Farage, o antieuropeu que leva o sistema político britânico a reboque

5/05/2014 09:16 - Modificado em 5/05/2014 09:16
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Farage“Racista não assumido” ou “o tipo do pub” que fala do que ninguém mais ousa falar? Um egocêntrico que gere com mão de ferro um partido que se diz libertário ou um estratega brilhante? São inúmeras as tentativas para classificar de Nigel Farage, o líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), o antipolítico que desafia a “casta dominante” em Westminster, dono de uma retórica antieuropeia e xenófoba que está a levar os outros partidos a reboque. As eleições europeias – que no país se realizam a 22 de Maio – anunciam-se como o grande sismo que promete abalar todo o sistema político britânico.

 

Farage não é, mas gosta de se apresentar como um inglês comum. As conversas com os jornalistas acontecem quase sempre em pubs locais. De cerveja numa mão e cigarro na outra, o antigo corretor de mercadorias na bolsa de Londres transforma-se num franco-atirador, disparando contra a “euroditadura” de Bruxelas, os “políticos de cartão” que enchem o Parlamento, todos iguais da direita à esquerda, ou a “política de fronteiras abertas” que permitiu a entrada no Reino Unido de centenas de milhares de europeus de Leste.

 

As suas armas? A linguagem directa que os partidos desaprenderam – e que raia muitas vezes os limites do insulto – e um sentido de humor, auto-depreciativo e politicamente incorrecto, que usa tanto para cativar a audiência como para fintar as questões mais incómodas. “Recebo dinheiro do diabo para fazer o trabalho do Senhor”, disse quando lhe perguntaram sobre o generoso salário que há 15 anos recebe como deputado no Parlamento Europeu.

 

É em Bruxelas, aliás, que Farage, 50 anos feitos, mais facilmente abandona a imagem de gentleman que os fatos de bom corte que invariavelmente usa ajudam a criar. Em 2010, escandalizou o hemiciclo ao acusar o presidente do Conselho Europeu, o belga Herman von Rompuy, de ter “o carisma de um trapo velho” e a “aparência de um bancário”, “sem qualquer legitimidade para o cargo”. Numa entrevista ao jornal El Mundo, um ano antes, acusara a compatriota Catherine Ashton, de ser “uma inútil” que só conseguira ser nomeada chefe da diplomacia da UE “porque o marido é um dos principais financiadores do Partido Trabalhista”. E nas entrevistas à RT, a televisão em língua inglesa financiada pelo Governo russo, insiste que Bruxelas é governada “pelas piores pessoas que a Europa viu desde 1945”.

 

Do eurocepticismo à imigração

Foi esta aversão visceral ao projecto europeu que, no início dos anos de 1990, arrastou para a política o jovem Nigel, corretor, filho e irmão de correctores da City. Militante dos tories, rompeu com o partido depois de o primeiro-ministro John Major ter assinado, em 1992, o Tratado de Maastricht que instituiu a União Europeia e abriu caminho à moeda única. “No Reino Unido o debate inicial foi sobre a entrada no mercado único. Ninguém falou numa união política, na supremacia da lei europeia sobre a lei britânica”, recordava na entrevista de 2009 ao El Mundo.

 

Farage esteve na fundação do UKIP, mas era não só mais jovem do que a maioria dos seus correligionários, mas também mais traçado para a ribalta política. Em 1999, beneficiando da introdução do sistema proporcional, o partido elegeu três eurodeputados e Farage estava entre eles. Cinco anos depois, eram já 12 e nas eleições de 2009, na senda da crise financeira internacional, tornaram-se o segundo partido mais votado, à frente dos trabalhistas e dos liberais-democratas. Farage, eleito líder do UKIP três anos antes, assumiu a presidência do eurogrupo Europa da Liberdade e da Democracia, que inclui entre outros a Liga Norte de Umberto Bossi, os nacionalistas finlandeses e dinamarqueses.

 

Mas se uma parte dos britânicos já não via o UKIP como o partido dos “maluquinhos e dos racistas não assumidos”, na descrição do então jovem líder conservador David Cameron, o seu programa político resumia-se a pouco mais do que a saída britânica da UE. Sinal disso, recorda o Financial Times num perfil de Farage, quando o helicóptero em que ele viajava se despenhou no dia das legislativas de 2010, o acidente (o seu terceiro encontro com a morte depois de um atropelamento e de um cancro nos testículos, ainda na juventude) foi pouco mais do que uma nota de rodapé na imprensa. Tinha deixado a liderança do UKIP para se candidatar ao Parlamento, mas não conseguiu eleger-se e o partido conseguiu apenas 3% dos votos.

 

De regresso à liderança, Farage tomou em mãos uma mudança de estratégia, cavalgando a incerteza provocada pela crise na zona euro: ao eurocepticismo, juntou um discurso agressivo contra a imigração comunitária e a narrativa de que o modo de vida britânico está ameaçado pelos diktats de Bruxelas e por uma classe política urbana e formatada nas escolas de elite.

 

 

publico.pt

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