A arrogância dos vencedores

17/03/2014 22:16 - Modificado em 17/03/2014 22:16
| Comentários fechados em A arrogância dos vencedores

crimeiaUm dia depois do referendo na Crimeia, a capital, Simferopol, acordou com mais soldados e armamento russos nas ruas. Bases militares onde ainda estão soldados ucranianos continuam cercadas por tropas de Moscovo.

 

Uma sms a meio da manhã. A operadora do telemóvel KievStar informa: “A partir de hoje já não se encontra no seu país. As chamadas efectuadas a partir deste simcard passam a estar sujeitas a tarifas de roamming”.

As ruas do centro de Simeropol foram bloqueadas por soldados russos com equipamento e armamento de forças especiais. Todos os acessos ao parlamento estavam barrados, numa vasta área do centro da cidade. São os mesmos soldados russos que têm, desde há semanas, cercado as bases militares ucranianas e ocupado locais estratégicos, como os aeroportos. Mas nunca se tinham mostrado assim, no centro da capital. Só deixam passar quem provar ser funcionário do parlamento, ou jornalista, depois de cuidadosamente revistado.

 

Uma conferência de imprensa fora marcada para o parlamento, para anunciar as novas medidas legislativas, que incluíam a declaração da independência e o pedido de integração da Crimeia na Federação Russa. Os jornalistas fizeram fila à porta do edifício, mas à medida que entravam eram confrontados com uma misteriosa lista, nas mãos de uns não menos inescrutáveis agentes policiais. Ouviam o nome do jornalista, órgão de comunicação e país, verificavam a pauta e diziam, secos: “Niet!”

 

Foi “Niet!” para as agências Reuters e AP, para vários jornais e canais de televisão de reputação mundial. Quando chegou a vez do PÚBLICO, após uma hora de espera, o homem nem olhou para a lista. “Niet!” Nenhuma explicação de critério ou procedimento. Tanto quanto foi possível perceber, só entraram órgãos de informação russos.

 

A hostilidade para com os media estrangeiros tornou-se explícita, sempre à beira de descambar para a violência. Mas bem mais séria é a repressão a qualquer palavra ou gesto a favor da Ucrânia. Vários activistas ou simpatizantes da Maidan têm estado fechados em casa. Pessoas que são contra a integração na Rússia não ousam exprimir opiniões em público, têm medo até dos vizinhos e conhecidos. Alguns, talvez muitos, nunca quiseram ver a Crimeia anexada à Russia, mas acabaram por votar a favor, fosse por medo de perseguições, fosse por falta de alternativas. “Kiev traiu-nos. Deixou-nos sozinhos”, disse uma mulher. “A Rússia, tenho de admitir, veio dar-nos uma mão, apesar de eu não gostar dos seus métodos, e achar que tudo isto é ilegal e falso, e que eles não têm aqui qualquer espécie de direito histórico. Mas Kiev traiu a Crimeia. Lançou-nos nos braços dos russos”.

 

Muitos, decerto a maioria, estão verdadeiramente satisfeitos, e sentem-se agora mais em casa. “Krutchev não tinha o direito de oferecer a Crimeia à Ucrânia. Quem lhe deu esse direito? Foi um abuso. Nós não somos um presente que se ofereça a alguém”.

 

Mas não deixa de sentir-se uma ausência, a vertigem de ter perdido um país de um dia para o outro. É perceptível tanto no medo dos ucranianos, tártaros ou cidadãos de outras etnias, como nos modos arrogantes dos vencedores.

 

Tensão nas bases militares

Nas bases militares ucranianas, cercadas há semanas pelas forças russas, a tensão aumentou visivelmente. Depois do anúncio, feito pelas novas autoridades, de que seria concedida uma “trégua” a estas bases até ao próximo dia 21, pensou-se que os cercos seriam levantados durante quatro dias, para que os ucranianos no interior dos edifícios pudessem fazer a escolha que lhes foi oferecida pelo governo: integrarem-se nas forças russas, tornarem-se civis ou fugirem para a Ucrânia.

 

Engano. Em vez de levantarem, os russos apertaram o cerco. Na base de Perevolnia, uns 15 quilómetros a sul de Simferopol, dezenas de camiões e blindados militares russos estavam estacionados ao longo da estrada. Espalhados pelos campos em redor, numa paisagem de montanhas desertas, com vastas manchas de neve, marchavam soldados russos de camuflado verde, fortemente armados.

 

 

publico.pt

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2018: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.