Filhos abandonados: Quando a mãe é também o pai

21/07/2014 08:05 - Modificado em 21/07/2014 08:06

BebeMaria Manuela e Sandra vivem em extremos opostos da urbe do Mindelo. Não se conhecem, mas quando se fala de crianças abandonadas pelos pais – embora cada uma com a sua história -, têm algo em comum. Três filhos, uma menina e dois rapazes e estão desempregadas.

Todos os dias, elas fintam o destino para, no mínimo, levarem comida para a mesa. Situação difícil que, nalguns casos, impõem expedientes pouco convencionais para se sobreviver.

O que aqui o NN conta, se comparado com a ficção é pura coincidência, pois, trata-se de duas realidades de vidas difíceis que a maior parte da sociedade mindelense finge não conhecer, limitando-se a olhar para o outro lado.

Maria Manuela de 43 anos é mãe de três filhos. Davidson de 19 anos, Suzilene de 16, ambos a estudar o nono ano e uma bebé de 9 meses.

Maria, hoje a criar três filhos abandonados pelos respectivos pais, estudou até ao 1º ano do ciclo preparatório na então escola Jorge Barbosa que, na altura, funcionava no edifício histórico, hoje em pleno estado de degradação, situado atrás do Palácio do Povo, às portas da rua de Lisboa.

Por causa de uma febre que durante muito tempo a castigou, acabou por perder o ano e deixar de vez a escola, um pouco também porque obrigada pelas dificuldades da vida.

Aos 24 anos, primeira filha dos pais, há muito a lutar para ajudá-los no sustento da casa e a cuidar dos restantes irmãos mais novos, Maria ficou grávida de Davidson, fruto de um relacionamento que pensava podia ajudá-la a dar um rumo melhor à sua vida. Pensava deixar a casa dos pais e constituir família. Enganada pelo destino, acabou sozinha e em casa dos pais.

Entre dificuldades, o tempo foi passando e três anos depois, surgiu o segundo namoro: também a segunda gravidez, da qual nascia Suzilene, e com ela mais dificuldades, porque pouco tempo depois separou-se do companheiro.

Durante 15 anos a viver com os pais e mais cinco irmãos, um deles com problemas mentais, sobreviveu com o que conseguia ganhar a “lavar e passar roupas”, quando era solicitada, o que hoje já não acontece. Às vezes, recebia esporadicamente dois mil escudos do pai de Davidson que com o tempo, a padecer de problemas de saúde, ficou sem trabalho há doze anos e, desde então, deixou de ajudar no sustento do filho.

A vida de Maria ficou ainda mais complicada. O pai da Suzilene que nos primeiros anos da vida da criança, agora adolescente, ajudava nas despesas com a filha, depois de se separar da mãe deixou há muitos anos de ajudar no que quer que seja para as necessidades da filha.

Sem alternativa, Maria recorreu aos Tribunais. Algum tempo depois, já angustiada de tanto ir ao Tribunal e sem nada resolver, no dia em que lhe pediram para constituir advogado nesta história real de abandono, ela própria acabou por abandonar o caso.

Hoje, com uma bebé de nove meses, conta apenas com uma pequena ajuda do pai da criança, quando este consegue “um dia de trabói”, como confidenciou ao NN, cabisbaixa, de olhos fixos no chão, como que à procura de algo que perdeu e nunca mais encontrou.

De manhã até à uma da tarde, a rotina de sempre. Anda pela cidade à procura de uma esmola que lhe permita levar algo de comer para casa, antes de Davison e Suzilene saírem para a escola. Muitas vezes, regressa a casa quase sem nada e, como lamenta, umas bolachas ou um pão, dão para enganar a fome.

Aos 43 anos, Maria vive o sonho de encontrar um trabalho, confidenciou-nos, “o que quer que for” para poder, pelo menos, dar de comer aos filhos, pois a única refeição quente que tem garantida, é uma sopa que a Igreja Adventista do Sétimo Dia, distribui aos sábados. Fora disso “é desenrascar sima Deus quiser”.

Sandra tem 38 anos, é natural de Fundo Lombo Branco, Cidade do Porto Novo, na Ilha de Santo Antão, vive há muitos anos em São Vicente, na companhia dos três filhos. Edsânia de dezoito anos, estuda o décimo primeiro ano, William de dez anos, está no quinto ano de escolaridade e Wilson de frequenta o quarto ano de escolaridade.

Ainda no Porto Novo, Sandra morou com o pai de Edsânia com quem dividia as despesas da casa. Quando a filha completou cinco anos, chegou também a separação. O ex-companheiro deixou desde logo de ajudar no sustento da filha, mas quando Sandra lhe fez saber que ia recorrer à justiça, logo o pai resolveu por si só, e passou a contribuir com mil e quinhentos escudos.

Sozinha e no desemprego, Sandra decide então vir viver em São Vicente juntamente com a filha, à procura de uma vida melhor. Aqui as coisas complicaram-se ainda mais, porque ainda sem trabalho, deixa de receber o dinheiro do pai da filha. Foi então que, tentou falar várias vezes com o pai da sua filha para saber porque é que já não a ajudava nas despesas e ele apresentava várias desculpas, entre as quais, que tinha uma outra família para sustentar e que o que ganha, mal chega para viver com mulher e filhos. Cansada das desculpas de sempre e sem dinheiro para gastar no telefone e sem resultado nenhum, deixou de telefonar. Num bom crioulo, Sandra disse ao NN que a solução foi “largal d´amon”.

Tempos depois em São Vicente, Sandra conhece o pai dos dois meninos, William e Wilson, com quem viveu alguns anos. Um companheiro que a ajudava com os filhos e passou a viver uma vida menos miserável. Quando tudo parecia dar certo, o pai dos meninos adoeceu e acabou por falecer.

Agora vive sozinha com os filhos, num quarto que lhe foi cedido por um conhecido, que tendo conhecimento da sua história de vida, deixou-a ocupar o espaço “até segundas ordens”.

Amanhece sem ter a certeza de que vai conseguir uma refeição quente para os três filhos. Quando chega ao meio-dia e não vê qualquer recurso, manda os meninos para a casa dos avós. Às vezes, regressam –  conta-nos Sandra -,  com “cem ou duzentos escudos” que têm de fazer chegar para pôr algo na mesa para ela, Edsânia, William e Wilson. Sandra reconhece que os avós dos rapazes também têm as suas limitações, mas estão sempre disponíveis quando se queixa da falta de roupa, sapatos e materiais didácticos para os rapazes.

Vive a braços com as propinas, todos os dias dorme com a preocupação de arranjar setecentos escudos que tem de entregar na escola de William e Wilson até ao fim do mês. Sabe que não tem o dinheiro e nem sabe onde o arranjar, sem perder a esperança, lança um olhar para o céu e conclui: “sei que vou pagar”.

Mesmo cercada de todas as espécies de dificuldades próprias de uma pessoa com três filhos para sustentar, é visível o carinho que Sandra nutre pelos filhos, principalmente pelos mais pequenos e procura fazer de tudo para os agradar. Prova disso, foi quando os miúdos lhe disseram que gostariam de frequentar uma escola de futebol. A mãe disse-lhes que mal lhes podia dar de comer, quanto mais, para lhes pagar a mensalidade de uma escola de futebol.

Durante dias, confessa que ficou angustiada por não poder realizar o desejo dos meninos. Um dia, ganhou coragem. Foi falar com os responsáveis de uma escola de futebol para crianças. Estes, sensibilizados com a sua situação, mandaram-na levar as crianças para fazerem um teste. Os treinadores gostaram e aceitaram de imediato o William e o Wilson na escola. É com muito orgulho que, religiosamente, Sandra acompanha os filhos aos treinos todos os dias.

É então entre as incertezas do amanhã que Sandra força um sorriso nos lábios e diz que para quem não tem nada, o segredo para não se desesperar “é vivê um dia de cada vez!”.

 

Texto publicado no NN n º 6

  1. aldita

    essas situasao da vida e muita triste mas corage pra voces deus e grande.

  2. katxy

    vida te mut dur!!!

Os comentários estão fechados.

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