Dª Júlia vive no limiar da pobreza

25/08/2014 01:57 - Modificado em 25/08/2014 01:57

pobrezaA desigualdade social é um dos problemas sociais que se vê a olho nu em cada beco das ruas do Mindelo. Só não vê quem não quer.

 

Para o Governo, a situação de milhares de mindelenses que passam fome é mera ficção. Para a oposição, é apenas uma arma de arremesso político para ser usada quando “dá jeito”. Mas nos bairros periféricos do Mindelo existem famílias que vivem no limiar da sobrevivência e a palavra fome não é um mero conceito: é uma realidade.

Júlia de 49 anos, reside há mais de 20 anos em Covada de Bruxa, numa pequena e humilde habitação construída com chapas de lata. Tem quatro filhos, mas só um deles vive com ela.

O programa Casa Para Todos que muitos chamam de Casa Para Alguns, continua a excluir as camadas mais vulneráveis que lutam e sofrem todos os dias para conseguirem o pão de cada dia.

Entristecida, D. Júlia diz que não mora condignamente e que há mais de vinte anos que construiu clandestinamente a sua humilde casinha de lata para se abrigar juntamente com os filhos. Em 2010 legalizou o terreno e obteve licença para iniciar a escavação dos alicerces.

Tendo em conta que o terreno fica situado numa rocha muito dura, não foi possível terminar a escavação, pelo que a casa ficou no meio de buracos e quando chove, a situação torna-se complicada.

D. Júlia conta ao NN que já pediu ajuda à Câmara Municipal de São Vicente e que há três anos que aguarda por uma resposta do gabinete de acção social. D. Júlia diz que trabalhava como comerciante ambulante há alguns anos mas que, neste momento, não trabalha porque o negócio não tem gerado qualquer rendimento.

A casa onde D. Júlia mora não tem quaisquer condições para habitar. O tecto parece um chuveiro, cheio de buracos. E sempre devido aos buracos, consegue-se ver todo o movimento da rua mesmo estando dentro da casa. Entristecida, a mesma conta: “quando chove ficamos dentro de um lago, o colchão de esponja fica encharcado de água. Não temos para onde ir, sofremos sozinhos aqui dentro”.

A retrete e o espaço improvisado para cozinhar ficam fora da casa. As refeições são preparadas com lenha porque, segundo D. Júlia, não há condições financeiras para comprar uma botija de gás.

D. Júlia diz que depende do filho que trabalha no cais no descarregamento de contentores, mas não é um trabalho fixo. “Durante trinta dias, o meu filho conseguiu trabalhar apenas uma ou duas vezes. Raramente consegue trabalhar dias seguidos. Ele vai para tentar a sorte mas, muitas vezes, regressa a casa sem nenhum tostão”.

Segundo a proprietária, a situação arrasta-se há vários anos. D. Júlia mostra-se preocupada com o aproximar-se da época das chuvas. Pede o apoio da sociedade para ajudá-la a remodelar a humilde habitação ou apoiá-la na construção de um quarto de tijolo para se abrigar e solicita a sensibilidade das autoridades responsáveis para a causa.

 

Texto publicado no Jornal nº 7

  1. Julio Goto

    …tiveram a oportunidade de livrar do PAIGC/CV.Desde 1975 eles tem feito tudo para mergulhar S.Vicente na cepa torta.
    Os Saovicentinos deviam negar todos os deputados que nao sao oriundos da ilha.Tanto o Jorge assim como a Guineensa nao deviam liderar as listas de S. Vicente.

  2. Antonia da Cruz

    Simplesmente triste!
    A quem do direito que ajude esta pobre Senhora a sair deste situação.
    Seria bomqueos filhos se recorressem a um pedido de ajuda em série, abrindo uma conta para o efeito e cada um contribui como pode ainda que apenas para comprar uma chapa de zinco, se isso nos reconforta.
    Solidariedade precisa-se!

  3. John Justice

    Mas porque é que uma caboverdiana tem de viver nestas condições? Este é na verdade um país do Faz de Contas. Enquanto uns vivem na abastança, outros vivem na maior miséria. Triste, triste…

  4. Ondina Ramos

    Nunca entrou tanto dinheiro em Cabo Verde como nas ultimas décadas, nunca se falou tanto de redução da pobreza e planos de crescimento mas o que se tem visto é que as desigualdades
    sociais e economicas nunca foram tao grandes. No que respeita ao crescimento é bastante selectivo e talvez mais um crescimento populacional para nao se falar duma explosão populacional.
    A pobreza vem alastrando-se rapidamente enquanto que as riquezas inexplicáveis e muitas ilícitas vao se alastrando cada vez mais e concentradas numa pequena faixa da população.
    A exibição dessas riquezas é simplesmente pornográfica. E muitos nem tao pouco têm o pudor de as esconderem. Mansões enormes por todos os lados, carrões de alta gama, contrastando com o número de casas de lata que alastram por essas fraldas bem assim como pessoas que passam fome.
    Ate quando vai durar esta situação? Até quando vai durar esta kleptocracia e este enriquecer a curto prazo de uma pequena faixa da população?

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