O espião mais odiado da América em troca do processo de paz israelo-palestiniano

3/04/2014 07:51 - Modificado em 3/04/2014 07:51
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espiaoOs Estados Unidos admitem libertar um dos espiões mais odiados pela comunidade de serviços secretos norte-americana como parte de um acordo para salvar as negociações entre Israel e a Autoridade Palestiniana, numa indicação de que o processo estava à beira do colapso.

 

O jornal israelita Yedioth Ahronoth avança que as partes já chegaram a acordo para a libertação de Jonathan Pollard antes da Páscoa judaica (que neste ano começa a 15 de Abril), citando uma “fonte familiarizada com as negociações”, mas não há ainda confirmação oficial.

 

O objectivo da Casa Branca é abrir uma porta no aparente beco sem saída em que se transformou o processo de paz israelo-palestiniano – uma das principais bandeiras diplomáticas do Presidente Barack Obama e do secretário de Estado norte-americano, John Kerry.

 

Pela libertação de Jonathan Pollard, Israel estará disposto a libertar a quarta e última leva de prisioneiros palestinianos condenados por assassinatos (e não apenas 26, como tinha sido acordado, mas várias centenas, incluindo indivíduos presos por delitos comuns), numa medida que levará a Autoridade Palestiniana a aceitar o prolongamento das negociações de paz até 2015.

 

A pouco menos de um mês do prazo final para se alcançar um acordo, a situação chegou a um impasse – a Autoridade Palestiniana exige a libertação dos prisioneiros prometida por Israel para estender as negociações de paz até 2015, mas Israel fez saber que só libertará os prisioneiros se a Autoridade Palestiniana aceitar a extensão desse prazo antes da libertação do último grupo de prisioneiros.

 

Odiado pelos serviços secretos

Para desbloquear este impasse (e tentar dar um novo impulso ao processo de paz), as autoridades norte-americanas admitem usar um dos maiores trunfos que têm na manga das relações diplomáticas com os seus aliados de Israel – oferecer a libertação de Jonathan Pollard, o homem que em meados da década de 1980 passou à agência de serviços secretos israelita Lekem milhares de documentos enquanto trabalhava como analista na Marinha norte-americana. Mas a sua libertação poderá também reavivar a ira da comunidade de serviços secretos norte-americana, onde muitos consideram Pollard um dos maiores traidores da História dos Estados Unidos.

 

Nascido no estado norte-americano do Texas há 59 anos, Jonathan Pollard foi condenado a prisão perpétua em 1987 por espionagem contra os Estados Unidos a favor de Israel.

 

Quando foi detido pelo FBI, em 1985 – depois de a embaixada israelita em Washington ter recusado abrir-lhe as portas –, Pollard tinha passado o ano anterior a enviar documentos confidenciais à agência Lekem, que viria a ser desmantelada na sequência do escândalo.

 

Depois de uma fase inicial em que Israel não quis assumir a responsabilidade pelas acções de Jonathan Pollard, o seu caso transformou-se, com o passar dos tempos, numa bandeira do nacionalismo israelita, recolhendo apoios da esquerda à direita. A sua libertação tem sido uma exigência das autoridades de Telavive pelo menos desde o início da década de 1990, numa luta diplomática que teve os seus pontos mais altos em 1995, com a concessão da nacionalidade israelita; e em 1998, quando o então (e actual) primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, reconheceu finalmente que Pollard trabalhou como espião ao serviço de Israel.

 

Para agravar o ressentimento israelita, Jonathan Pollard foi condenado a prisão perpétua na sequência de um acordo extrajudicial, que o levou a admitir a culpa em troca de uma pena menos pesada. Aos olhos de muitos israelitas, os norte-americanos não tinham qualquer justificação para condenar o espião a prisão perpétua, já que ele passou documentos sobre inimigos comuns e não sobre os Estados Unidos; e traíram-no ao não respeitarem o acordo extrajudicial.

 

Mas o facto de Pollard ter vendido informação sensível a um aliado foi visto como uma agravante, e nenhuma Administração norte-americana se mostrou disponível até agora a perdoar as suas acções. Um dos principais responsáveis pela sua condenação a prisão perpétua foi o então secretário da Defesa, Caspar Weinberger, que enviou ao tribunal um testemunho arrasador: “É difícil para mim, mesmo no chamado ‘Ano do Espião’ [em 1985 foram acusadas 14 pessoas por espionagem nos EUA], conceber um mal maior para a segurança nacional do que o provocado pelo acusado, tendo em conta a extensão, a importância vital para os EUA e a elevada sensibilidade da informação que ele vendeu a Israel. Nenhum crime é mais merecedor de um castigo severo do que fazer espionagem contra o próprio país.”

Possibilidade de liberdade condicional em 2015

A Administração Obama pode também aproveitar o facto de as autoridades prisionais norte-americanas estarem obrigadas a avaliar a possibilidade de Jonathan Pollard sair em liberdade condicional em Novembro de 2015 (quando se cumprem 30 anos da sua condenação), e o facto de muitos dos actuais responsáveis pelos serviços secretos norte-americanos não terem lidado directamente com o caso.

 

A aversão das agências de espionagem dos EUA à libertação de Pollard era tal que, quando essa possibilidade esteve em cima da mesa, em 1998 (no âmbito das negociações mediadas pelo Presidente norte-americano, Bill Clinton), o então director da CIA, George Tenet, disse que apresentaria a sua demissão no dia seguinte se tal acontecesse.

 

Como não chegou a haver um julgamento, ainda hoje não se conhece toda a extensão da espionagem do agente. Entre o que chegou ao conhecimento público estão diagramas do quartel-general da Organização para Libertação da Palestina (OLP) na capital da Tunísia, que levou ao bombardeamento de 1985, com centenas de mortos entre membros da OLP e civis; detalhes sobre as defesas aéreas da Líbia; e informações sobre o envio de armas da ex-União Soviética para a Síria.

 

Mas a montanha de documentos que chegou aos serviços secretos israelitas causou também graves prejuízos à segurança nacional dos Estados Unidos, segundo quatro antigos directores dos serviços secretos da Marinha norte-americana, numa carta aberta publicada em 1998, que teve com objectivo destruir a imagem de espião com motivações ideológicas que Jonathan Pollard foi construindo ao longo dos anos: “Pollard deu-se como culpado e, por isso, nunca foi julgado. O povo americano nunca chegou a saber que ele se propôs a passar informação confidencial a três outros países antes de trabalhar para os israelitas, e que ofereceu os seus serviços a um quarto país enquanto espiava a favor de Israel.”

 

Na semana passada, a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Jen Psaki, teve o cuidado de não negar que Washington e Telavive estão em negociações, mas afirmou que “não há planos, neste momento, para libertar Jonathan Pollard”.

 

“Jonathan Pollard foi condenado por espionagem contra os Estados Unidos – um crime muito grave. Foi condenado a prisão perpétua e está a cumprir a sua sentença”, disse a responsável.

 

Na segunda-feira, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, recorreu também a uma linguagem cuidada para responder às perguntas sobre a possibilidade da libertação de Pollard, dizendo apenas que “ele foi condenado por espionagem e está a cumprir a sua sentença”. “Não tenho nenhuma novidade para avançar sobre essa situação”, disse Carney.

 

 

publico.pt

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