Augusto Neves: “os governos têm visto para os outros lados do arquipélago e esqueceram-se de São Vicente “

6/06/2014 07:59 - Modificado em 6/06/2014 09:42

augusto neves2Augusto Neves está no meio do segundo mandato como Presidente da Câmara Municipal de São Vicente. Diz que não está arrependido de ter aceite o desafio e por enquanto não quer ouvir falar de recandidatura .Quer continuar a trabalhar sabendo que este é o tempo “das vacas magras” na CMSV e na ilha . Para Augusto Neves o mal de todos males de São Vicente é o governo que marginaliza a ilha e canaliza todos os investimentos para a ilha de Santiago.

 

Notícias do Norte: Existem são-vicentinos que acham que o Governo mexe nos seus bolsos propositadamente. O senhor como autarca, acha que esta atitude é intencional ou há uma mão invisível que não se sabe de onde vem?

Augusto Neves: Eu sinto isso como uma grande injustiça para com os são-vicentinos que merecem mais investimentos e essa injustiça é expressa directamente no alto nível de desemprego que atinge a ilha. Nós queremos investimentos que tragam trabalho. A nossa juventude necessita de oportunidades e quem consegue trazer investimentos estruturantes são os governos, porque esta ilha tem muita coisa por fazer. A Câmara tem as suas dificuldades e vai resolvendo os problemas do dia-a-dia de funcionamento, mas não consegue sem projectos estruturantes, não tem condições e nem consegue ir lá fora buscar, porque quem pode fazer isso é o Governo. Eu sinto uma grande injustiça, mas há algum tempo que esta ilha é marginalizada.

NN: Acha que caímos na pequena política em pensar que São Vicente é descriminado porque não é da cor política do partido que está no governo central?

AN: Eu não acho isso. Acho que já há muitos anos que esta Câmara tem sido marginalizada. Não é de agora.

 

“Acho que esta Câmara tem sido renegada há algum tempo”

 

NN: Então acha que é outra coisa?

AN: Acho que esta Câmara tem sido renegada há algum tempo. Mindelo é uma cidade organizada e necessita de condições mínimas para se desenvolver mas, há muitos anos tem vindo a ser vista como um filho de fora e tem sido penalizada duramente com tudo aquilo que seja para o seu desenvolvimento. Eu acho que não são pequenas obras pontuais que irão satisfazer esta população. Há todas as condições naturais, temos uma grande baía, poderíamos ter um grande porto com todas as condições. Nos vários anos depois da independência, continuamos com o mesmo porto de 1975 e não demos um passo. A pesca em que éramos uma ilha desenvolvida caiu e Mindelo é uma cidade do mar. As fábricas foram-se embora, não há incentivos e acho que os governos têm tido uma visão para os outros lados do arquipélago e esqueceram-se da ilha de São Vicente.

NN: Dentro disto, vai cair numa mini ratoeira, porque as populações chegam junto das Câmaras Municipais para exigirem, mas, por um lado não têm recursos do Governo. E com poucos recursos municipais como fazer?

AN: A única porta aberta do Estado é a porta da Câmara Municipal local, constituída por governantes eleitos pelo povo e que resolvem os seus problemas e, com toda a clareza, estamos de acordo com isto. Mas, às vezes, o povo não sabe as competências do Governo e das Câmaras. Vêm à Câmara com problemas de habitação e a edilidade tem de resolvê-los. Porque o governo local é a Câmara Municipal e se dissermos ao povo que não temos recursos, o povo não vê a dimensão da Câmara Municipal e tem sido esta a dificuldade. Nós estamos com dificuldades na arrecadação dos impostos. Quando o IUP era de três por cento, não tocámos na lei. O Governo desceu sem consultar ninguém e já tínhamos o orçamento aprovado. E na fórmula como está na lei a Câmara iria perder em receitas à volta de cinquenta por cento, por isso, temos de aplicar a fórmula correcta no IUP normal para compensar. O problema é de fácil explicação, mas de difícil convencimento para a população, porque quem paga é a população e em momentos difíceis, a Câmara foi segurando para não mexer nos impostos.

 

“ estamos a trabalhar em grandes projectos para discutir com a Câmara Municipal e a Assembleia sobre a sua viabilidade”

 

NN: E isto é uma penalização do Governo?

AN: Exactamente. É uma penalização do Governo para as Câmaras Municipais porque sabe que é a Câmara que trata directamente com a população.

NN: O dilema é que se vê que a Câmara Municipal está a cuidar da cidade, na limpeza, no ornamento da cidade, no calcetamento, em pequenas obras municipais mas, esta Câmara não tem recursos para ir mais além com grandes projectos que até chegaram a ser realizados noutros mandatos. Este é o dilema da gestão de Augusto Neves?

AN: É. Há um ano e tal que estamos a trabalhar em grandes projectos para discutir com a Câmara Municipal e a Assembleia sobre a sua viabilidade. Mas a Câmara Municipal pensa em projectos que trazem emprego. E pensamos que o nosso maior investimento que traz muito emprego, é o calcetamento. Há vários bairros como Monte Sossego, Ribeirinha, Bela Vista, Lombo Tanque e outras zonas que necessitam de calcetamento. E estamos a pensar em fazer uma ofensiva grande de calcetamento em todas estas ruas e alargar mais este conceito de cidade. E, por isso, temos de pensar num empréstimo estruturante porque iremos dar trabalho aos calceteiros, aos ajudantes, aos camionistas, aos pedreiros e é isso que nós pensamos. E que além desse projecto, pensamos em cada área como a juventude, a área social, o desporto. Mas teremos de fazer isso porque a situação está extremamente difícil. Pese todo o esforço que a Câmara tem feito graças aos nossos eventos e percebemos que o maior movimento de pessoas para São Vicente é no final do ano, no Carnaval e no festival em que a Câmara tem investido muito para convidar as pessoas e trazer turistas nacionais e internacionais para a ilha. Nós estamos À procura de outras épocas para fazermos eventos porque enquanto há movimento, há dinheiro a circular e temos os jovens a trabalhar e a situação da ilha melhora.

NN: No fim do último mandato, onde apanhou o testemunho de Isaura e completou o mandato, foram apresentadas obras estruturantes para a cidade. Neste momento está a meio do mandato, o que tem para apresentar se não tem dinheiro?

AN: É esse grande projecto de que lhe falei atrás e que passa por obras que vão criar emprego. E é esse projecto que tem de ser financiado via empréstimo bancário. Não temos outra solução.

 

“ não estou arrependido, pelo contrário, sinto-me muito satisfeito.”

 

NN: Mas lembre-se que não tem uma maioria na assembleia?

AN: Por isso é que estamos a trabalhar. Mas o projecto é para São Vicente. São obras para a cidade, para os mindelenses, para a melhoria da qualidade de vida dos mindelenses. E é isso que estamos a discutir no sentido de podermos apresentar o mais rapidamente à Assembleia Municipal este pacote de obras, para ver se conseguimos dar uma dinâmica nos próximos anos para o desenvolvimento de São Vicente e, assim, minimizar o desemprego.

NN: O Presidente está a meio do mandato, está arrependido?

AN: Não, não estou arrependido, pelo contrário, sinto-me muito satisfeito.

NN: Mas dizem que está arrependido porque a sua gestão é do tempo das vacas magras?

AN: É verdade, são momentos difíceis, mas tenho consciência de que estamos a fazer tudo o que é possível. Restaurar a cidade tem sido uma grande satisfação, tal como as obras de calcetamento e não vamos terminar porque temos muita gente a trabalhar. Estamos agora a trabalhar nas acessibilidades, no piso. Depois, vamos começar com o património. Primeiro, com o da Câmara, com a pintura e a restauração, depois ajudar outras instituições no caso do Liceu Velho e outros edifícios históricos e ajudar a tornar a nossa cidade mais bonita. E esperamos que até ao final do mandato, possamos ter realizado grande parte deste trabalho.

NN: No meio do mandato, é tempo de equacionar uma recandidatura?

AN: Ainda é cedo e falta muito tempo.

 

“O relacionamento com o Governo tem sido tranquilo”

 

NN: Mas, normalmente, os presidentes das câmaras vão ao segundo mandato…

Está extremamente difícil, mas estamos a pensar nisso. Eu acho que vamos prosseguir, trabalhando para São Vicente. Faltam dois anos, temos muito tempo e há muita coisa por fazer e, agora, acho que a população está a colaborar e está a ajudar e, tudo faremos para fazer um bom mandato.

NN: No início do seu mandato, o próprio primeiro-ministro, assumiu a particularidade de ter uma assembleia multicolor. Pela primeira vez, deixou antever que as relações com o poder central iriam mudar. E, publicamente, o primeiro-ministro disponibilizou-se para que isso acontecesse. Sente que foi mais conversa, ou melhorou algo?

AN: O relacionamento com o Governo tem sido tranquilo.

NN: Mas tem sido mais pelas relações pessoais que mantém com alguns membros do Governo…

AN: Sim, com o Ministro das Infra-estruturas, do Ambiente, inclusive com o Ministro da Cultura que apoiou no Carnaval. O relacionamento é bom. Mas São Vicente precisa mais do que isso, queremos investimento e assim, melhorar a situação de vida das populações. Mas nesta parte, melhorou consideravelmente porque a Câmara tem trabalhado num ambiente de tranquilidade, o que não acontecia outrora, visto que o poder central e os seus satélites criavam dificuldades a todos os níveis. Hoje trabalha-se com alguma tranquilidade e alguma confiança. Agora, aquilo que nós continuaremos a pedir ao governo central é que invista em São Vicente e faça investimentos que possam trazer trabalho. Não é um grande investimento para trinta pessoas trabalharem. Queremos que as pessoas trabalhem e melhorem as suas vidas e haja muito investimento. Mas se todos os investimentos que estão a ser feitos, fossem divididos pelas nove ilhas, estaríamos todos bem.

 

“Dizem que chamam o presidente para o telemóvel e que não responde, agora, isto é complicado, porque se abrir o telemóvel sempre que toca, eu não trabalho “.

 

NN: Dizem que o senhor é inacessível. É verdade que é difícil falar com o presidente?

AN: Acho que não. Eu tenho o mesmo esquema de trabalho: às segundas-feiras tenho audiências abertas e atendo trinta ou mais pessoas, à terça atendo as empresas. Todos os meses, faço uma Câmara aberta com a população. Já fiz em São Pedro, Madeiral, Salamansa e vou conversar com a população, com as instituições, com os serviços da Câmara sobre como fazer para facilitar os procedimentos. Eu visito uma empresa todos os meses. Agora, a situação é que São Vicente está com 80 mil pessoas e o presidente é um só e não pode resolver todos os problemas atendendo todas as pessoas. A Câmara tem vários vereadores que estão aqui para isso. E dependendo do assunto, são encaminhados para os vereadores, mas vou atendendo as pessoas. As pessoas queixam-se, mas a CMSV é uma instituição e as coisas têm de funcionar desta forma. Temos um gabinete que faz as marcações e tudo o que se faz numa instituição para funcionar com normalidade. Li essas acusações e não me tocaram em nada, porque vou fazendo o meu trabalho com a minha consciência livre. E ainda dou todo o apoio aos empresários criando todas as facilidades porque este é o nosso papel, para que haja desenvolvimento e emprego. Mas sou uma pessoa de fácil acesso, estou sempre na rua, converso com as pessoas. Porque não sei qual a intenção dessas acusações. Dizem que chamam o presidente para o telemóvel e que não responde, agora, isto é complicado, porque se abrir o telemóvel sempre que toca, eu não trabalho. E tenho uma grande ilha para trabalhar e tenho o meu método de trabalho.

NN: É um médico e militar que chega à política, quando se pensava que não era esse o seu caminho. Ganhou o gosto pela política ou o médico continua lá dentro à espera de voltar?

AN: Eu sempre pensei em dar a minha contribuição para São Vicente e acho que vou ficar a este nível, mas não sei o que pode acontecer no futuro, mas acho que vou ficar na contribuição autárquica para São Vicente. Portanto, vou seguir trabalhando para a minha ilha como sempre trabalhei e, assim, trazer um pouco da minha experiência durante alguns anos para esta instituição e todos os são-vicentinos. Pois claro que haverá outras pessoas para dar continuidade com outras ideias e ouros projectos. Mas o meu projecto é São Vicente.

 

  1. PAISV

    Revoluçäo PAISV.Talves golp d estado

  2. Geronimo

    Que Deus abençoe o trabalho do Dr. Augusto neves e da equipe Camarária. Não é fácil, resolver todos os problemas de uma ilha como S. Vicente. É mais um desafio, que vai sendo realizado aos poucos.

  3. antónio dos santos

    1.ª Observação: que governos Augusto se refere quando fala no plural? a 2.ª observação: sabe a pouco uma entrevista que se presume para marcar agenda. 3.ª observação: não entendo a insistência do jornalista em sacar do Augusto uma declaração em como será candidato a sua (dele) sucessão. Claro que o Augusto fugiu até onde lhe foi possivel, para acabar por dizer que ainda quer continuar a comer “àquele tussim”. É caso para se dizer, como o “cocoi” disse na sua magistral música…” coraja copo….”

  4. João Fortes

    VAI CATAR CUQUIM GUSTIM.
    ESTAS A METER A MÃO NO BOLSO DOS SANVINCENTINOS. VAIS PAGAR CARO POR ISSO NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES. O MONTEIRO JÁ TE DEU OS 150 MIL CONTOS? QUANTO ELE RECEBEU POR ESTE FAVOR? ELE JÁ TEM DUAS CASAS EM CHA DE MARINHA. AGORA COM ESSE DINHEIRO VAI COMPRAR A TERCEIRA CASA. COITADO DOS MILITANTES DA UCID OS PRESIDENTES DA UCID SEMPRE VENDERAM O PARTIDO.

  5. Alceu Alves

    É verdade que ao longo dos anos , os sucessivos governos não têem dado aquela devida atenção que São Vicente merece…e é por isso que o povo de Mindelo é especial em epocas eleitorais.. O Povo de Mindelo tem sido o grande ganhador de eleições, pois, “esse povo de soncente “NÃO CORRE E NEM VOTA EM PARTIDOS POLITICOS, votam sim, em personalidades da ilha para comandar o destino de “Soncente” e a RETALHAÇÃO vem depois.( Lamentavelmente) Viva Mindelo!!!

  6. CARLOS LOPES

    Gostei muito senhor Regedor !
    Que continue sempre assim com a confissão de incompetencia !
    É sim mesmu tchi nô ta gostá.

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