Estudantes em Portugal: A saudade não tem braços mas aperta mais quando estamos longe de casa

2/12/2014 07:05 - Modificado em 2/12/2014 07:06
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chegadasSão muitos os alunos cabo-verdianos que, todos os anos, deixam o país em busca de uma formação profissional em Portugal. Saem dos seus habitats naturais, muitas vezes com uma fantasia idealizada de que a experiência que terão no novo país de acolhimento será fantástica. Porém, chegam e deparam-se com realidades diferentes. Longe do país e das pessoas que lhes são próximas, terão de aprender a conviver com uma nova cultura, falar uma língua que nem sempre é totalmente dominada por eles e adaptar-se a um sistema de ensino diferente.

Cátia Lopes é uma dos muitos estudantes cabo-verdianos residentes em Portugal que ainda hoje sofre com o processo de adaptação ao novo meio. Longe do país, dos familiares e dos amigos percebeu bem o significado de algumas palavras tais como, adaptação, solidão e distância. “ São palavras curtas, mas que significam muito para mim”.

Como quase a maioria dos estudantes cabo-verdianos, Cátia sonhava licenciar-se fora do país, longe da autoridade e da vigilância dos pais. Sedenta, já cobiçava por uma vida mais independente “e, claro, por uma melhor formação académica”, revela com um meio sorriso. Durante meses especulava e idealizava com a mais nova experiência que entraria na sua vida. “Não tinha dúvidas que seriam anos fantásticos”. Porém, sempre ciente que para uma melhor adaptação ao país teria de arranjar novos amigos uma vez que não conhecia ninguém, a não ser apenas o avô paterno.

O nome “Portugal” soava-lhe aos ouvidos como um território “novo e desconhecido”, contudo, estava ansiosa e maravilhada por conhecê-lo.

Infelizmente, nem todas as idealizações se concretizaram. A tal independência que imaginara ter longe dos pais e do país transformou-se em dias de isolamento no quarto, onde apenas as paredes repletas de fotografias dos amigos e familiares lhe traziam algum bem-estar. “É como se, por momentos, regressasse ao meu conforto, ao meu país”.

A Chegada

Acompanhada pelo avô que a fora buscar ao aeroporto, chegou à cidade onde iria estudar… encontrava-se agora no Alentejo, uma região onde permaneceria, no mínimo, por mais de três anos.

Em relação ao avô tratava-se de um homem “que nunca conhecera antes”. Já o tinha visto mas só em fotos. Ouvira muitas vezes o pai falar do avô que emigrara ainda jovem para Portugal, mas pouco imaginava que este homem, um tanto ou quanto desconhecido, viria a ser o único familiar com quem poderia contar: “Juntos rumamos a uma residência de estudantes que ficava perto da minha escola. Aí despedimo-nos… apesar de nunca ter estado mais do que três dias com ele, senti uma solidão profunda, porque agora sim… estava por minha própria conta, longe de todos e de tudo que eu realmente conhecia”.

Apesar das aflições, Cátia acreditava que a experiência da transição da sua cultura para uma nova poderia ser vantajosa. “Sempre tive em mente que esta mudança poderia funcionar como um espaço para a aquisição de novos valores e padrões que provavelmente seriam importantes para o meu crescimento pessoal”. Sendo assim, pôs-se firme e, no dia seguinte ao da chegada à cidade, começou a frequentar as aulas.

Primeiro dia de aulas

Chegou atrasada ao início do ano lectivo, não foi praxada e não conviveu desde os primeiros dias de aula com os colegas da turma. O que fez com que se sentisse afastada deles: “fez com que eu criasse uma certa barreira ao meu redor para me proteger. No meu primeiro dia de aulas entrei na sala, sentei-me na primeira fila, distante dos colegas que lá estavam. Isto porque já pairava no ar uma certa ligação afectiva entre os meus colegas, que eu desconhecia e que afectou o meu estado, sem saber como agir”.

Revela que este retraimento se deveu principalmente a três razões: “à não convivência com os colegas desde o primeiro dia de aulas, acanhamento devido à sua própria personalidade e por não dominar totalmente a língua portuguesa”.

Um ano e meio se passaram e ainda hoje a relação com os colegas não se alterou muito. Diariamente vai às aulas e, relativamente aos trabalhos de grupo, realiza-os sempre com a mesma pessoa, a colega de turma Felipa. “Nós as duas somos muito parecidas. Quase a mesma personalidade. Lentamente fomo-nos conhecendo e aproximando-nos e, desde então, estabelecemos uma bela relação de amizade”.

Actualmente a adaptação já não é um bicho-de-sete-cabeças como fora no início da sua chegada. “Já me habituei, tenho como prioridade concluir o curso e não reatar laços de amizade”. Cátia não se esquece de realçar que a ajuda no seu processo de adaptação se deve, em grande parte, aos restantes colegas cabo-verdianos espalhados pela cidade e por Portugal.

É preciso muita coragem e força de vontade para não deixar um curso a meio. A saudade não tem braços mas parece apertar bem mais quando nos encontramos longe de casa. Porém, nada melhor do que encontrar pessoas da nossa comunidade e fazer-nos sentir protegidos e, acima de tudo,… acolhidos.

 

Zilene Rocha , Portalgre

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