Gaza na vertigem de uma escalada que ninguém parece sabe travar

11/07/2014 01:14 - Modificado em 11/07/2014 01:14
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gazaO Médio Oriente “não se pode permitir uma nova guerra aberta”, avisou o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, enquanto o Israel e o Hamas exibiam o seu músculo militar: as bombas sobre Gaza mataram 31 pessoas em menos de 24 horas, os rockets palestinianos paralisaram as cidades israelitas mais a Sul. Aos dois lados interessa o regresso a um cessar-fogo, mas sem a acalmia necessária, embrenham-se numa escalada que nenhum deles parece saber como travar.

A ofensiva aérea lançada terça-feira por Israel é a mais intensa de sempre contra Gaza: só na noite de quarta para quinta-feira foram atacados 320 alvos no enclave, a que se juntaram mais cem durante o dia, elevando para 860 os bombardeamentos em menos de 72 horas. Em 2012, na última grande operação contra aquele território, Israel lançou 1450 ataques nos oito dias que demorou a negociar uma trégua.

Quando há dois anos as armas se calaram, a população de Gaza contava 160 mortos; agora são já mais de 80, muitos deles civis. Era o caso de oito adeptos de futebol que assistiam pela televisão às meias-finais do Mundial de Futebol num café de Khan Younis, no Sul da Faixa de Gaza. Fontes palestinianas dizem que quatro mulheres e quatro crianças morreram quando duas casas da mesma cidade foram bombardeadas durante a noite. O Exército israelita disse não ter informações sobre os dois ataques – admite estar a atacar as casas de dirigentes do Hamas, alegando que estão a ser usadas como postos de comando, mas assegura que os moradores são avisados previamente, primeiro com um telefonema e depois com o disparo de um primeiro projéctil sem munição.

A cada morte, o Hamas avisa que a vingança será inédita e, apesar dos cálculos que indicam que o movimento está mais frágil do que nunca, conseguiu que as sirenes de ataques aéreos soassem, pela primeira vez, de Norte a Sul de Israel. Pelo terceiro dia consecutivo, os seus rockets atingiram as áreas metropolitanas de Telavive e Jerusalém, a mais de 50 quilómetros de distância. Ao início da noite, rockets contra as cidades de Beersheba e Ashdod, (Sul) provocaram danos avultados, mas as notícias de que havia feridos graves não se confirmaram.

Em 2012, o Hamas tinha apenas rockets de fabrico artesanal com um alcance que não ia muito além dos dez quilómetros. Terça-feira, o grupo reivindicou um disparo que atingiu os arredores da cidade costeira de Hadera, a cem quilómetros de Gaza. A maioria são M-320, rockets de fabrico sírio, pouco precisos e presa relativamente fácil para o escudo antiaéreo israelita, que interceptou dezenas nos últimos dias. “Servem, no entanto, o propósito estratégico e político do Hamas: mostram aos palestinianos que podem atacar bem no interior de Israel e mostram aos israelitas que os ataques em Gaza não os impedem de atacar”, escreveu a Foreign Policy.

“É mais urgente do que nunca encontrar um entendimento para o regresso à calma”, disse Ban Ki-moon perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido de emergência. O secretário-geral lamentou que “uma vez mais os civis palestinianos tenham sido apanhados entre a irresponsabilidade do Hamas e a dura resposta de Israel”, apesar de considerar “legítimas” as preocupações de Telavive com o ataque ao seu território.

“Não queremos um cessar-fogo, o nosso objectivo é desmantelar a infra-estrutura de rockets do Hamas”, respondeu o embaixador israelita na ONU, Ron Prosor, que durante a reunião ligou o seu telemóvel para que os outros diplomatas ouvissem as sirenes que soam constantemente no país. “Os israelitas têm 15 segundos para se abrigar”, lembrou. O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, garantiu também aos deputados “não estar a falar com ninguém de cessar-fogo”.

O Governo israelita insiste que vai continuar a “expandir a operação”, mas a invasão mantém-se como a opção de último recurso quando o objectivo traçado por Netanyahu foi o de travar o disparo de rockets e não o de tirar ao Hamas o controlo de Gaza. No entanto, a falta de um mediador – no Egipto governa agora o general Abdel Fatah al-Sissi, que vê no Hamas uma extensão da Irmandade Muçulmana e assente em silêncio ao seu enfraquecimento – e no caso de os rockets não pararem pode ser forçado a avançar, avisam os analistas.

O jogo é também perigoso para o Hamas, que exige em troca da trégua cedências que Israel considera inaceitáveis, como o alívio do bloqueio a Gaza ou a libertação dos seus militantes detidos nas últimas semanas. E se tem provado o seu maior poder de fogo, sabe também que o arrastar da ofensiva vai minar o seu poder em Gaza e esgotar os seus arsenais, que terá maior dificuldade em repor face à hostilidade egípcia.

publico.pt

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