PEDIDO DE PERDÃO

24/07/2014 12:45 - Modificado em 24/07/2014 12:45
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– Matéria! Fizeste de tudo para ter dinheiro, roubaste, fui a tua escrava, chantageaste várias pessoas. Em vez de estares na cadeia, estás solto e bem da vida. Ainda dizes que tudo é matéria! Isso faz-me pensar que viver uma vida de honestidade não me levou a nada. Quem disse que o crime não compensa?

Três carros da marca Mercedes estacionam à frente da porta do bar da Júlia em Monte Sossego. O motorista abre a porta do veículo a um homem que veste fato branco de linho fino. Ele desce, entra no estabelecimento acompanhado dos seguranças e dirige-se ao balcão onde pergunta pela proprietária.
– Quem é que pergunta por mim? Retruca à Júlia que vem da cozinha a limpar as mãos num avental azul-escuro.
– Sou eu.
– Quem é o senhor? Guilherme tira os óculos de sol e pergunta.
– Esqueceste-te de mim, Júlia?
– Guilherme! O que fazes aqui? Pergunta a mulher com a voz trémula.
– Tu és um dos motivos que me trouxe aqui.
– Por minha causa? Pergunta a pobre assustada.
– Será que me concedes um pouco do teu tempo?
– Da última vez que nos vimos quebraste-me o bar, deixaste-me cheia de marcas no corpo. Diz a Júlia apalpando o ombro direito.
– Na minha vida aconteceram coisas que me fizeram abrir os olhos e reconhecer os meus erros. Aqui está o dinheiro que te roubei. Guilherme tira um talão de cheque do bolso e dá uma quantia à Júlia. Ela pega no cheque e quando vê os números fica espantada. Dobra-o e guarda-o junto ao seio esquerdo.
– Não dá para acreditar que aquele homem é o Guilherme. O que será que ele estará a preparar? Perguntou alguém.
– Viram aqueles carros?! Perguntou outro.
– Ouvi dizer que ele contraiu matrimónio com uma milionária. Retrucou outra pessoa.
– Aceitas conversar comigo?
– Vai ter que ser rápido porque tenho umas moreias para fritar.
– Não posso demorar também.
– Vamos para a sala.
– Aqui continua tudo igual. Disse o Guilherme entrando na pequena sala. Júlia tinha pouca mobília, uma mesa com quatro cadeiras no centro, um pequeno televisor e um sofá. A visita passa as mãos no sofá, na mesa e recorda o passado.
– Continuo a mesma pessoa. Tu é que estás bem de vida. É engraçado. Fizeste a vida negra a muitas pessoas e olha como estás. Trabalho feita uma mula e não tenho nada.
– Tu é que dizes que eu tenho tudo.
– E não tens? Olha como vestes, os carros que estão lá fora, esse cheque?!
– Isso é só matéria, Júlia.
– Matéria! Fizeste de tudo para ter dinheiro, roubaste, fui a tua escrava, chantageaste várias pessoas. Em vez de estares na cadeia, estás solto e bem da vida. Ainda dizes que tudo é matéria! Isso faz-me pensar que viver uma vida de honestidade não me levou a nada. Quem disse que o crime não compensa?
– Estás muito amargurada Júlia.
– Os teus maus-tratos e esta porcaria de vida que nunca sai da cepa torta é que me fizeram assim. Passei anos a pagar as tuas dívidas e quando chegavas em casa nada podia dizer-te para não ter que apanhar feita uma escrava. Lembras daquele dia que levaste uma sova na rua por causa das dívidas de jogo? Chegaste a casa encharcado em sangue, quis levar-te para o hospital mas tu não quiseste porque tinhas medo que a Polícia te pusesse as mãos em cima, chamei-te à razão por causa do jogo, da vida errada que levavas, Guilherme. Só queria o teu bem já que eras o homem que dormia comigo. Naquele dia apanhei a dobrar, só não me mataste porque os clientes do bar entraram e fizeram-te parar. Pensavas o quê, que chegarias aqui como se nada fosse que eu te receberia de braços abertos? Não imaginas a vontade que tinha de poder despejar na tua cara tudo o que estava engasgado aqui, Guilherme, de poder dizer que já não tenho medo de ti. Não imaginas o alívio que senti quando fugiste. Já não era necessário esperar-te deitar para esconder atrás daquele balcão a caixa onde guardava o dinheiro que ganhava cansada…
– Não sei o que dizer. Perdão, perdão, é só o que te peço. Ouve o que tenho para dizer, Júlia.
– Desembucha de uma vez porque não tenho a vida ganha.
– Tens razão quando dizes que passei a vida correndo atrás de cascalho. Quando fui embora raspei todo o dinheiro que guardavas. Hospedei-me numa dessas pensões ordinárias que há por aí. O dinheiro não deu para muito. Quando ele acabou não teria para onde ir se não tivesse encontrado o Barbicha. Ele era um homem de média estatura, tinha a cabeça rapada, usava duas argolas de ouro em cada orelha e era gordo. Não tinha piedade de ninguém.
– Sempre andaste com marginais da pior espécie.
– Jamais conhecera alguém assim. Os homens com quem andava são amadores ao pé dele. Barbicha tinha uma organização criminosa que assaltava joalharias, bancos, falsificava dinheiro, traficava drogas, crianças, órgãos humanos, armas, etc. Os nossos crimes eram perfeitamente organizados. Tudo era planeado ao mínimo detalhe.
– Porque é que me contas estas coisas? Pergunta a Júlia interrompendo a narração do Guilherme que não lhe responde.
– A nossa organização era muito conhecida. A Polícia Judiciária fazia de tudo para nos prender e nada. Éramos conhecidos como os lagartos escorregadios. A comunicação social estava caída sobre a Polícia Científica devido aos fracassos nas investigações.
– Lembro-me de ter ouvido qualquer coisa na televisão. Não duvido que tenhas tido algum envolvimento com essa organização. És homem para tudo. Agora percebo de onde é que vem o teu dinheiro.
– Enganas-te Júlia.
– Claro! Agora estás cheio do cacau!
– O meu dinheiro não vem do crime.
– Guilherme! Conta isso a quem não te conheça!
– Deixa-me terminar. É certo que o dinheiro do crime entrava a rodos, mas também saía do mesmo jeito.
– Explica-me uma coisa. Pergunta a Júlia com a mão no queixo. Como é que vocês escapavam das garras da P. J.? Pelo que eu ouvia os homens a comentar no bar a própria Polícia não sabia como explicar os constantes fracassos!
– O Barbicha tinha um informante dentro da Polícia. Era conhecido como o X9. Ele informava-nos de todos os passos da Polícia. Mas o mal tarde ou cedo acaba por perder. Barbicha e o X9 desentenderam-se por causa da divisão dos lucros. Ele queria ter uma parcela mais elevada na partilha e isso desagradou ao chefe dos lagartos. No último assalto o nosso informante não passou todas as informações e a Polícia caíu em cima de nós numa joalharia. Ficou claro que tínhamos sido vítimas da vingança do X9. Barbicha jurou que se escapasse iria atrás do traidor. Dito e feito. Os agentes da Lei tinham a joalharia cercada, disseram-nos para sair de mãos para cima que teriam compaixão de nós. “Quando é que a Polícia teve compaixão de criminosos?” Aquilo foi um banho de sangue, Júlia. Houve mortes de ambos os lados. Dos lagartos, eu e o Barbicha fomos os únicos que saímos com vida daquela guerra. Aquela noite ficou conhecida como a noite sangrenta.
Barbicha cumpriu o prometido e fomos atrás do X9. Passámos a cidade a pente fino até o encontrarmos. Conseguimos atraí-lo para uma armadilha. Só que de burro ele não tinha nada, muito pelo contrário. A Judiciária estava interessada na cabeça do Barbicha e colocara um prémio de dez mil contos para quem revelasse o seu esconderijo. O nosso ex-informante queria fazer carreira prendendo o chefe da maior quadrilha criminosa de Cabo Verde. Julgou que conseguiria esse feito sozinho. Os dois brigaram até à morte. Quando ouvi a sirene da polícia avisei ao Barbicha mas ele não me deu ouvidos. Tratei de fugir dali sem mais delongas. Foi na televisão que fiquei sabendo que quando a Polícia chegou os dois estavam quase mortos. Barbicha sabia que no mundo do crime não existem amigos, por isso gravou um CD com todas as conversas que tinha com o X9 e antes de deixar este mundo para ir prestar contas da sua passagem aqui na terra entregou o material aos agentes da lei. O X9 que não tinha conhecimento da existência do CD negou todas as acusações no tribunal e por isso o Meritíssimo Juiz ordenou que pusessem o CD para ele ouvir e quando viu que não tinha como fugir das acusações baixou a cabeça. O Juiz considerou-o inimigo do Estado e condenou-o a uma pena de cinquenta anos de cadeia. Neste momento ele está a cumprir a pena na prisão de alta segurança na ilha de Santa Luzia.
– Porque disseste que estás aqui por minha causa, perguntou à Júlia.
– Tenho uma filha.
– Tens uma filha?
– Sim, Júlia. Guilherme introduz a mão direita no interior do casaco e tira uma fotografia que mostra à Júlia.
– Ela é linda. Quantos anos ela tem?
– Ela tem cinco anos e chama-se Renata.
– Como é que conheceste a mãe dela?
– Conheci-a um ano depois de ter deixado a vida do crime. Estava a andar pela rua quando vi dois homens a assaltar uma jovem. Aproximei-me e disse-lhes para a deixarem em paz. Um deles puxou uma faca e partiu para cima de mim. Despi o casaco e enrolei-o nos braços. Brigámos e quando o outro viu que eu ia acabar por vencer o companheiro desferiu-me dois tiros nas costas e caí sem sentidos. Fui acordar meses depois num hospital. A enfermeira de plantão disse-me que enquanto estive em coma a mulher que me tinha levado para o hospital não saiu da cabeceira do meu leito um minuto. Uns meses depois casámo-nos. Era filha única de um casal de milionários. É por isso que tenho dinheiro.
– Vês… minha filha é doente, Júlia. Ela tem um problema grave no coração. Vários especialistas já examinaram a Renata e até agora não nos deram uma solução para o seu problema. Todo esse dinheiro não me serviu de nada, Júlia. A vida é engraçada, no passado corri tanto atrás do dinheiro e hoje que o tenho vejo que ele não me serve de nada. Para quê ter bens se ele não pode salvar a vida da pessoa que mais amamos, Júlia?
– Quem te vê a falar assim não é capaz de acreditar, Guilherme.
– Jurei que se a minha filha for poupada faço tudo o que estiver ao meu alcance para melhorar a vida daqueles que sofrem. É por isso que estou aqui para pedir que me perdoes. Antes de vir visitar-te estive na casa do velho Augusto e contei-lhe a minha história. Ele me disse que terei muito tempo na vida para aprender. Acho que tudo isso é um castigo que a vida me está dando. Aceito qualquer castigo mas não na minha filha. Ela não pode pagar pelos meus erros.
-Fico surpreendida pela tua mudança, Guilherme. Confesso que nunca imaginei voltar a ver-te na minha vida.
– Perdoas-me Júlia? Preciso do perdão daqueles a quem magoei. É importante para mim. Acredita que sofro.
Alguns tem consciência do mal que fizeram mas não pedem desculpas por causa do orgulho que lhes dominou o coração. E há homens que são poupados para aprenderem a viver. Não raras vezes, os homens têm que sofrer para poderem valorizar o que a vida lhes traz. O sofrimento não passa de um exercício espiritual. As vezes nós perguntamos porquê eu? O que fiz para estar a amargar? Essa pergunta é egoísta. Será que não podemos sofrer, mas os outros podem? Em vez de fazer essa pergunta devemos é perguntar: o que poderei aprender com isto?! Que tipo de homem deverei ser a partir de agora?
É isso que importa nesta vida. Ela passa depressa. As vezes os nossos olhos estão embaciados pela neblina das estradas que tomamos aqui na terra que não damos conta de que a vida passa e que com ela se vão as nossas oportunidades de juntar o nosso tesouro. Não me refiro ao tesouro material, aquele que as traças consomem mas sim ao espírito, aquele que levaremos para o além. Muitas vezes, ao despertamos para a realidade da nossa vida a idade já nos terá alcançado e com ela os problemas da velhice. O nosso tempo estará acabando.
Ronaldo Andrade – Ronana

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