Germano Almeida : “Com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas”

6/10/2014 07:23 - Modificado em 6/10/2014 07:23

germano almeidaOrgulhoso de ser cabo-verdiano, Germano Almeida fala do Do Monte Cara Vê-se o Mundoromance sobre São Vicente que é também um retrato de um país que tem tanto de africano como de português. Nas línguas, como na sexualidade, explica o escritor

O seu Do Monte Cara Vê-se o Mundo está cheio de gente de fora, a Yara de São Tomé, o Pepe, que veio de Santo Antão. O próprio Germano Almeida nasceu na Boa Vista. Porque atrai tanto São Vicente?

São Vicente nasceu através das pessoas levadas das outras ilhas. Só começou a ser povoada a partir de 1830, quando os ingleses decidiram transformar o Mindelo num porto carvoeiro. Até àquela altura, São Vicente era um campo de pastagem dos proprietários do Fogo e de São Nicolau. Levavam o gado e no fim iam tirar as peles, fazer a chacina. Aliás, é uma coisa interessante que a escravatura terminou oficialmente em 1876, mas em 1854 ou em 1856 os ingleses já tinham exigido a Portugal acabar com a escravatura em São Vicente.

Quer dizer que não há ninguém que não tenha memória de um avô ou bisavô de outra ilha?

Não, não há. São Vicente é feita com gentes levadas de Santo Antão, de São Nicolau, grande parte também da Boa Vista, mas também das outras ilhas, isto porque nasce numa conjuntura em que Cabo Verde está a atravessar uma grande crise. Por um lado, a questão de as pessoas a verem como local onde conseguem trabalho. Por outro lado, a questão de as pessoas chegarem à ilha e passarem a ser livres. A escravatura acabava lá.

Ao mesmo tempo, São Vicente é terra de emigrantes. No livro percebe-se isso quando fala que Marcos partiu e que também o filho Marquinhos emigra. É este o sonho do cabo-verdiano, procurar fora a riqueza que falta lá?

Querem é um meio de vida, a sobrevivência. Têm a consciência de que as pessoas viverem em Cabo Verde é difícil. E há alturas em que é quase impossível. Enquanto as pessoas vão conseguindo sobreviver nas ilhas, vai-se aguentando. Mas há situações em que é complicado. Então surge a emigração, essa hipótese de salvação. É evidente que com o tempo a emigração se foi transformando numa segunda natureza do cabo-verdiano.

No livro fala da Holanda, destino habitual para os cabo-verdianos, mas depois Portugal aparece referido como “afinal de contas a guarida de tudo que foge de Cabo Verde”. Que relação é esta?

Portugal é quase continuação da casa. E mesmo tantos anos depois da independência. Acho que é a língua, que aproxima os povos. Na Holanda sente-se que se está no estrangeiro. Em Portugal não.

Uma das personagens, D. Aurora, diz que em casa só se falava português, mas que isso era malvisto pelas pessoas, para quem o crioulo é que merece andar na boca de toda a gente. Como conciliam os cabo-verdianos o português e a língua nascida no arquipélago?

Dificilmente se encontra um cabo-verdiano que não entenda alguma coisa de português. Pode não entender na perfeição, pode não falar, mas entende. Claro que a língua de Cabo Verde é o crioulo. A vida decorre em crioulo. Mas o português não é língua estranha. Eu falo 95% em português. Os meus filhos 95% em crioulo. E entendemo-nos.

Mas a escola aposta no crioulo…

Eu sou defensor do ensino do crioulo rigoroso, mas o português tem de ser ensinado como uma língua estrangeira, porque não é a nossa língua nacional. Considero muito importante a nossa gente saber falar português bem. Tem-se tentado diversas experiências. Uma delas é começar por alfabetizar em crioulo para depois transbordar para o português, de forma a que as pessoas não sintam que o português é uma língua estranha. As nossas crianças nascem a falar crioulo e só contactam com o português na escola. E para a grande maioria isto é um traumatismo.

Mas não perdem muito os cabo-verdianos se desistirem do português, língua que é também deles?

Eu acho que nos perdemos. Tenho insistido na necessidade de nós em Cabo Verde dominarmos o português até mais do que os portugueses. Porque nós com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas. Com o português vamos para Portugal, para o Brasil, para Angola.

Essa ideia tem adeptos ou existe ressentimento com Portugal?

Sim. Algumas pessoas dizem que sou um traidor por achar o português tão importante como o crioulo. Eu digo está bem vou continuar. Mas a verdade é que defender o português é ideia que ganha adeptos, felizmente. Por exemplo, há quem defenda o ensino universitário em crioulo e isso é absurdo.

As pessoas em Cabo Verde leem sobretudo em português?

Sim. Ninguém vai traduzir Eça de Queirós em crioulo.

Usa palavras do crioulo no livro, como crau (relações sexuais) ou catchor de lantcha (cão vagabundo). Sente necessidade destas palavras na boca das personagens para lhes dar mais autenticidade?

As pessoas podem pensar que ponho isto à força, mas não. Conto uma história em português, mas sou cabo-verdiano e há expressões que só me fazem sentido em crioulo. Por exemplo,catchor de lantcha, eu não saberia traduzir. Posso pôr “és um malandro”, mas…

Quando fala é assim que lhe sai?

Até há gente que diz que eu não sei falar português. E escrever. Porque essas coisas me saem. Mas eu digo sempre que sou cabo-verdiano.

O pano de fundo do romance é São Vicente, mas nele destaca-se a história de amor de Júlia e Pepe. Porém, o sexo está omnipresente. Faz parte da maneira de ser dos cabo-verdianos a sensualidade?

Encaramos o sexo com naturalidade. Faz parte da vida. Como dançar e comer. Cheguei a pensar que era da herança africana. Depois descobri que era também da europeia. Apanhámos dos dois lados.

Cabo Verde é tido como um país modelo. Merece tantos elogios?

Há tempos brinquei com um texto de Obama que dizia ser Cabo Verde exemplo para a democracia no mundo. E eu disse “até para a América, que não é nada democrática”. Quando olhamos para os outros e para a nossa fraqueza inicial, temos de admitir que se fez um bom trabalho. Nós cabo-verdianos achamos que se podia fazer melhor.

 

por Leonídio Paulo Ferreira

dn.pt

 

 

 

  1. Andrea Fortes

    Alguns anos atras por inspiração demagógica o governo da Ilha Curacao que é um departamento da Holanda mas com uma grande autonomia e governada pelos autóctones decidiu introduzir o papiamento como língua oficial nas escolas publicas substituindo assim a língua holandesa considerada como uma língua de colonizadores e portanto menos valida.
    Entretanto logo no inicio esses mesmos políticos que tudo fizeram para introduzir o papiamento como língua oficial retiraram imediatamente os seus filhos das escolas publicas e colocaram os mesmos nas escolas privadas onde o ensino era ministrado em língua holandesa.
    Passado 5 anos duma experiência que desde do inicio estava condenada ao falhanço chegaram a conclusão que a introdução do papiamento como língua oficial em detrimento da língua holandesa foi um verdadeiro desastre pelo que nao havia outra alternativa senão começar de novo com a “língua nao amada”.
    Nada de novo. Este desastroso resultado como é logico já era de esperar. Os alunos das escolas publicas sofreram um atraso de 5 anos. O fosso entre os alunos filhos das elites que frequentaram as escolas privadas onde a língua oficial era a língua holandesa e os alunos das classes menos favorecidas que frequentaram as escolas publicas onde a lingua oficial era o papiamento foi enorme e estes últimos sofreram um retrocesso de 5 anos.
    Marciano e comparsas que nao sao tao parvos e que sabem perfeitamente quais as nefastas consequencias de oficializar o crioulo deviam ir ate Curacao e inteirarem-se da sua experiência negativa em substituir a “língua nao amada” mas de qualquer forma a mais funcional pelo papiamento]

  2. roxana aguilera

    os povos Asiaticos sao respeitado pela atitude ao trabalho ,ao rigor da disciplina , as tribus por respeitar ao mais velho pela experiencia e o mundo nao domina issas linguas
    o Criollo e’ a IDENTIDADE de este pais africano q como outros tiveron cruces culturais.
    Claro q o criollo nao tem universalidade ,pero sim istoria .
    Lembre-me da tribu do amazonia ecuatoriana q levo em sua lingua uma queixa a LA HAYA contra um Gov ,e GANHO !!

  3. Carlos Pereira

    Gostei! Comentario arejado, corajoso, realista e sem complexos. Sera que e o ar do Monte Cara?

  4. Pedro Cruz

    Portugal não foi adversário, mas aliado de Inglaterra no esforço e empenho para acabar com o tráfico de escravos logo no início do sec. XIX. A escravatura foi abolida na metrópole e nas suas colónias da Índia em 1761, muito antes, creio, do R.U. o fazer. Os escravos do Estado foram libertos em todas as colónias em 1854. A abolição completa da escravatura em todo o império português ocorreu em 1869. Esta pequena correcção de datas em nada retira o enorme interesse da entrevista de Germano Almeida.

  5. Pedro Cruz

    …tb gostaria de ter visto o jornalista perguntar ao insigne autor qual a variante de Crioulo que propõe para o «ensino do crioulo rigoroso». O da capital? E com que regras gramaticais? E a grafia? E ainda, o que dizer das crianças favorecidas q nos vários países estudam c/ vantagem em colégios de língua estrangeira, estudando-as logo em profundidade desde as 1ªs letras. Não é isso mm q as elites querem para as S/ crianças na futura Escola Portuguesa? E as crianças pobres, resta-lhes o Crioulo?

  6. Gladstone Germano

    O Germano Almeida tem toda a razão e o futuro dos idiomas que os crioulos falam- a lingua crioula nas suas variantes incluindo a da Guiné-Bissau e a lingua portuguesa – está no domínio completo do português e do crioulo.
    Baltazar Lopes da Silva dizia-nos nas aulas de português que quem quer que fosse que não tivesse o domínio das duas teria sempre um pé cochinho…
    É necessário dominar as duas, mas deixem-se de cinismos,porque o português é o nosso passaporte para transpôr todas as fronteiras!!!

  7. Lima Israël

    Acho que o sr. Germano Almeida tem razao de Falar assim.Bravo.

  8. Emigrante

    A economia de Cabo verde não permite tornar crioulo uma Língua oficial, é um processo muito caro e muito difícil, as desvantagens serão enormes para os nossos estudantes e para os professores, vai ser uma quebra cabeça.Temos uma grande herança que o Camões nos deixou, a terceira Língua mais falada e escrita no Mundo. A preocupação que devemos ter é aprofundar os conhecimentos. Pensar no crioulo como uma cultura; para não cairmos em má tentação, que só venha perturbar no desenvolvimento.

  9. Alfredo Moreira

    I have one thing to say. It is true Portuguese is the language that allowed us (Cape Verdeans) to communicate with the world, since Creole is only spoken in the islands. But to say that Portuguese is equally as important as Creole is an absurd. Many countries speak languages that is exclusive to their own countries (Germany, China), that doesn’t excludes them from the world. If you want Cape Verde to feel integrated with the world, teach more English and less Portuguese.

  10. Eduardo Oliveira

    Com o crioulo preconizado, portanto não me refiro às versões existentes, não vamos mas… desandamos.
    Exportamos Eugenio, Cardoso, B.Leza, Novas e tantos outros, para falar dos que nos deixaram e nos legaram um tesouro colossal que perdurarà e que nunca feriu nem impediu o desenvolvimento do nosso Povo. Assim, não podemos retroceder para satisfazer o capricho de um megalômano, raivoso, teimoso.

  11. eduardo moreno

    Para além dos custos do crioulo há gato escondido com rabo de fora. Querem é o centralismo da língua para agora sim ter a república de santiago na maior

  12. eduardo moreno

    Os caboverdianos do norte de Cabo Verde não devem-se associar nesta aventura. É precisa acabar com a birra tabu ideológico com a língua portuguesa que começou com o 25 de Abri e a independência. Para sobrevivência do país todos os caboverdianos devem falar línguas e sobretudo o português. Para além dos custos para um país que não tem onde cair morto, e até hoje se questiona se é viável, temos gato escondido com rabo de fora. Porque é que há uma ilha que está a bater para impor o seu crioulo ?

  13. eduardo moreno

    Já é tempo de acabarem as lenga-lengas do 25 de abril e da independência e começar a trabalhar. 40 anos de festa chega. Usar o cruiolo como língua de ensino é paródia e chacota. Mas uma ideia do iluminado JMN e seus amigos da santacatarina. O Mundo esta a avançar e não vai esperar pelos caprichos dos crioulos se quizerem ficar para traz

  14. João santos

    Este assunto tem sido politicamente incorrecto. Felizmente que aparece o germano Almeida para pôr isto na ordem

  15. Julio Goto

    …essa lenga lenga do variante badiu fardado de lingua materna tem lugar e na stotcha.
    Se perguntarem aos estudantes do pais mais rico do mundo Noruega, qual e a barreira que eles encontram no seu precurso escolar, a maoioria responde que e o Nynorsk a segunda lingua oficial.
    Nykorsk uma lingua de laboratorio baseado nos dialectos falado em toda a Norwega.
    Badiu alupecano que encontra na ventre do Veiga sem estudo,baseado no badiuzamento do vocabulario portugues e o dialecto da Rep. de S.Tiago.

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