Contradições

16/05/2014 07:27 - Modificado em 16/05/2014 07:27
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465921.jpgDia 12 de Abril. Domingo. 15 horas.Com a cidade meio morta, como de costume aos domingos Tibúrcio resolve ir apanhar um pouco de fresco na Laginha.

Na véspera, enquadrado nas festividades de 135 anos de elevação de Mindelo à categoria de cidade, Laginha inaugurou o placard em matéria de festivais, pois o espaço agora disponível é enorme dada a quantidade de areia extraída do mar ali vazada.

Era também objectivo de Tibúrcio apreciar o rescaldo do acontecimento. Viam-se ainda muitos recipientes para recolha de lixo, algumas latrinas e quiosques a serem desmontados.

Tibúrcio sempre que se deslocava à Laginha fazia-se acompanhar de um livro para fecundar o tempo enquanto ali estivesse. Preferia a boa companhia dos livros à má companhia de certas criaturas humanas.

Dispôs a cadeira da sua viatura numa posição mais confortável e começou a ler o seu livrinho de fim de semana: Maigret e Pietr, o Letão de George Simenon. Simenon com a sua mestria na arte da escrita prendeu a atenção de Tibúrcio logo nas primeiras linhas. É já sabido que uma boa história para ser cativante tem de ter um bom começo.

Já eram passados uns bons dez minutos de agradável e profícua leitura quando na estrada passou um carro-piquete da polícia. Tibúrcio temente e respeitador das autoridades, sobretudo na actual conjuntura em que virou moda, banal e corriqueiro tirar vida de gente, acenou com a cabeça um cumprimento. Uns segundos apenas, fez o carro marcha atrás, parando ao lado da viatura de Tibúrcio. De dentro do carro policial soou uma voz chamando a atenção do Tibùrcio para a infração que estava cometendo dado que àquela hora era proibido o estacionamento naquele sítio.

Tibúrcio argumentou que estando ali muitos carros na mesma situação que a dele, pressupôs que o sinal tivesse sido desactivado. Não está não, corrigiu o agente da ordem. Tibúrcio fez aos polícias um aceno de compreensão da sua chamada de atenção. Imediatamente ligou o motor da sua viatura, partindo á deriva à procura de um sítio onde pudesse continuar a sua leitura sem limitações.

Na véspera, isto é no dia do festival, Tibùrcio estivera na Laginha por volta das22 horas só para observar de perto os preparativos. Era só isso pois os tempos de participar em manifestações de massas há muito tinham ficado para tràs. O festival como propagandeado prometia alegria, boa música e sã convivência. A Banda Municipal iria actuar, também diversos grupos locais e de outras ilhas participariam Cordas de Sol, Mirri Lobo e Zeca de nha Reinalda.

No dia seguinte Tibúrcio soube que o festival decorrera de forma positiva, tirando o anacrónico atraso no cumprimento dos horários, infelizmente uma cultura que nos há de acompanhar ad-eternum.

No dia do Festival Tibúrcio esteve na Laginha só de passagem. Naquele pouco tempo de estadia, ficou surpreendido com o que viu. Viaturas semeadas por tudo quanto era terreno, as duas margens do asfalto completamente tapadas com carros. Circulação ininterrupta de autocarros e automóveis nos dois sentidos e transeuntes circulando entre eles acrobaticamente.

Dia seguinte, com a normalidade restituída à Laginha, o trânsito, paradoxalmente , estava condicionado.

Na sua deambulação á cata de um sítio para continuar com o seu prazer favorito, a memória de Tibúrcio recuou ao tempo em que à sombra das palmeiras Baltasar Lopes da Silva, Aurélio Gonçalves, Francisco Lopes da Silva, Teixeira de Sousa e muitos outros desfrutavam livremente daquele espaço convivendo com autores universais de renome. No dizer de Camões mudam-se os tempos mudam-se as vontades.

Em conversa com um experiente cidadão da sua urbe, Tibúrcio ficou a saber da diferença existente entre estar estacionado e estar parado, pois estar estacionado pressupõe ausência do condutor da viatura. Já Salomão havia dito há milénios que á medida que a nossa vida vai encurtando contrariamente a sabedoria vai aumentando.

Em face do ocorrido Tibúrcio mergulhou nos seus pensamentos. A seu ver quando a praia era próxima e os banhistas eram visíveis e palpáveis até que se poderia justificar a sinalização: estacionamento proibido das7.00 às 19.00 horas.

A situação agora prevalecente é outra. A praia ganhou uma dimensão desmedida ficando a léguas de distância da estrada, a areia petrificou, o espectáculo das ondas a beijar a areia já era e os banhistas apesar de presentes estão invisíveis. E aquele que é pouco nadador tem de se cuidar devidamente e por precaução devera fazer um seguro de vida.

Daí Tibúrcio questionar sobre a funcionalidade e utilidade de um sinal que impede um cidadão de usufruir dentro da sua viatura da brisa daquela ourela de mar. Crente no bom senso das autoridades Tibúrcio tem esperanças de que o sinal será varrido dali para que os munícipes possam descontraidamente usufruir daquele espaço acolhedor.

O desenvolvimento não se compadece nem com regras descabidas nem com má qualidade de vida.

 

AMILCAR SOUSA LIMA

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