incluiu o Iraque e o Líbano, corresponde a uma mancha que alcança o Sul da Turquia, partes da Jordânia, Palestina, Israel e até de Chipre. Em Junho, passou a designar-se apenas por Estado Islâmico para acompanhar a sua declaração de um califado, a instituição que organizou a comunidade árabe muçulmana desde a morte de Maomé até que Ataturk decretou o seu fim.

Líderes muçulmanos das mais importantes mesquitas rejeitaram esta declaração, mas o objectivo simbólico estava cumprido. Foi graças à declaração de um estado que o grupo conseguiu continuar a atrair militantes — cada vez mais oriundos da Europa — aos quais oferece um modo de vida e um sentimento de pertença embrulhados na necessidade de combater a injustiça imposta aos muçulmanos por déspotas como Assad. “Muitos jovens que partem para se juntar aos jihadistas ainda não estão radicalizados, vão por estar cansados de ver as imagens de sírios chacinados”, diz o académico Álvaro de Vasconcelos.

O grupo que não é nem um estado nem islâmico não conta com grande apoio entre os muçulmanos: uma sondagem encomenda pelo think tankWashington Institute e realizada em Setembro concluiu que o ISIS é apoiado por 3% dos egípcios e 5% dos sauditas; entre os árabes sunitas do Líbano, o grupo chega ao 1% de apoiantes. Sondagens realizadas nos Emirados Árabes Unidos ou no Kuwait tiveram resultados semelhantes. Entre os que apoiam os extremistas poucos o fazem por razões religiosas, antes por verem neles uma opção política à realidade que conhecem.

No terreno, os jihadistas liderados por um iraquiano, Abu Baqr al-Baghdadi, têm sofrido perdas militares e enfrentam divisões internas. Terão exagerado nas suas ambições. Conquistaram demasiado território demasiado depressa e agora penam para o manter. Afinal, o grande feito do Daesh (o nome árabe, que sírios e iraquianos continuam a usar), que nunca ultrapassou os 30 a 35 mil combatentes, foi ter sido descrito pela Administração de Barack Obama como uma organização “apocalíptica”, que “vai mais longe do que tudo o que já tenhamos visto”.

Como vários académicos sírios anteciparam, os Estados Unidos só decidiram intervir militarmente na Síria quando sentiram que a sua segurança estava em causa. Foi preciso que os radicais executassem um jornalista norte-americano, James Foley, em Agosto, para Barack Obama decidir agir contra a ameaça que os sírios e os iraquianos sofriam há muito no seu quotidiano.

As execuções de Foley e do jornalista norte-americano Steven Sotloff, mais as dos trabalhadores humanitários britânicos Alan Henning e Davis Haines, e do também norte-americano Peter Kassig, um ex-soldado que formara uma ONG para ajudar os sírios, levaram Obama a construir uma coligação improvável, com a participação de europeus e árabes e que não desdenha o apoio do Irão.

Inimigo comum
As bombas desta coligação impediram que os radicais tomassem Kobani, a cidade curda síria junto à fronteira turca. No Iraque, milícias xiitas vieram do Sul (a juntar às que o ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki criara para defender Bagdad) e agora lutam ao lado de tribos sunitas e de combatentes curdos para recuperar as zonas que os radicais tomaram quase sem resistência nos últimos oito meses. Os norte-americanos regressaram para treinar e aconselhar as forças iraquianas, outros países na NATO, incluindo Portugal, enviarão em breve militares com o mesmo objectivo.

Como na Síria, onde alguns grupos de nacionalistas seculares começaram por se unir aos jihadistas para combater Assad, antes de se revoltarem contra a sua barbárie, assiste-se agora na região a uma improvável união de forças. “Toda a gente está a ajudar o Iraque nesta batalha, imagine-se os americanos e os iranianos juntos”, diz o iraquiano Abu Mohammed numa conversa com Ali Hashem, colunista do site regional Al-Monitor. Abu Mohammed tornou-se combatente, como muitos homens da província de Saladino, a norte de Bagdad. “Dizem-me que eles estão todos aqui na base — os iranianos, os americanos e o nosso Exército, mas que trabalham sozinhos.”

Enquanto no Iraque iranianos e norte-americanos têm um inimigo comum, na Síria Teerão continua a apoiar Assad, um nome que quase desapareceu dos discursos em Washington mas que continua a matar sírios, como desde 2011. Em Setembro, Obama admitiu que foi o “caos” da guerra civil síria, desencadeada pela repressão do regime a uma revolta inicialmente pacífica, a permitir a emergência do grupo jihadista no seu formato actual.

Efeito mediático
“As decapitações de ocidentais organizadas pelo Daesh cumpriram o seu propósito, colocar o grupo nas primeiras páginas. Este resultado permitiu ao grupo terrorista alcançar três objectivos: alarmar os ocidentais, chocados com a violência, dar ainda mais peso à sua campanha de terror no terreno e muita publicidade”, escrevem no site Huffignton Post francês os investigadores Patricia Lalonde e Didier Chaudet. “Com tanto ruído mediático, acabámos por apresentar o Daesh como o inimigo com um poder formidável que não é.”

Baghdadi assumiu o grupo no Iraque depois de as bombas norte-americanas matarem o jordano Abu Mussab al-Zarqawi. A Al-Qaeda não existia no Iraque antes da invasão de Março de 2003 e só cresceu no país graças à cumplicidade síria. “A secreta militar de Assad e os seus apoiantes iranianos tentaram derrotar as forças dos EUA armando operacionais da Al-Qaeda e permitindo-lhe passar a fronteira para fomentar o caos”, escreve Ali Khedery, ex-consultor de cinco embaixadores norte-americanos em Bagdad e de três chefes do Comando Central dos EUA.

Zarqawi acreditou que a sua organização podia aproveitar o caos iraquiano e apresentar-se como defensora da comunidade sunita. Baghdadi fez o mesmo na Síria, governada por uma família alauita, um ramo do xiismo. Hoje, os rebeldes sírios que inicialmente formaram o Exército Livre para defender as populações do regime estão completamente postos de lado. Para além do Daesh, é a Frente al-Nusra, que a Al-Qaeda considera o seu braço no país, que combate Assad e controla território.

Há um ano, os diferentes grupos de rebeldes moderados ensaiaram uma coligação para combater os extremistas. Falharam. “Caminhamos para um fase onde as opções disponíveis serão apoiar Assad ou não, e eu não vou apoiar Assad”, dizia ao PÚBLICO no final de 2013 o dissidente sírio Ammar Abdulhamid. “Eu vou ficar à espera, a fazer o que posso, para salvar o que puder ser salvo no fim.” É assim que agora se sentem muitos democratas que acreditaram na revolução — e não só na Síria.

Entretanto, o Daesh ataca no Líbano, opera na destroçada Líbia e até no Egipto, onde a moderada Irmandade Muçulmana foi derrubada num golpe e o novo regime dos generais, liderado pelo Presidente Abdel Fattah al-Sisi, já conseguiu julgar mais civis em tribunais militares do que Hosni Mubarak em 30 anos de ditadura.

Escolher entre dois males
À espera, como Abdulhamid, está, por exemplo, Iyad el-Bagdadi, activista dos direitos humanos nascido nos Emirados Árabes Unidos e expulso do seu país. “Por um breve mas historicamente importante momento, a Primavera Árabe representou uma geração que olhava para o futuro, para um mundo onde não tínhamos de escolher repetidamente entre estes dois males, os autocratas no poder e os radicais islamistas”, escreve Bagdadi num artigo publicado há dias na revista Foreign Policy com o título “ISIS é Sisi escrito ao contrário”.

O tempo parece ter voltado para trás. “Vimos como os países ocidentais ficaram calados enquanto os seus aliados regionais financiavam grupos extremistas para combater o tirano sírio, e viraram a cara e financiaram um militar para suspender a democracia no Egipto em nome do combate ao ‘fundamentalismo’”, acusa Bagdadi.

“Entretanto, as operações no Iraque e na Síria, que prometeram ‘libertar’ os dois países, levaram os países ocidentais e enviar mais ajuda ao Governo iraquiano, a considerar voltar a dar legitimidade a Assad e a coordenar-se com o Irão”, acrescenta o activista, defendendo que “o caminho para uma verdadeira Primavera Árabe começa com a rejeição tanto do fascismo nacionalista como do radicalismo islamista”. “Precisamos de entender que a tirania e o terrorismo se alimentam um do outro num ciclo vicioso que só piora.”

As bombas podem travar os avanços militares mas não vão acabar com o Daesh. Foi a brutalidade dos homens de Zarqawi que levou os sunitas iraquianos a revoltarem-se contra o jordano. É pelo terror que o Daesh consegue controlar o território que conquistou e é por medo que não há mais habitantes a insurgirem-se. Desde o fim de Junho, o grupo executou 1828 pessoas só na Síria, diz o Observatório Sírio dos Direitos Humanos. Destes, 1175 eram civis, 120 eram combatentes estrangeiros que se tinham aliado mas tentaram fugir para regressar aos seus países.

Entre os civis executados, 930 eram membros da tribo sunita Shaitat, que tentou travar o avanço dos radicais no Leste da Síria. Se é verdade que o Daesh persegue minorias — cristãos, yazidis ou muçulmanos xiitas — é um facto que mata todos os que se lhe opõem.

Há relatos de que o fim das vitórias militares está a provocar deserções e que crescem as tensões entre os combatentes estrangeiros e os locais. Iraquianos de zonas controladas pelo Daesh ouvidos pelo jornal The Washington Postdizem que a vida em Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, se tornou impossível e que as doenças se espalham ao mesmo tempo que os alimentos escasseiam. Quem ficou só não planeia revoltar-se contra os novos senhores “por medo de punições severas e pela ausência de alternativas”.

A justificação política
Nos próximos meses o “califado” de Baghdadi deverá começar a abrir muitas brechas. O que não significa necessariamente que a vida dos iraquianos e dos sírios esteja prestes a mudar.

“O Estado Islâmico beneficiou da inacção do mundo: se não fosse o regime tirano de Assad e a sua campanha genocida contra o seu povo, nunca teríamos visto combatentes estrangeiros a entrar na Síria nem assistido à forma como o grupo explora o caos e o sofrimento para desenvolver a sua própria estrutura”, escreveu Muhammad al-Yaqoubi depois de ter ido ao Indiana para presidir ao funeral de Peter Kassig, o americano que se converteu ao islão durante o cativeiro antes de ser decapitado pelos radicais.

Yaqoubi era o imã da Grande Mesquita Omíada de Damasco até 2011, quando passou a ser mais um sírio no exílio — são nove milhões os sírios tornados refugiados ou deslocados. “Para derrotar o Estado Islâmico, precisamos de dar passos mais sérios para o privar da justificação política para a sua existência na Síria: o regime do ditador Bashar al-Assad”, defende. “A contínua inacção em relação ao regime vai ameaçar toda a região e os EUA.”

publico.pt

 

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