Belarmino Lucas: “a esmagadora maioria das empresas opera no limiar da sobrevivência”

1/08/2014 01:53 - Modificado em 1/08/2014 01:53

belarmino lucasBelarmino Lucas, presidente da Câmara de Comércio de Barlavento, diz  os empresários do Barlavento estão nos cuidados intensivos. E se não for feito nada  muitos podem encerrar as sua empresas  que vivem no vermelho . Num mundo que não é de fantasia Belarmino admite que “ o Governo tem vindo a apostar nas infra-estruturas, não se pode negar: os aeroportos, os portos, as estradas. Mas o problema que se coloca é que a aposta feita no hardware não foi acompanhada pelo software” E explica : temos bons portos , mas não temos barcos.

 

Notícias do Norte: Qual é o estado de saúde dos empresários na zona norte do país?

Belarmino Lucas: Eu diria que os empresários estão, de uma certa forma e utilizando a metáfora do estado de saúde, nos cuidados intensivos tendo em conta as dificuldades que são conhecidas por todos. E, neste momento, há uma situação que não é boa e que, necessariamente, necessita de uma atenção especial por parte dos”médicos”, digamos assim, para evitar que o doente piore. Ultimamente, temos estado a viver uma situação de crise permanente que veio a aumentar com a crise agravada dos últimos anos e isso, aliado às dificuldades estruturais do país e da região, de facto, tem levado a economia e o sector empresarial a atravessar um período bastante complicado.

NN: Continuando a usar a metáfora da doença, qual é o mal pior: é a questão do acesso ao financiamento ou são todas as questões colocadas ao governo  e de que não se vê solução. Qual é o mal maior?

BL: Diria que cada um, em diferentes fases da actividade do empresário, acaba por ter a sua incidência e a sua maior ou menor consequência. Se pensarmos numa empresa que está a começar e tomarmos como exemplo alguém que quer iniciar a sua actividade empresarial, coloca-se à partida um problema muito grande que é o problema do financiamento. Há muita gente com projectos, com bons projectos, mas que depois têm dificuldade em levar o projecto adiante devido à falta de meios que lhe permitam financiar o projecto. E mesmo quem já está no terreno e que queira expandir a actividade, também tem essa grande dificuldade de acesso ao financiamento. E a situação que se refere ao financiamento acaba por ser um pouco caricata, porque se formos perguntar aos bancos, eles dizem: “nós temos dinheiro e queremos emprestar dinheiro e estamos à procura”. Por outro lado, nós, os empresários, os que recorrem aos bancos, somos unânimes em dizer que há uma enorme dificuldade em aceder a estes fundos bancários. Então qual é o problema? Os bancos dizem que não há bons projectos. Mas o que será um bom projecto? Um projecto com zero riscos? Isso, naturalmente não existe.

“A nossa banca  é uma banca conservadora que não tem sabido estar à altura”

 

NN: Ouvimos os empresários a dizerem que a banca não corre risco. O que pensa disso?

BL: A nossa banca  é uma banca conservadora que não tem sabido estar à altura, ao lado, sobretudo, dos pequenos e médios empresários. Porque se formos ver, o produto bancário corrente que temos é o produto tradicional. Embora os bancos registem, nestes últimos tempos neste segmento, uma nítida retracção, eles privilegiam o “crédito bancário para a habitação” e outros produtos onde a garantia é plena, sobretudo, no que é mutuado pelo banco. Quando se trata de investimentos onde é suposto o banco correr algum risco calculado com o investidor, como é óbvio, quando se trata do médio e pequeno empresário, não há essa apetência para de facto acompanhar e apoiar o empresário. Concordamos com os bancos quando dizem que não vão estar a atirar dinheiro para o ar e financiarem tudo o que aparece, mas que vão financiar os bons projectos. Mas a questão está aqui: o que são bons projectos? Chegámos a fazer uma proposta aos bancos, uma espécie de protocolo em que os projectos aprovados e financiados no quadro do fundo de financiamento e competitividade, que são projectos que passam por um crivo de análise de viabilidade económica e que têm um acompanhamento, que os projectos que viessem nesta sequência pudessem ter automaticamente um acompanhamento e um financiamento por parte dos bancos. De facto, isto nunca se concretizou. Havia o projecto e o financiamento e avançava para a fase seguinte. O investidor procurava o banco e o banco voltava a fazer toda a análise outra vez e isso nem sempre desembocava num efectivo financiamento. Existe uma necessidade dos bancos de compaginarem os seus critérios e posicionamento em termos de risco com aquilo que é a realidade do país e as necessidades do país.

NN: Falando com alguns empresários, estes discordam da análise de um bom ou mau projecto e dizem que há casos em que a banca tem financiado projectos maus , mas de cidadãos estrangeiros. E apontam casos concretos. E dizem que não entendem como é que para determinados grupos há financiamentos e para os nacionais não há. Isso é verdade? Existe  essa descriminação ou é apenas conversa de café?

BL: As pessoas fazem as suas análises baseadas no que vivenciaram e na sua percepção e, muitas vezes, quando estamos envolvidos no processo, acabamos de certa forma, por ter a análise influenciada pelas nossas próprias vivências e pela circunstância onde estamos inseridos. Eu não posso fazer um processo de intenções relativamente aos bancos. Eu penso que regressamos à questão do conceito do que é um bom projecto para os bancos, porque todos os projectos mencionados acabam por terem atrás de si uma garantia real. Fala-se por exemplo, do projecto de Alto Morabeza. Nacional ou estrangeiro que seja, este projecto tinha atrás de si um imenso imóvel que ainda está atrelado ao banco como garantia de financiamento. Eu vejo aqui mais projectos que se enquadram no perfil de análise de risco dos bancos do que propriamente projectos de questões de serem nacionais ou estrangeiros. Acho que continuamos aqui com as mesmas questões.

NN: Mas a questão de que se fala é outra. É aceitável que pequenos empresários que dizem que têm projectos para montar pastelarias, para não falar do comércio dominado pelos chineses, lojas de fotocópias e pequenos negócios não encontrem apoio, enquanto que aparecem estrangeiros e montam pastelarias, negócios de fotocópia, restaurantes e bares?

BL: Bem, esta é uma questão sempre complicada mas o reverso daquilo que as pessoas dizem, ou a solução que as pessoas têm em mente quando falam deste aspecto, é uma solução que passa pelo proteccionismo relativamente ao que é nacional e uma discriminação positiva do nacional. O problema é que temos um quadro económico e um quadro regulamentar jurídico na economia que é extremamente liberal, aberto. E há dias tivemos a apresentação do relatório da Heritge Foundation que dá a Cabo Verde o 60º lugar a nível mundial, primeiro dos PALOP e a nível de África, o terceiro. Portanto, temos um quadro legal extremamente aberto e a nossa economia é aberta e não há entraves ao desenvolvimento de qualquer actividade económica por parte de um estrangeiro ou de um nacional, desde que se cumpram os requisitos legais necessários para o efeito. Somos membros da OMC e daqui resultam uma série de obrigações de um Estado como Cabo Verde, que diz respeitar as liberdades económicas e de circulação de pessoas e de mercadorias. Eu não posso dizer que concordo com uma protecção dos nacionais ou que se devem criar restrições aos estrangeiros, mas o que digo é que o nacional deveria ter um quadro de apoios locais que lhe permitissem estar em condições de igualdade para competir com o que vem de fora. E aqui entra a questão do financiamento: se um nacional não tiver dinheiro para abrir uma actividade e vem um estrangeiro com dinheiro, este consegue.

 

“Mas não se pode negar a questão do medo.”

 

NN: Mas há outra crítica que se faz ao empresariado nacional, isto é, que também tem medo de arriscar. Apesar dos constrangimentos, há um medo de investir?

BL: De certa forma há e não podemos escamotear essa questão porque temos de fazer uma análise abrangente desta realidade em todas as suas vertentes. E, para além dos problemas que são extrínsecos ao empresariado, em certa medida, também há os que são intrínsecos. Um dos problemas intrínsecos passa por este receio de se correrem riscos, porque também o empresário acaba por se sentir condicionado pelo ambiente económico e empresarial onde está inserido e onde desenvolve ou vai desenvolver a sua actividade. No fundo, diz que isto está mal e se vier a fazer um investimento e como a economia não está a ajudar, vai perder o investimento, logo, o mesmo vai ficar condicionado. E, às vezes, falta essa centelha de empreendedorismo, pois o risco é proposicional à probabilidade de sucesso. Por isso, se eu correr um grande risco, posso ter um grande prejuízo mas também, se der certo, o lucro e o sucesso serão muito maiores. Mas não se pode negar a questão do medo.

NN: Penso que também estará de acordo, ainda sobre a questão do financiamento, que existem outros concorrentes, que são o Estado, o Governo que vai buscar financiamentos à banca ou uma Câmara Municipal, como a de São Vicente que vai à banca pra buscar dinheiro para calcetar estradas : não há uma concorrência do Estado : das Câmaras Municipais e do Governo em relação ao financiamento?

BL: Essa concorrência existe sem dúvida e é um facto. Mas a percepção que temos e, que cito, não é tão determinante tanto quanto possa parecer, tendo em conta os input que recebem dos bancos em comparação com aquilo que são a sua disponibilidade.

NN: E traduz-se na prática.

BL: Sim e traduz-se na prática. Inclusivamente num determinado fórum houve um técnico que levantou esta questão para demonstrar que se se considerarem os títulos de dívida pública que são transaccionados no mercado e que os bancos acabam por comprar massivamente, o retorno e a rentabilidade destes títulos, quando comparados com o que os bancos podem obter, é de longe inferior. Eles dizem que fazem investimentos nesses instrumentos porque não encontram outras alternativas para aplicarem o capital. Ou seja, é uma análise bastante complexa porque há umas certas variáveis em jogo. E quando confrontamos o discurso dos empresários com o dos bancos, há aqui algo que não bate certo. O facto é que os empresários não conseguem ter acesso ao financiamento e, unanimemente, afirmam isso. Mas os bancos dizem que não conseguem aplicar o dinheiro porque não há projectos. Então, o que se deve fazer é uma reapreciação daquilo que é o perfil de risco nacional e que os bancos devem estar disponíveis para correrem juntamente com os empresários e, aqui, o BCV tem que ter uma palavra a dizer e o Governo tem de criar um quadro cada vez mais favorável ao investimento. Um quadro de previsibilidade e de estabilidade em termos económicos, em termos fiscais que permita com que o empresário possa fazer cálculos de longo prazo numa perspectiva de previsibilidade e estabilidade. E isso tem faltado.

 

“Temos projectos em São Vicente, e quem diz São Vicente diz outras ilhas desta região, que não estão a explorar todo o seu potencial porque se aumentarem a sua capacidade de produção não têm como fazer o escoamento da sua produção”

 

NN: Sente-se que o empresariado em São Vicente, nos últimos tempos, está meio sonolento e não se conhecem grandes iniciativas e projectos. Está de acordo com esta análise? Diz-se que houve um boom entre 97 e 99 com a especulação imobiliária em São Vicente e sentiu-se, mas que depois, o empresariado se tornou cabisbaixo. É isso ou não?

BL: Vamos lá a ver. Primeiro, falamos neste tal boom que ocorreu em termos de imobiliária. Havia todos estes projectos que não foram adiante e, o que acabou por sobrar foi apenas a parte da especulação imobiliária, não os grandes projectos, porque não se realizaram. Mas, a nível mais pequeno, a nível de lotes de terreno, de casas que se vendiam, de lotes de pequenas dimensões e de lotes de terreno à volta da cidade, houve sim o tal boom mas que se restringiu apenas a este tipo de actividade. Relativamente à economia real, aos serviços à indústria e ao comércio, isso não aconteceu, não houve nenhum boom e isto é um facto. Não houve nenhuma alteração significativa no ritmo económico em Cabo Verde naquilo que é a economia real desse tal boom da imobiliária. Então o que acontece é que se continuam a ter os mesmos constrangimentos que tínhamos e que fizeram com que a economia não se desenvolvesse, porque há muitos projectos que estão em stand-by ou que não estão a ter o devido desenvolvimento por causa de outros problemas que ultrapassam a capacidade de resolução destes empresários. Por exemplo, temos a questão dos transportes. Temos projectos em São Vicente, e quem diz São Vicente diz outras ilhas desta região, que não estão a explorar todo o seu potencial porque se aumentarem a sua capacidade de produção não têm como fazer o escoamento da sua produção ou o escoamento de forma segura, programada e regular.

NN: E neste momento estamos sem barco para transportar cargas pesadas.

BL: Nem mais. Temos aqui um enorme potencial, por exemplo, a nível da avicultura. As unidades instaladas em São Vicente são capazes de fornecerem e abastecerem o mercado nacional na sua globalidade, mas não conseguem explorar este potencial porque não há garantia de colocação regular dos produtos nesses mercados. Ou então, são obrigadas a fazerem elevados investimentos noutros mercados como construírem armazéns, câmaras frigoríficas nesses próprios mercados onde, se os transportes fossem regulares não seria necessário esse tipo de investimento, porque far-se-ia o abastecimento normal através de São Vicente. E quem diz isso, diz outras situações. Como por exemplo, conheço o caso de uma empresa em São Vicente, uma empresa na área da floricultura e de plantas ornamentais, que tem um grande potencial mas que não consegue sair da ilha de São Vicente por causa da quarentena fitossanitária. Portanto, é um projecto que poderia ter um grande desenvolvimento mas, tendo esta restrição, não se consegue desenvolver e, neste caso, o empresário acaba por ficar circunscrito ao mercado da ilha, e estamos a falar de um universo de cerca de oitenta mil pessoas. Temos um problema claro de mercado porque o mercado do país já é restrito por si só, pois somos apenas 500 mil almas. Mas, pelo menos, 500 mil almas para um pequeno empresário já poderiam ser um mercado interessante se conseguisse disponibilizar o seu produto nesse mercado. Mas não consegue. E um empresário aqui em São Vicente, na prática, consegue servir apenas as poucas oitenta mil pessoas de São Vicente e as mais de cerca de trinta mil de Santo Antão. Isto numa base regular. O resto é aleatório e pode chegar uma semana ou não.

 

 

“Mas o problema que se coloca é que a aposta feita no hardware não foi acompanhada pelo software”

 

NN: É esta a questão de fundo e dramática para o empresariado nortenho . Quando ouvimos os políticos a falarem das infra-estruturas, incentivos  e das condições para a realização  de negócios, temos a sensação de que só falta a Alice para se estar no país das maravilhas. Mas quando falamos com as pessoas que lidam com estas questões vemos que há problemas como o dos transportes que não estão resolvidos. Qual é o país em que os empresários acham que vivemos?

BL: Isto é uma verdade. Que o Governo tem vindo a apostar nas infra-estruturas, não se pode negar: os aeroportos, os portos, as estradas. Mas o problema que se coloca é que a aposta feita no hardware não foi acompanhada pelo software. No fundo, temos um belíssimo computador com um processador hiper-rápido e com uma enorme capacidade de memória mas não temos um sistema operativo e os programas que nos permitem explorar as potencialidades deste computador. Portanto, é isto que estamos a viver no país: temos bons portos mas não temos barcos. Esse é o problema. E dizem, e muito bem, que cabe ao sector privado investir nos barcos. Bom, até aceito que o sector privado deva fazer um esforço, mas o facto é que o sector privado tem vindo a fazer este esforço. O pouco transporte marítimo que existe no país não é do Estado. É do privado. Só que o transporte marítimo que temos é aquilo que o privado, com as suas dificuldades em termos de financiamento, consegue disponibilizar. Se houvessem os adequados apoios e parceiras entre o público e o privado, poder-se-ia fazer muito mais e melhor, porque o Estado não pode pura e simplesmente lavar as mãos e dizer que isso é tarefa do privado. Numa primeira fase, tem de haver um acompanhamento e o apoio do Estado neste sentido é fundamental. E até está aqui em causa o serviço público de transporte e isso faz parte das funções do Estado. O Estado deve ajudar no desenvolvimento, depois pode até sair, mas deve criar as condições para que hajam navios adequados e um quadro regulamentar de concorrência e uma definição do transporte público bem definido com uma entidade reguladora bem estruturada, bem equipada para garantir que a actividade neste sector se faça em condições leais de concorrência. Temos de fazer esta aposta no software para que as infra-estruturas possam funcionar e é este o grande problema que nós temos.

 

“Não posso dizer que todas estão no vermelho, mas diria que a esmagadora maioria opera no limiar da sobrevivência”

 

NN: Relativamente ao empresariado do norte há queixas que todas as empresas estão no vermelho. O que há de real nisto?

BL: Não são só queixas. Não posso dizer que todas estão no vermelho, mas diria que a esmagadora maioria opera no limiar da sobrevivência. Porque com o mercado que temos e com o que elas conseguem servir e com o poder de compra deste mercado, é evidente que vão até um certo ponto e a partir daí não conseguem ir mais longe.

NN: Então é um vermelho anunciado?

BL: Exactamente. Porque não podem crescer muito, porque não podem aumentar muito as suas despesas de funcionamento, porque o retorno que têm da sua actividade não permite cobrir essas despesas. Portanto, há muito poucas empresas nesta região. Estou a falar de pequenas e médias empresas e não das grandes empresas que têm sede nesta região e que jogam noutros campeonatos, mas na esmagadora maioria, e sabemos que o nosso tecido empresarial é constituído, em noventa e nove por cento, por micro e pequenas empresas e estas não têm grandes condições de expansão e funcionam, como se costuma dizer, resvés ou estão no vermelho de forma quase estrutural. E há muitas empresas que se mantêm por mera teimosia dos seus proprietários.

NN: E acrescentam-se as despesas ao fisco, à previdência social.

BL: Exactamente.

NN: Para terminar, apenas uma provocação. Neste contexto, para que serve uma Câmara de Comércio no país?

BL: Serve para ajudar os empresários a melhorarem as condições em que desenvolvem a própria actividade. No fundo, ajuda os empresários a fazerem mais e melhores negócios.

NN: Mesmo dentro desta conjuntura de que já falamos?

BL: Sem dúvida, porque se não existissem as Câmaras de Comércio e as agremiações empresariais, as lutas dos empresários seriam uma luta solitária em que cada um tentava fazer a sua parte de uma forma fragmentada e individual. Com as Câmaras de Comércio e as outras associações empresariais temos uma voz comum, porque servimos de interlocutor e, muitas vezes, até de contraponto ao Governo e aos sindicatos o que permite aos empresários de terem uma voz conforme diante dos demais jogadores da nossa actividade económica.

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NN: Não poderia terminar sem ter a sua opinião sobre o seguinte :  Assistimos ao desaparecimento  duas últimas referências do tal comércio tradicional e que tinham banca na Associação Comercial, como a Casa do Leão e agora a Casa Serradas, o que é que isso significa? Ou já não significa nada?

BL: Acho que existem diversos factores que convergiram para acontecer o que aconteceu com essas casas tradicionais. Acho que sobretudo, foram empresas que não souberam acompanhar a evolução dos tempos e que não se modernizaram e não souberam criar as condições para enfrentarem os novos tempos e a nova concorrência, porque funcionavam num determinado quadro quando havia uma determinada política de protecção e onde as importações eram limitadas e havia uma série de circunstâncias que não incentivam o surgimento e a concorrência. Concorrência que, a partir da década de 90, com a liberalização da economia começou a surgir e de repente viram-se na contingência de facto de concorrer com outros jogadores. Não souberam adaptar-se a este novo tempo. Mas também não se pode escamotear as dificuldades de que a economia de São Vicente começou a padecer. São empresas que tinham custos fixos muito elevados porque o quadro era sobredimensionado e, muitas vezes, com pessoal com muito tempo de serviço na casa.

NN: Então era uma morte anunciada?

NN: Era uma morte anunciada a partir do momento em que não se conseguiram adaptar. Porque se se tivessem sabido adaptar, redimensionar e procurar fazer o que, em muitos casos, outras casas fizeram, isto é, uma expansão para as outras ilhas e saírem de São Vicente e criarem estruturas e aproveitarem a dinâmica de crescimento da ilha de Santiago ou de outras ilhas, se tivessem sido mais agressivos e previsto a mudança dos tempos e tomado medidas necessárias, esta morte até poderia não ser anunciada. Ficaram um bocado parados no tempo.

NN: Então fica a lição e a memória?

BL: Com certeza. E não deixa de ser triste porque para além do aspecto meramente empresarial e económico, estamos a falar de ícones da ilha de São Vicente e que, de certa forma, se confundem com a história de São Vicente. E se formos ver os relatos daquilo que foi a evolução da ilha de São Vicente, o desenvolvimento dessas casas está umbilicalmente associado à vida social de São Vicente. E se formos ver os cancioneiros, há muitas referências a estas empresas. Então também são pares da nossa história que acabaram por desaparecer.

Entrevista publicada no NoticiasdoNorte / impresso  n 7 

  1. Andrea Fortes

    Salvo raras excepções o pior que pode acontecer a um País no que respeita ao seu desenvolvimento é estar dependente de ajudas internacionais e em especial os paises africanos. Tal afirmacao é confirmada em varios estudos internacionais que infelizmente nunca sao publicados nos nossos meios de comunicação. Bilioes de dollars foram doados e salvo algumas excepcoes, apenas um grupo de corruptos e cleptomaniacos é que inriqueceu pornograficamente com tais ajudas. E Cabo Verde nao fugiu à esta regra. Quem é que viu no tempo colonial quando nao existiam ajudas internacionais tantos indivíduos exibindo tanta riqueza como depois da independência? A maioria nao herdou esta riqueza dos seus pais que possuiam na maior parte das vezes o minimo para sobreviver nem tao pouco a obteu através dum trabalho honesto.
    Para aqueles que conhecem S.Vicente passamos a ter e até com um certo orgulho uma semelhança com “Júlia Amore” na arena internacional e o pior ainda é que sentimos vaidosos com esta situação de estarmos permanentemente estendendo as mãos. Esta nefasta mentalidade de dependencia e indigencia estatal nas relacoes internacionais mais parece ter alastrado e servido tambem de exemplo e modo de comportamento para uma significativa faixa da Nação.

  2. António dos Santos

    O diagnóstico está bem feito, mas a paternidade deste diagnóstico tem sido as pequenas e médias empresas que têm sistematicàmente batido neste assundo, mas tem sido um dialogo de surdos. Até a bem pouco tempo a nossa associação empresarial estendia o tapete vermelho ao Governo, quando devia bater um muro na mesa, sabendo, por que tinha dados, que o abismo estava a vista. VALE MAIS TARDE DO QUE NUNCA, ALELUIA! Alinharam e estão a dizer as coisas sem subtilezas. A questão é: Que saída?

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