A guerra de Xi Jinping contra o luxo e os bolos de lua

21/01/2014 14:00 - Modificado em 21/01/2014 14:00
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chinaO Presidente chinês está a pôr ordem no Partido Comunista e nos funcionários, do mais baixo ao de topo, que se deslumbraram com o acesso fácil ao dinheiro. Acabou o esbanjamento em relógios de dez mil euros ou petiscos revestidos a ouro.

 

Na quinta-feira, o Governo de Pequim decretou que se os clubes de luxo de Pequim não mudarem de imagem e de atitude, serão encerrados. Um desses clubes, o Yishiliu, funciona num lugar proibido, o pavilhão Yushantang, construído durante a dinastia Qing (1644-1911). De entrada reservada aos muito poderosos com os bolsos bem cheios, tem pratos que custam o equivalente a 1300 euros, segundo noticiou a agência oficial chinesa, a Xinhua.

 

O problema para o Presidente Xi Jinping — o homem que exigiu que o luxo tenha “um nível aceitável —, é que a maior parte dos poderosos e ricos que esbanjam fortunas a comer, a beber e a olhar para mulheres bonitas nas noites de Pequim são, em primeiro lugar, os seus colegas, os homens mais bem posicionados no aparelho do Partido Comunista.

 

De acordo com outra fonte oficial, o Diário do Povo, o Governo exige agora aos funcionários que se comprometam, por escrito, a não frequentarem os clubes e haverá sanções severas para quem for apanhado dentro de um. Noutra frente desta guerra contra a ostentação e o despesismo, diz o South China Morning Post, as autoridades estão a verificar todos as licenças de funcionamento e os clubes instalados em sítios impensáveis — como o Yishiliu de Pequim que funciona numa relíquia histórica —, serão encerrados.

 

“As regras não podem ser olhadas como coisas que só existem no papel”, disse o Presidente que, depois de ter iniciado, mal tomou posse, uma guerra contra a corrupção — da mais pequena à grande corrupção de Estado, “iremos às moscas e aos tigres”, disse —, avança agora contra o deslumbramento dos que ganham salários que saem do erário público.

 

Toda esta campanha, explicam os analistas, tem um só objectivo: evitar o declínio do partido, o pilar que sustenta toda a estrutura político-económica chinesa, e que corre o risco de se desacreditar perante os cidadãos. “Se os governantes chineses mostrarem que acreditam na doutrina, terão mais legitimidade e serão seguidos [pelo povo] e obedecidos”, explica David Kelly, da China Policy, uma empresa de consultadoria e análise de Pequim. “Se não acreditam, acontece o mesmo que aconteceria na Igreja Católica se os padres não acreditassem nos evangelhos”.

 

Moscas e tigres

Xi Jinping terá outros motivos para aplicar esta campanha de moralização que regulamenta o comportamento e os gastos dos funcionários do partido — no meio das moscas que ia apanhando, também atirava aos tigres. Um dos principais opositores políticos de Xi foi condenado a prisão perpétua, Bo Xilai, acusado de ter recebido 25 milhões de euros em subornos sob várias formas.

 

Por corrupção e abuso de poder (para benefício próprio) está detido outro homem temido por Xi e pela facção agora no poder em Pequim. Trata-se de Zhou Yongkang, o primeiro ex-membro do Comité Permanente do Partido Comunista a ser investigado. Completa a tríade de “tigres” já em apuros Jiang Jiemin, que tutelava as mais de cem empresas estatais de petróleo, e que foi preso por suspeita de corrupção e desvio de verbas públicas.

 

A maior parte dos detidos são, porém, governantes e funcionários intermédios — por isso, a Foreign Policy chamava a Xi “O senhor das moscas” num artigo recente. O antigo chefe da polícia da cidade de Wenzhou, Wang Tianyi, por exemplo, é uma “mosca” e foi preso porque aceitava subornos sob a forma de presentes e escolhia apenas obras de arte: tinha na sua posse 195 quadros de pintores famosos, 23 peças de porcelana antiga, 495 moedas valiosas e quatro objectos de arte ocidentais não especificados.

 

Tubarão e andorinha

A directiva governamental sobre presentes data do final do ano passado e proíbe-os — o decreto dos Oito Pontos, de Dezembro de 2012, que era mais abrangente já dizia que todos os funcionários deviam eliminar as “más práticas” como o hedonismo e a extravagância. Os produtos escolhidos pelos funcionários do partido para oferecerem a outros funcionários do partido, a visitantes ou a pessoas consideradas importantes também tinham ultrapassado o “nível aceitável”.

 

O governo fez uma lista, segundo os media oficiais chineses, e à frente dela surgem os Bolos de Lua, que são trocados entre as famílias no Festival de Outono (a segunda data mais importante do calendário chinês a seguir ao Ano Novo). Para as suas ofertas, os altos funcionários começaram a encomendá-los feitos de pasta de barbatana de tubarão ou ninho de andorinha e revestidos a folha de ouro.

 

Mas os presentes eram (e ainda são) sobretudo produtos de luxo. Licor chinês Maotai (276 euros a garrafa), relógios Vacheron Constantin e Rolex (um funcionário do departamento de habitação de Nanjing tinha um Vacheron de 11 mil euros mas o seu salário anual era seis mil), objectos das marcas Hermès, Louis Vuitton, Gucci, Chanel e Apple (as favoritas). Casas e terrenos também se ofereciam em troca de favores (licenças de construção, por exemplo), assim como dinheiro em numerário ou cartão de crédito e equipamentos electrónicos — as prendas dos funcionários prefaziam 60% das vendas anuais da chinesa Hanvon.

 

Massas chinesas

Um dos casos mais mediáticos da ostentação arrogante dos líderes foi o de Liang Wenyong, chefe do partido em Gushanzi (provincia de Hebei), filmado num banquete decadente cheio de iguarias (à sua frente tinha uma enorme lagosta) a dizer mal do povo. “Têm as taças cheias de arroz, a boca cheia de porco, mas dizem mal do governo. As massas chinesas são uma vergonha e não merecem o nosso respeito”, disse, na transcrição da BBC. Foi preso.

 

“Perante tendências pouco saudáveis, [os sectores] político e judicial têm que ousar mostrar a espada e mostrar decisão para eliminar a corrupção no sistema político e legal, limpando as ovelhas negras da família”, disse Xi no início de Janeiro, citado pela Xinhua.

 

Xi está a ganhar pontos políticos com esta vaga de prisões e moralização. Porém, alguns analistas dizem que a luta à corrupção não é nova na China e vem da década de 1990, precisamente aquela em que o dinheiro começou a circular em abundância e muitos começaram a ceder à tentação. O que é novo é que, agora, os casos surgem nos media, em primeiro lugar nos oficiais, com o papel de Xi Jinping nesta guerra sempre sublinhado.

 

Assim será, mas a verdade é que desde que chegou ao poder, e segundo dados oficiais citados pelo China Daily, foram “apanhados” 182.038 funcionários corruptos, um aumento de 13,3% em relação a 2012.

Este ano, os chineses vão comprar muito menos Louis Vuitton, Gucci ou Chanel e vão cortar nas despesas como não cortaram nos últimos cinco anos. No ano passado, o primeiro de governação Xi, as compras de luxo desceram 15%, segundo o relatório Hurun que avalia a riqueza dos chineses (tem um top 1000 de milionários) e seus os hábitos de consumo.

 

Há muitos factores a justificar esta queda no consumo de luxo — por exemplo o boom do turismo, com os chineses a preferirem comprar fora para receberem de volta o valor do imposto —, mas as prendas representavam uma grande fatia das compras. “O nível do consumo do luxo tradicionais — peles, acessórios, relógios — vai baixar”, disse o criador do relatório, Rupert Hoogewerf, à Reuters.

 

Vai ser mau para as marcas — no ano passado, 25% das vendas das maiores etiquetas de luxo sairam da China. Mas Xi Jinping vai gostar.

 

 

publico.pt

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