O caso da Alemanha: política futebolística e seus efeitos

25/07/2014 09:38 - Modificado em 25/07/2014 09:40
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LUIS VILARO desaire da seleção Alemã no Euro 2000 em que não passou a fase de grupos (com apenas 1 ponto e marcando 1 golo), precipitou uma profunda reforma no seu sistema futebolístico. A recém criada Liga de Futebol Alemã (DBL), em parceria com a Federação Alemã de Futebol (DBF), celebrou um acordo que obrigava os clubes a desenvolver academias de formação para jovens jogadores de futebol. Tendo como pontos de partida a Academia do Ajax de Amesterdão e o Centro Francês para a Excelência em Clairefontaine, o objetivo era combater os efeitos nefastos da Lei Bosman que promoveu a contratação excessiva de jogadores estrangeiros, retirando a oportunidade aos jovens alemães de se evidenciarem.

Este política determinava que todos os clubes da Bundesliga 1 e 2 deveriam desenvolver os seguintes vectores estratégicos: (I) infraestruturas, (II) programas de educação para os seus jogadores, (III) metodologias de otimização do rendimento desportivo e (IV) contratação de técnicos especializados. Para avaliar a qualidade das academias de cada clube foi contratada uma empresa externa independente denominada de Double Pass que atribuía uma classificação de 0 a 3 estrelas. Em função do número de estrelas conquistadas por cada clube, a Liga atribui-lhe fundos provenientes do Fundo de Solidariedade da Liga dos Campeões (cerca de 7.5 milhões de euros em 2009/10). Por exemplo, uma classificação de 3 estrelas pode originar uma receita adicional ao clube de 300 mil euros.

Dez anos depois, os resultados estão à vista e permitem atestar da evolução do futebol germânico:
1. Nos 10 anos conseguintes os clubes da Bundesliga 1 e 2 investiram nas suas 36 academias de formação mais de meio bilião de euros, das quais 29 têm protocolos com escolas locais (onde graduaram-se jogadores como Ozil, Kroos, Boateng, Draxler e Mario Gomez). Somente no ano de 2010, foram reencaminhados da Bundesliga para os centros de formação cerca de 90 milhões de euros.

2. Em média, cada equipa da Bundesliga tem 15 jogadores no seu plantel principal proveniente das academias de formação. Por exemplo, 52.4% dos 535 jogadores da Bundesliga 1 são provenientes das academias de formação, dos quais 107 (20.4%) ainda hoje jogam pelo clube que os formou.

3. 36 clubes profissionais da Bundesliga possuem hoje cerca de 282 equipas de formação. Cada clube tem uma equipa por idade de jogador (dos 12 aos 17 anos), uma equipa de sub-18/19 e outra de sub-23 (diferente de equipas BB). Ao todo são 5445 jogadores em processo de formação.
4. Trabalham cerca de 433 treinadores
nas academias dos clubes da Bundesliga 1 e 2, dos quais 160 estão empregados a tempo integral; 61 destes treinadores têm a licença máxima da UEFA (nível Pro) e 196 o nível UEFA A, excedendo em 177 o número de treinadores de elite.

Será obra do acaso que nos últimos dois anos tenhamos assistido a uma final da Liga dos Campeões inteiramente germânica, e à atribuição do título de campeão do mundo à Alemanha?!


Investigador e docente universitário na Universidade Lusófona e Faculdade de Motricidade Humana

 

abola.pt

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