Mentira foi a palavra mais usada no segundo debate entre Dilma Rousseff e Aécio Neves

17/10/2014 08:02 - Modificado em 17/10/2014 08:02
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dilma e aécioAs insinuações sobre o passado do candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) à presidência do Brasil, Aécio Neves, saltaram na quinta-feira do submundo das redes sociais para o horário nobre televisivo, quando a Presidente e candidata a um segundo mandato, Dilma Rousseff, se vangloriou pela aprovação da chamada “lei seca” durante o segundo debate entre os dois concorrentes ao palácio do Planalto.

A legislação, recordou a representante do Partido dos Trabalhadores (PT), permitiu retirar das estradas “milhões de motoristas embriagados e drogados” que representam um perigo para os restantes condutores e transeuntes. A referência era tudo menos inocente e o adversário acusou imediatamente o toque: em 2011, Aécio Neves foi parado numa operação stop no Rio de Janeiro e recusou submeter-se ao teste de alcoolemia, tendo apresentado à polícia uma carta de condução fora da validade e aceitando a apreensão do documento e pagamento da respectiva multa.

O social-democrata já se desculpou várias vezes pelo “caso do bafômetro”, como designa a imprensa brasileira. Voltou a fazê-lo perante as câmaras do SBT, mostrando-se arrependido e, ao mesmo tempo, censurando a campanha baixa do PT: “Um mar de lama”, insurgiu-se. Dilma Rousseff manteve a calma: “Eu não dirijo sob o efeito de álcool e drogas. Isso não diz só respeito a mim, diz respeito a todos”, apontou.

Ao longo das quase duas horas de emissão, o ambiente foi sempre carregado, com acusações, provocações e segundas intenções, e os adversários políticos a repetirem um ao outro “mentira”, “porque a senhora mente o tempo todo?”, “quem mente é você”. Além de se digladiarem sobre o alegado desrespeito mútuo à verdade, os dois trocaram outros galhardetes, aludindo à prática de nepotismo e corrupção.

“Aqui, ninguém está acima de qualquer suspeita, candidato. Todos temos que provar que somos honestos e íntegros”, avisou Dilma, depois de forçada a defender-se por causa do escândalo de sobrefacturação, desvios de verbas e subornos de políticos (ligados ao PT e aos partidos da base aliada). No contra-ataque, a Presidente informou que Sérgio Brás, ex-presidente do PSDB (que já morreu), também esteve envolvido no caso, tendo recebido “propinas” da Petrobras – foi a primeira vez que um “tucano” (o pássaro que simboliza o partido) foi mencionado como participante no esquema de corrupção.

Mais agressivo do que os confrontos anteriores, o debate terá exigido tanto dos dois candidatos que a Presidente se sentiu mal no fim da emissão: nas entrevistas após o frente-a-frente, ainda no estúdio, Dilma Rousseff parou de falar e, apoiando-se na jornalista, parou e pediu para se sentar. Pouco depois, já recomposta, informou ter sentido uma queda de tensão. Quando qualquer incidente pode ter o condão de desempatar as sondagens, “isso é contra ela ou as pessoas se solidarizam? A ver”, comentava a colunista do jornal Folha de São Paulo, Eliane Cantanhêde.

Durante o debate, a Presidente pôs em prática a estratégia de “desconstrução” que a sua campanha já tinha sido experimentado, com sucesso, na primeira volta contra Marina Silva (a política ambientalista que correu pela chapa do Partido Socialista Brasileiro apoiou oficialmente a candidatura de Aécio Neves). Dilma não desperdiçou nenhuma oportunidade para alterar a imagem do seu opositor, recordando os seus mandatos como governador do estado de Minas Gerais e insistindo na tecla do nepotismo e da corrupção.

Sobre o caso da construção do aeroporto de Cláudio, uma obra lançada por Aécio em terrenos expropriados pelo governo estadual à sua família e cuja chave permanecia na sua posse, a Presidente foi pedindo explicações. Aécio não mordeu o isco, fechando o tema com o argumento de que o Ministério Público não viu qualquer irregularidade na obra. No final, Dilma rematou, com efeito dramático: “É errado, candidato, não se faz isso. É feio”.

Antes, a Presidente tinha levantado a questão do nepotismo, assinalando que o governador Aécio dera cargos públicos a um tio, aos irmãos e aos primos. “Podem procurar à vontade no meu Governo; eu nunca empreguei nenhum parente”, contrapôs. Foi então que Aécio tirou da cartola a contratação do irmão de Dilma, Igor Rousseff, em 2003 pelo então prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel – que depois foi ministro do Desenvolvimento e acaba de ser eleito governador de Minas Gerais, pelo PT. Que cargo municipal era esse, inquiriu o candidato, que pagava um salário sem que fosse preciso “aparecer para trabalhar”?

Se a missão de Dilma na quinta-feira era “desconstruir”, a de Aécio era de desqualificar a governação e atacar a Presidente – e o candidato cumpriu, sem dar tréguas. Além da corrupção, veio a violência e segurança, e depois ainda a inflação alta e o crescimento económico baixo: “A senhora só apresenta justificações, nunca soluções”. De frente para a câmara, Aécio questionou directamente o eleitor: “Você hoje consegue comprar o mesmo que comprava há seis meses?”. A pergunta foi tirada a papel químico da campanha presidencial de Ronald Reagan em 1980 – nessa altura, o argumento ecoou junto da sociedade norte-americana e o conservador venceu a eleição.

 

publico.pt

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