“Se o povo se unir, essa Copa vai cair”

27/01/2014 13:57 - Modificado em 27/01/2014 13:57
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brasilProtestos em São Paulo terminam em violência. Manifestação juntou mais de 2000 pessoas que gritaram palavras de ordem contra a realização do mundial de futebol no Brasil.

 

Muito menos gente do que nos grandes protestos do ano passado na manifestação de sábado em São Paulo, mas um final violento, em confrontos com a polícia. Os grupos que no Brasil lideram os protestos contra os gastos do Mundial de Futebol prometem continuar até conseguirem “barrar a Copa”.

Mais de 2000 pessoas (e igual número de polícias), muito barulho, um impressionante aparato policial e um fim violento. Foi assim a primeira manifestação de 2014 em São Paulo organizada pelo movimento Não Vai Ter Copa, contra o que os manifestantes consideram ser os gastos excessivos do Governo com o Mundial de Futebol no Brasil.

 

Por volta das 20h (hora local), e impedidos de passar por uma rua, alguns manifestantes tentaram atacar lojas, entre as quais um McDonald´s e incendiar carros, e 128 pessoas foram detidas, segundo o jornal Estado de São Paulo.

 

Desde o início que os jornalistas presentes, habituados a cobrir estas manifestações que começaram no Verão passado, adivinhavam que iria ter violência. “Geralmente acontece no final”, explicava um fotógrafo freelance, justificando assim que todos os seus colegas tivessem capacetes para proteger a cabeça e, nalguns casos, máscaras de gás lacrimogéneo.

 

A concentração estava marcada para as 17h em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP). Pelas 15h havia já várias tendas no local, gente a dormir dentro de algumas delas, muitos a prepararem cartazes. Do outro lado da rua, Jeferson distribuía panfletos onde se lia “Se Não Tiver Direitos Não Vai Ter Copa” – “Junho foi só o começo! Os indignados que querem transformar este país afirmam que, sem a consolidação dos direitos sociais (saúde, educação, moradia, transporte e outros) não há como admitir este tipo de mega evento!)”.

 

Jeferson explica que esta manifestação vem na continuidade das outras e que é um reflexo “de toda a insatisfação que tomou conta das ruas em 2013, visando a transformação da estrutura do sistema, que é capitalista e enquanto tal transforma tudo em mercadoria”. Apresenta-se como o autor do desenho que vem no panfleto, no qual três porquinhos (os empreiteiros, os bancos e a FIFA) mamam numa porca gigante que é o Tesouro Nacional. “A gente paga uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo para depois ver o Tesouro público ser delapidado pelos interesses dos capitalistas”, diz. Acha que desta vez virá menos gente, mas justifica alguma desmobilização com o facto de aqui ser período de férias, a que se seguirá o Carnaval. “O tempo está bom, o pessoal está contente”.

 

Voltamos a atravessar a Avenida Paulista para ver os preparativos para o que os manifestantes chamam “o acto”. Começa a chegar mais gente (mas em números muito inferiores aos das grandes manifestações do ano passado), e é evidente que o protesto reúne grupos muito díspares. Há por exemplo o Território Livre, que entrega panfletos defendendo a tomada das escolas e das universidades para as transformar “em centros gerais da luta da juventude”, e que estudantes e operários se unam na luta. A Práxis, por seu lado, apela à troca “da Copa pela construção de escolas e hospitais”, lamentando que quem organiza estes eventos “pouco se importe com a vida dos que habitam estes países”.

 

Mas quem desperta mais as atenções são os chamados Black Blocs. Vestidos de preto, começam a cobrir os rostos e as cabeças, atando camisolas, ou pondo lenços que lhes deixam apenas os olhos à vista. Muitos trazem máscaras de proteção contra o gás lacrimogéneo. Por esta altura, na Avenida Paulista, há já quase tantos polícias como manifestantes. Vêem-se carrinhas policiais estacionadas, e os polícias militares (a desmilitarização da polícia é outra das reivindicações dos grupos) alinham-se em filas.

 

Os jornalistas presentes explicam que nestas manifestações nunca há muita informação sobre o percurso que se irá tomar a marcha ou onde irá acabar. É preciso esperar. E enquanto esperamos chega o momento do “acto”: um rapaz de pala num olho lê, com a voz a tremer, um manifesto, perante uma linha de polícias que o ouve sem reagir. “A Copa é da FIFA e é uma derrota para os direitos do povo”, lê, acusando o Estado de ser “autoritário e opressor”. “A nossa proposta é barrar a Copa”, grita. “O impossível acontece”. E conclui, e já acompanhado por um grupo aos gritos: “Poder para o povo, poder do povo para fazer um mundo novo. Não Vai Ter Copa!”.

 

Fausto Arruda é mais velho que a maioria dos jovens manifestantes, mas está igualmente entusiasmado. Distribui o jornal A Nova Democracia, cujo editorial anuncia “A juventude se levanta, toda a canalha treme!”. Conta que desde Junho o jornal tem vindo a crescer muito, e que precisam de apoio para conseguir que passe de quinzenal para semanal. Um dos alvos é a imprensa tradicional, sobretudo a Rede Globo – com a qual, aliás, explicam os jornalistas presentes, os manifestantes se recusam a falar.

 

“Dessa Copa eu abro mão, eu quero é mais dinheiro para saúde e educação”

 

De repente, há uma movimentação e todos começam a agrupar-se no meio da Avenida Paulista. À frente, os Black Blocs, que tradicionalmente são o grupo mais activo e o que lidera os blocos de manifestantes. A marcha arranca aos gritos de “Dessa Copa eu abro mão, eu quero é mais dinheiro para saúde e educação”, “Copa, o c…, educação, saúde e trabalho!”, “Se essa Copa começar, a cidade vai parar, mas se o povo se unir, essa Copa vai cair, vai cair, vai cair!”, “Dilma, você vai ver, essa Copa não vai acontecer”, e “FIFA, o c…, esse estádio tem sangue de operário”.

 

A multidão desce a avenida, enquadrada pela polícia, que vai filmando os manifestantes. O tom mais agressivo dos Black Blocs, com os rostos tapados, contrasta com grupos mais festivos que vão atrás. A marcha é acompanhada pelo som de tambores. Subitamente, voltam numa rua, descendo para o Centro, e a polícia, apanhada de surpresa, reagrupa-se. No céu vêem-se (e ouvem-se) os helicópteros.

 

À medida que o protesto avança, os comerciantes das ruas por onde ele passa vão baixando as portas metálicas de protecção dos estabelecimentos, e saem para a rua, com os empregados, para assistir. Muitos recebem os panfletos que os manifestantes distribuem e ficam a ler. Uma mulher de uns 70 anos pergunta-nos se cortaram os autocarros. Dizemos que sim, e ela quer saber sobre o que é a manifestação. “O que é que eles dizem? Não vai ser sopa?” Devidamente esclarecida, diz que concorda: “A saúde está uma miséria, e eles gastam dinheiro em estádios”.

 

Esse é o principal argumento dos manifestantes, que dizem que “os gastos da Copa vão chegar aos 30 mil milhões de reais”, dinheiro que deveria ser investido na saúde, educação e nos serviços públicos. “Enquanto te roubam, você grita golo!”, indignam-se.

 

É em frente ao Teatro Municipal que a marcha, até então pacífica, descamba em violência. Impedidos de passar por uma rua, os manifestantes desviam para outra e começam a atacar alguns estabelecimentos, e agências bancárias. A polícia de choque agrupa-se ao fundo da rua. O som dos helicópteros é cada vez maior. A polícia militar e de choque, armada de escudos protectores, corre atrás dos manifestantes. Vê-se um ou outro foco de incêndio. Mas a maior parte da manifestação já dispersou. Quando chega a hora da violência, quem fica são sobretudo os Black Blocs do pelotão da frente.

 

Um rapaz olha para a rua por onde a polícia subiu e para um pequeno incêndio que se extingue. “É a sexta manifestação a que venho”, diz. “Os Black Blocs vão à frente, até para proteger o resto, são eles os mais preparados para enfrentar a polícia”.

 

Estava muito menos gente do que nas grandes manifestações do ano passado, admite, mas esta foi sobretudo para marcar a data – sábado foi o dia do aniversário de São Paulo – e perturbar os festejos. “A partir daqui vai vir muito mais gente. Até à Copa não vamos parar, e vai aumentar muito, muito”, diz, quando a rua já é só um cenário vazio, com gente a voltar para casa. “Eles estão a gastar o nosso dinheiro e quem lucra? Umas seis ou sete grandes construtoras. O povo não”.

 

 

publico.pt

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