Depois do “sim”, separatistas aguardam veredicto de Putin

12/05/2014 08:55 - Modificado em 12/05/2014 08:55
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ucraniaOs autoproclamados “líderes populares” das regiões de Donetsk e Lugansk, no Leste da Ucrânia, sentem-se cada vez mais legitimados a declarar a independência em relação a Kiev após os resultados do referendo realizado no domingo, apesar da condenação da União Europeia e dos Estados Unidos, e da falta de uma posição oficial por parte da Rússia.

 

“A contagem dos votos acabou por ser surpreendentemente fácil. O número de pessoas que votaram ‘não’ foi relativamente baixo e a proporção de boletins nulos foi baixa, por isso conseguimos realizar a contagem de forma rápida”, disse o responsável da Comissão Eleitoral Central – um grupo formado apenas por separatistas pró-russos da autoproclamada República Popular de Donetsk, que não reconhece a legitimidade do Governo interino de Kiev e que favorece uma aproximação a Moscovo.

 

Da capital ucraniana chegaram várias declarações de condenação, com destaque para as palavras do Presidente interino, Olexandr Turchinov, que chegou ao poder após a deposição de Viktor Ianukovich, na sequência dos violentos protestos na Praça da Independência.

 

“A farsa a que os terroristas chamam referendo não é mais do que uma cobertura de propaganda para os assassinatos, os sequestros e outros crimes graves”, declarou Turchinov. As autoridades interinas de Kiev “vão manter o diálogo com aqueles que no Leste da Ucrânia não têm sangue nas mãos e que estão prontos a defender os seus objectivos de forma legal”, disse o Presidente interino ucraniano.

 

À espera da Rússia

Ainda não é conhecida a posição oficial de Moscovo sobre o resultado do referendo. Questionado sobre a contagem dos votos em Donetsk, o porta-voz do Presidente Vladimir Putin, Dmitri Peskov, disse apenas que o chefe de Estado russo irá fazer uma declaração “em função do resultado” da consulta popular, indicando que Moscovo está à espera da publicação dos números oficias em Donetsk, mas também em Lugansk, onde ainda não são conhecidos os resultados.

 

O referendo de domingo foi realizado mesmo depois de Vladimir Putin ter apelado ao seu adiamento, na semana passada. O porta-voz de Putin disse que a decisão dos separatistas pró-russos seria sempre “difícil de contrariar, apesar da autoridade exercida pelo Presidente da Rússia”. A explicação, defende Peskov, reside nas “acções armadas” das tropas fiéis a Kiev, que levaram “os habitantes do Leste da Ucrânia a agir de acordo com os seus próprios planos”.

 

Quanto às críticas da União Europeia, dos Estados Unidos e do Governo interino de Kiev – que acusam a Rússia de instigar o separatismo no Leste da Ucrânia e de nada ter feito, em concreto, para influenciar os pró-russos a adiarem o referendo –, o porta-voz do Presidente russo devolve a acusação.

 

“Por que é que os ocidentais não impediram a utilização de blindados [contra os separatistas] e não evitaram a morte de civis inocentes?”, perguntou Dmitri Peskov, referindo-se à operação das tropas de Kiev no Leste da Ucrânia contra os separatistas, que o Governo interino classifica como uma “operação antiterrorista”.

 

“Eles não usaram a sua influência e isso não é nenhum problema, mas a Rússia é culpada de tudo”, criticou o porta-voz de Vladimir Putin.

 

Antes do referendo, as autoridades de Kiev avisaram os presidentes de câmara de 27 cidades das regiões de Donetsk, Lugansk e Mikolaiv (as duas primeiras no Leste da Ucrânia e a última no Sul, na fronteira com a região de Odessa) que seriam alvo de processos criminais se participassem de alguma forma na consulta popular.

 

Mas o aviso dificilmente teria algum efeito na maioria dessas cidades, tomadas por separatistas pró-russos e governadas por duas entidades – uma nomeada pelo Governo interino ucraniano e outra autoproclamada pelos separatistas pró-russos.

 

Enquanto o governador da região de Donetsk nomeado por Kiev, o oligarca Serhi Taruta, descrevia o referendo como “uma farsa”, o presidente da autoproclamada República Popular de Donetsk, Denis Pushilin, fazia uma declaração de guerra às tropas ucranianas: “Todos os soldados que fiquem no nosso território após o anúncio oficial dos resultados do referendo serão considerados ilegais e declarados ocupantes”, disse Pushilin, citado pela agência russa Interfax.

 

Longas filas para votar

E os resultados, segundo os separatistas anti-Kiev, revelaram um resultado esmagador: “89,07% votaram ‘a favor’, 10,9 por cento votaram ‘contra’ e 0,74 por cento dos boletins foram considerados nulos”, disse o responsável da comissão eleitoral separatista de Donetsk, Roman Liagin.

 

Tanto Kiev como os Estados Unidos, a União Europeia e as principais organizações internacionais já anunciaram que não vão reconhecer a legitimidade dos resultados.

 

Para a generalidade dos observadores internacionais, a consulta popular é ilegal, em primeiro lugar, porque a Constituição ucraniana não prevê a realização de referendos locais. Depois, porque foi organizada e verificada apenas por separatistas pró-russos, e com base em listas eleitorais de 2012. Os boletins de voto também são considerados ilegais de acordo com os padrões internacionais, já que foram meramente fotocopiados e não certificados por uma comissão de eleições reconhecida por todas as partes.

 

Apesar disso, as fotografias das agências internacionais e as imagens das estações de televisão mostram filas enormes à entrada dos locais de voto. À falta de uma verificação independente, não é possível perceber quantos eleitores depositaram um boletim nas urnas, mas os separatistas dizem que a afluência chegou aos 74,87% em Donetsk e aos 81% em Lugansk.

 

A pergunta do referendo, formulada em ucraniano e em russo, era “Apoia o acto de autogovernação da República Popular de Donetsk?”, mas a intenção dos líderes separatistas é clara: afastar o Leste da Ucrânia da União Europeia e estreitar os laços com a Rússia. Para isso, poderá ser organizado outro referendo, já no próximo domingo.

 

“A Rússia é a nossa nação irmã. Queremos uma interacção total com a Rússia, incluindo a entrada na União Aduaneira”, disse o presidente da câmara de Slaviansk nomeado pelos separatistas, Viacheslav Ponomariov, referindo-se ao bloco promovido por Moscovo.

 

Foi a adesão à União Aduaneira russa, no final do ano passado, que precipitou os acontecimentos dos últimos meses na Ucrânia. Forçado a escolher entre um acordo de cooperação com a União Europeia (UE) e um acordo económico com a Rússia, o então Presidente, Viktor Ianukovich, optou por se aproximar de Moscovo, o que levou às manifestações pró-UE nas ruas de Kiev.

 

 

publico.pt

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