Cozinheiras das cantinas escolares denunciam: ainda vivemos no tempo da escravatura

13/05/2014 07:23 - Modificado em 13/05/2014 07:23

cantinasMaria das Dores, escola de Lombo Tanque, 26 anos de trabalho, diz que “o trabalho das cozinheiras das cantinas escolares é um trabalho de escravatura e o pagamento é feito no dia em que lhes apetece”.

 

As cozinheiras das cantinas escolares reclamam por direitos, aumento de vencimento, abrangência ao salário mínimo e regalias como qualquer funcionário cabo-verdiano. Um salário de 6.000 escudos é o valor que governa as casas dessas mães chefes de família e ainda sem direito à protecção social, regalias ou pensão de reforma.

Maria Virginia, trabalha na escola Semião Lopes há 29 anos e conta ao NN que “antigamente o salário era pago em géneros alimentícios, como arroz, óleo, feijão e outros. Depois de exigirem durante vários anos, há uns anos atrás, começaram a receber o vencimento em dinheiro porque tinham a renda da casa, a água, a electricidade e outras despesas por pagar, pelo que começaram então a receber um vencimento de 6.011 escudos”.

“Trabalhamos como escravos das 7:30 às 17:30 e não há consideração pelo trabalho que fazemos. É um trabalho de risco e de responsabilidade; a qualquer momento podemo-nos queimar ou pode acontecer um acidente na cozinha e não temos onde recorrer, não descontamos para que possamos estar abrangidos pelo sistema de protecção social porque o nosso salário não dá para nada. Ouvimos falar do salário mínimo, fizeram promessas que ficaram somente da boca para fora”.

Maria das Dores, escola de Lombo Tanque, 26 anos de trabalho, diz que “o trabalho das cozinheiras das cantinas escolares é um trabalho de escravatura e o pagamento é feito no dia em que lhes apetece. O tempo da escravatura terminou mas ficaram as cozinheiras. Durante todo esse tempo de trabalho de escravatura, um dia irei para casa com as mãos a abanar sem qualquer direito ou regalias tal como outros colegas que já se reformaram e morreram e ninguém teve consideração para os ir visitar ou saber se precisavam de alguma ajuda. Este também é o destino de todas as cozinheiras das cantinas escolares”.

Relembra que foi atropelada por um carro, quando ia trabalhar, “parti um braço, permaneci durante três meses em casa e não tive qualquer apoio. Já fizemos tudo o que podíamos para resolver este problema, estivemos em reuniões com os Sindicatos, prometeram ajudar mas nunca tivemos qualquer resposta. Não sabemos a quem mais recorrer, não sabemos quem é o nosso responsável. Trabalhamos como cozinheiras numa determinada escola, mas não sabemos a quem podemos recorrer para tratarmos das nossas preocupações. O salário mínimo foi implementado, mas os escravos das cozinhas das cantinas escolares não são contemplados porque não são funcionários mas, precisamente, escravos”.

Na escola de Espia, Andreza diz que “não temos culpa se não descontamos para o INPS, o salário mínimo ficou apenas em promessas e nós mães chefes de família, como é que podemos governar a casa com 6.000 escudos, com filhos a estudar, despesas por pagar e ainda trabalhamos mais de oito horas por dia. Estamos abandonadas à mercê dos que podem. As reuniões realizadas com a Delegação ou a FICASE são apenas exigências e nunca estão disponíveis para ouvirem as nossas preocupações e quando falamos sobre o valor do salário, adiam a conversa e recomendam para aguardarmos para as próximas reuniões”.

As cozinheiras de todas as cantinas escolares de São Vicente vivem a mesma situação. Pedem urgentemente que as autoridades de direito resolvam o problema que se arrasta há vários anos. Muitas dessas mulheres, mães e chefes de família, depois de vários anos a tentarem que a situação tome outros contornos, mostram-se incrédulas na resolução do problema e deixaram a solução do mesmo por conta da força divina.

 

  1. Maria

    não é só de São Vicente creio seja de todas as ilhas, ou pelo menos no Fogo também esta acontecendo e não só nas cantinas escolares o salário mínimo nacional ficou só no papel para muitas mulheres e chefes de família, acontece nos jardins ( sem INPS e Sem Salário Mínimo) nas cantinas…..

  2. Verdade

    Meu Deus como pode uma chefe de família com 26 anos de trabalho com 6.000 escudos mensais viver???? o que isto, sem direito a pensão e social, meu Deus depois dizem q CV esta num bo caminho.

  3. siscap

    Todas as cozinheiras que ainda não recebem o salário minimo devem denunciar a situação na Inspecção Geral do Trabalho, neste caso em Mindelo. O salário minimo para os privados e para o Estado.

  4. ESCLARECIMENTO

    INDEPENDENTEMENTE DE SER MUITO OU POUCO, JUSTO OU INJUSTO, O SALÁRIO MÍNIMO CORRESPONDE, DESDE O INICIO, A 8, REPITO 8 HORAS DE TRABALHO DIÁRIO.É POR ISSO QUE, SE UMA EMPREGADA DOMESTICA TRABALHA MENOS DE 8 HORAS, RECEBERA EM PROPORÇÃO. QUEM NÃO CONHECE A LEI NÃO DEVE FALAR NELA.

  5. Mindelense

    Isso e mais que vergonha, esses que vcs chamam de governantes, nao passam de hipocritas, mentirosos e desonestos, eles pensam que so eles que tem direito te construir familia, eles e os seus amigos tem salarios de 300 mil escudos e mais roubam o povo e ainda gozam conosco. Mas eles morreram secos como uma palha e irao arder todos no inferno homens sem carater burros e maus FDP. Pensam que sao donos dessa terra.

  6. Aristides Brito

    Oh ESCLARECIMENTO, um outro esclarecimento tb! Ao que parece você esqueceu de frisar que uma empregada domestica ja tem um contrato verbal ou escrito de quantas horas ela deve trabalhar por dia para receber x$. um acordo prévio. E se não é desconhecimento meu, parece que as cozinheiras não tem esse acordo, e nem deveria ter, me parece que essa carga horaria das cozinheiras é uma presunção, uma estimativa, ou sejam “calculam-se ou imaginam-se que o trabalho que elas faze rondam umas x horas…

  7. JB

    Penso que o Senhor esclarecimento esta mesmo com falta de esclarecimento sou filha de uma cozinhar e sei a que horas a minha mae sai de casa para o trabalho e regressa a casa entao procura se esclarecer primeiro para poder esclarecer melhor os outros elas dao mais do 8 horas de trabalho pergunta aos professores e aos alunos da escola de fonte ines a que horas as cozinheras entram e saiam do trabalho e mesmo triste ver pessoas ao inves de resolver problemas a tentar justicar com falta de sensib

  8. JB

    vai la um visita -las um dia para ver que dao no duro o dia de trabalho delas com riscos permanentes depois volta a refletir o seu depoimento obrigado

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