Sul-africanos continuam a votar “contra aquilo que era o passado”

7/05/2014 10:19 - Modificado em 7/05/2014 10:19
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africa sulApesar do desgaste de Jacob Zuma, o seu partido volta a ser o favorito óbvio nas eleições gerais de hoje na África do Sul – as quartas desde que Nelson Mandela e, como ele, muitos sul-africanos votaram pela primeira vez.

 

No último comício da campanha do Congresso Nacional Africano (ANC), para as eleições de hoje na África do Sul, metade dos presentes começou a dispersar quando Jacob Zuma tomou a palavra.

Aconteceu no domingo no maior estádio de Joanesburgo – o mesmo local onde em Dezembro passado, perante alguns líderes mundiais, entre eles Barack Obama, Zuma foi vaiado durante o memorial a Nelson Mandela. Manifestações de desagrado como estas têm-se tornado quase habituais, nos últimos meses, em eventos públicos. Em Março, no mesmo estádio, voltou a acontecer durante o jogo de futebol entre África do Sul e Brasil.

 

Pelas políticas e pela corrupção do seu Governo, Zuma é o alvo do descontentamento da maioria da população. Esta, porém, mantém-se leal ao movimento de libertação e, segundo as sondagens, nestas eleições, o ANC será de novo brindado com “uma esmagadora maioria” (sendo a possível excepção a província de Gauteng, onde se situam as cidades de Joanesburgo e Pretória). Tem sido assim desde que Nelson Mandela obteve mais de 62% dos resultados no primeiro voto livre em 1994.

 

Vinte anos depois, os sul-africanos votam de novo para eleger uma Assembleia de 400 deputados, dos quais 200 são eleitos das listas nacionais dos partidos e os restantes de listas provinciais nas nove províncias. Os eleitos, se se confirmar a maioria do ANC, escolherão depois Jacob Zuma para um segundo mandato como Presidente.

 

Em 2009, sobre a sua campanha e eleição, pairava um processo judicial por suspeitas de corrupção, entretanto abandonado. Agora, Zuma não escapou à acusação de usar indevidamente 246 milhões de rands (cerca de 17 milhões de euros) dos cofres do Estado, na construção de uma mansão na sua terra natal – Nkandla –, na província do KwaZulu Natal.

 

Aliança Democrática a subir

Mesmo com o Nkandlagate em pano de fundo, o dano não será expressivo para o partido no poder e a expectativa do voto não será saber quem ganha, mas perceber se o ANC continuará a perder apoiantes, em que grau e para benefício de que forças políticas.

 

A Aliança Democrática (AD) de Helen Zille, que já governa na província do Cabo Ocidental, deverá manter a tendência de subida, como aconteceu em eleições anteriores. As últimas sondagens (do fim-de-semana) atribuem-lhe 23,7% dos votos, subindo dos 16,7% que conquistou em 2009, mais do que os 12% que obtivera nas eleições gerais em 2004.

 

O Economic Freedom Fighters (EFF), o partido de extrema-esquerda que Julius Malema criou depois de a Liga da Juventude do ANC, que liderava, ser abolida, poderá conseguir pelo menos 4% dos votos, segundo as sondagens.

 

E apesar de Zuma ter realçado, em várias acções de campanha, que o seu Governo, nos últimos cinco anos, atribuiu aos mais pobres 3,7 milhões de casas e que garante subsídios e apoios do Estado a 15 milhões de pessoas, o discurso radical de Malema poderá ressoar junto dos cerca de 25 milhões de pessoas a viver na pobreza, numa população total de cerca de 50 milhões.

 

Malema arrasta milhares de pessoas para os comícios, onde lança promessas de expropriar as terras dos brancos e nacionalizar os bancos e as minas. O dirigente saiu do ANC, por criticar o partido, e viajou pelo mundo, encontrando na Venezuela, e em particular em Hugo Chávez, a inspiração para o discurso e para o traje, que também inclui uma boina vermelha. Para já, diz ao PÚBLICO por email Anthony Butler, professor e director do Departamento de Estudos Políticos da Universidade do Cabo, o EFF “não representa um risco, mas representa um desafio para o ANC”.

 

“Os sul-africanos ainda votam a olhar para o passado”, acrescenta por telefone Andre Thomashausen, director do Centro de Direito Comparado e Internacional na Universidade da África do Sul (Unisa), para explicar esta preferência “a toda a prova” pelo ANC. “O voto é uma manifestação ideológica contra aquilo que era o passado.”

 

E também por isso, a maioria dos eleitores não sente a confiança pelos partidos da oposição, necessária para reverter tendências. A Aliança Democrática junta aquilo que foram o Partido Democrático e o Novo Partido Nacional e este apareceu depois do fim do Partido Nacional que instaurou o regime segregacionista e liderou os governos do apartheid. A líder Helen Zille tentou um acordo com Mamphela Ramphela, activista da luta antiapartheid, para apelar ao eleitorado negro. Mas, em poucos dias, ruiu o acordo que chegou a ser anunciado e a criar expectativas de que um partido associado ao eleitorado branco com uma cabeça de lista negra poderia retirar muitos votos ao ANC – mostrando como o passado e o apartheid continuam presentes.

 

Essa ligação ao passado, a mesma que foi apontada pela revista Der Spiegel num artigo sobre o ANC intitulado “O partido do passado”, transforma o voto num “exercício de identificação emocional com o grupo e com o sonho de libertação”, diz o investigador e professor Andre Thomashausen. “O ANC agarra-se à legitimidade histórica e mantém-se no poder. Todas as promessas do ANC são ligadas ao passado, como aliás acontece com os partidos no poder em Angola [MPLA] e Moçambique [Frelimo].”

 

Estas serão umas eleições sem surpresa, em que o ANC continuará a beneficiar do seu legado e os seus líderes da aura de ex-combatentes da liberdade. Um deles é Zuma, que esteve ele próprio preso dez anos em Robben Island.

 

 

publico.pt

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